Ultrapop

Skank, 21 anos depois

O jovem cantor e compositor mineiro reinterpreta "Raça", do repertório de Milton Nascimento, em evidente homenagem ao expoente máximo da música popular de seu estado natal. A versão é pop, pop-reggae, veloz, feita bem à maneira do grupo jovem do jovem cantor e compositor. Apoiado por sua banda Skank, o jovem Samuel Rosa canta "Raça" (1976), de Milton e Fernando Brant. Estamos em 1991.

De volta do túnel do tempo, 91 é o nome do novo (se é que se pode rotulá-lo assim) álbum do Skank, elaborado como uma auto-homenagem às mais de duas décadas de trajetória do quarteto formado por Samuel, Henrique Portugal, Lelo Zaneti e Haroldo Ferretti. Na primeira metade do CD estão versões caseiras, de 1991, para sete das canções que comporiam o bem-sucedido álbum de estreia da banda, o ainda independente Skank, de 1992.

A multinacional Sony adquiriria o passe do grupo quase imediatamente, e relançaria o disco remixado, em fevereiro de 1993. "In(dig)nação" e "Homem Q Sabia Demais" fariam sucesso de cara, mas seria o segundo álbum, Calango (1994), que começaria a consolidar o Skank, entre amostras de pop perfeito, não raro ligeiramente banal, como "Te Ver", "Pacato Cidadão" e, a seguir, "Garota Nacional", "É uma Partida de Futebol" (1996), "Resposta" (1998), "Ela Desapareceu", "Balada do Amor Inabalável" (2000), os baladões pop-dançantes "Amores Imperfeitos", "Vou Deixar" (2003) e "Uma Canção É pra Isso" (2006).

Banda em 1991 (Foto: Weber Padua/ Divulgação)

Bem antes dos baladões, no primeiro grupo de gravações, estava a versão juvenil, acelerada, de "Raça". Tirada agora do ineditismo, restabelece o laço consanguíneo entre o clube da esquina formulado por Milton Nascimento & turma (sobretudo) nos anos 1970 e o pop-rock mineiro que seria moldado na década de 1990 por Skank, Pato Fu e Jota Quest.

Caso análogo é o do pop-rock latinizado que abre 91, "Telefone", de Júlio Barroso, uma da pontas-de-lança da geração roqueira brasileira dos anos 1980, na versão original da banda Gang 90 & Absurdettes. "Oh, meu amor/ isso é amor", repete Samuel, em leitura bem mais acelerada-adrenalinada que a da Gang 90.

Jovem e cru, o Skank em seus princípios se montava a partir de pedaços — um clube da esquina aqui, uma new wave carioca/paulista ali, um samba-rock acolá. Para demarcar identidade própria, ocultou na partida várias das influências. Adicionou sopros que pop-reggaeficavam o rock da década anterior. Contou com as parcerias bem azeitadas de Samuel e Chico Amaral. Estabeleceu uma alternativa possível entre a axé music ultracomercial da Bahia e o manguebit supercabeça de Pernambuco, entre o rock rural mineiro então em recesso e o pop sertanejo hipermercadológico da música interiorana de então.

A segunda metade de 91 remonta a um show da então desconhecida banda em São Paulo. Mantém-se a introdução de um apresentador que lamenta o fato de a casa de shows Disco Reggae Night estar vazia e anuncia o Skank pronunciando o nome do grupo com sotaque norte-americano, agringalhado. Na trajetória seguinte, o Skank faria mais ou menos o oposto do que fez o apresentador naquela noite: abrasileiraria o pop latino e centro-americano, o reggae (em paralelo com o axé, que fazia o mesmo em outro registro), o rock além-fronteiras.

No decorrer de carreira vitoriosa, resistiram à ocultação das influências exemplos pontuais, como as versões ska-reggae-jamaicana de "É Proibido Fumar" (1964), de Roberto Carlos, incluída num tributo de 1994 ao "rei", e de "Cadê o Penalty?" (1978), do mestre samba-rock Jorge Ben (Jor). Essa foi mantida no álbum de estreia e no repertório da banda — e na parte ao vivo do novo-velho álbum.

91 é meio frankenstein, feito para fãs ferrenhos e demais iniciados — e, provavelmente, para o afeto dos próprios skanks e da gravadora Sony, onde estão até hoje. "Raça" e "Telefone" parecem piscar para nós, como a insinuar que o Skank está pronto para escancarar referências bem mais íntimas e profundas que o cabelo à la irmãos Gallagher de Samuel deixava supor anos atrás. 91 deixa gosto de curiosidade sobre uma banda que, afinal, não apresente repertório novo desde Carrossel, de seis anos atrás. Que venha o futuro.

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Sobre Pedro Alexandre Sanches

Pedro Alexandre Sanches é jornalista cultural desde 1995. É editor do site de música brasileira Farofafá. Trabalhou na "Folha de São Paulo" (1995-2004) e na "CartaCapital" (2005-2009), e publicou os livros "Tropicalismo - Decadência Bonita do Samba" (Boitempo, 2000) e "Como Dois e Dois São Cinco - Roberto Carlos (& Erasmo & Wanderléa)" (Boitempo, 2004).

Sobre José Guilherme

José Guilherme Pereira Leite é economista e cientista social de formação, apaixonado pelas artes desde os tempos de menino. É mestre em arquitetura e urbanismo pela USP. Entre 2006 e 2010, trabalhou para o Ministério da Cultura, em diversos projetos. Para o Yahoo Brasil escreve há cerca de dois anos.

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