Saudade de cinema de rua

Dafne Sampaio
Ultrapop

Os primeiros filmes que vi foram em cinemas de rua, mais precisamente no Centro de Fortaleza. Dá-lhe E.T. – O Extraterrestre, Superman III, Loucademia de Polícia e Trapalhões, muitos Trapalhões. O São Luís ainda existe, mas outros como o Diogo passaram dessa pra pior (shoppings, igrejas ou a pura e simples demolição). Depois vieram os do Rio de Janeiro. Vários na Praça Saens Peña, perto de onde morava, outros tantos no Centro e alguns poucos na Zona Sul. E tome Guerreiros de Fogo, Remo – Desarmando e Perigoso, Por Incrível que Pareça, Ran e Brás Cubas. Depois ainda vieram Ribeirão Preto, Campinas e, finalmente, São Paulo. Muitos e muitos filmes em cinemas de rua, sempre.

Tinha algo de mágico nesse movimento de sair da realidade (a cidade) para entrar na fantasia (o cinema) e depois voltar com uma montanha de imagens e assuntos na cabeça. Sempre achei que cinema, literatura, quadrinhos, música, cultura de uma forma geral, fazem a gente viver mais ou, pelo menos, ter mais experiências, conhecimentos e paixões. Cultura fica na gente, por baixo da pele, nos olhos. E os cinemas de rua fazem com que essas sensações se relacionem com a cidade. Mas lá pelo final dos anos 1980 os shoppings começaram a ganhar terreno.

Primeiro como modernidade e status provinciano, e depois como refúgio de classes médias e elites contra uma cidade que lhes parecia cada vez mais assustadora (é o medo do outro, do diferente, do Brasil, como se pode ver no longa O Som ao Redor, assunto que tratei em “Nem todos estão surdos”). Daí que os cinemas de rua foram sendo abandonados em nome de uma bolha de segurança e vitimados pela sempre esperta especulação imobiliária.

Mas não adianta chorar pelo fotograma derramado, pois os cinemas de shopping vieram pra ficar e ficou muito caro manter um cinema de rua. Talvez se houvessem incentivos públicos como isenção de IPTU, a coisa melhorasse um pouco, afinal qualquer equipamento cultural acaba movimentando a região que o cerca e isso é ótimo pra cidade.

No entanto tive sensações conflitantes quando soube que Juca Ferreira, Secretário de Cultura da nova gestão da Prefeitura de São Paulo, planeja comprar o prédio do falecido Cine Belas Artes (esquina da Consolação com a Paulista) para transformá-lo em centro cultural. Quer dizer, todo novo centro cultural é bem vindo, onde quer que seja, e a região agradeceria – bem como os que vivem, trabalham ou passam por ela – que lhe dessem uma chance contra a degradação urbana.

Por outro lado, o Belas Artes não tem nada de especial, a não ser, claro, a relação afetiva com seus frequentadores. Mas prédios também possuem seu ciclo de vida, é normal. Então, não seria o caso de usar esse dinheiro para criar equipamentos culturais em áreas menos favorecidas, como sugere Raul Juste Lores em “O elitismo da ‘compra’ do Belas Artes”? Ou que se pensem em políticas culturais melhores e mais abrangentes como diz Ricardo Queiroz em “A polêmica do Belas Artes”?

De uma forma ou de outra, tem que ter pipoqueiro, boteco perto, esses gêneros de primeira necessidade de uma cidade feliz.