Do tipo que sorri para fogos de artifício

Dafne Sampaio
Ultrapop

No último dia do ano fiquei horas e horas olhando um rio em busca de uma metáfora. Para o sentido da vida, a virada de ano, coisas assim, só que não encontrei nada e acabei dando um mergulho. Quando saí da água me desequilibrei e abri um talho acima do joelho. Sangrou um tanto bom na hora... que tudo se realize... mas não doeu, nem inchou... no ano que vai nascer... e o ano novo nasceu, como sempre. Só que pra mim com uns cortes na perna, o que, obviamente, não é fato nada metafórico.

Então fiquei pensando nisso de “que tudo se realize” enquanto minha irmã borrifava um sanativo e meus sobrinhos olhavam hipnotizados. Porque desde que me entendo como gente, os telejornais do dia 31 de dezembro e 1º de janeiro fazem as mesmas perguntas mundo afora e as respostas sobre os sonhos para o ano novo são invariavelmente aquelas de sempre. Homens falam de dinheiro, enquanto mulheres, mais cuidadosas, mencionam genericamente saúde e paz. Tudo vago para agradar o bom mocismo da boca pra fora proporcionado pela TV ou que dependa de forças externas extraordinárias como sorte ou Deus.

Mas antes que tudo se realize é preciso passar de ano. E lá vem o frenesi e a obrigatoriedade de ser feliz, muito feliz, durante o reveillon. Entre engarrafamentos na estrada, na praia e nas filas de banheiro, e na falta de água e luz com tanta gente amontoada em cidades e vilas que no resto do ano carecem de atenção. Alheio a tudo, o Rio Mal Cozinhado (cerca de 70 km de Fortaleza, o tal rio do início do texto) segue no fluxo de marés baixas e altas do seu encontro com o mar. Não existe ano novo no seu leito, muito menos siris espaçosos dirigindo Hilux. E quando a meia-noite se aproxima o rio continua lá impávido e em constante movimento.

Então decido jogar o relógio para escanteio na espera que os gritos e fogos anunciem que 2012 é passado e 2013 é presente e futuro. Mas e aí? O que falaria na TV sobre o que desejo para o ano? Dinheiro? Paz? Não. Saúde, talvez. “Saúde é o que interessa, o resto não tem pressa!”, grita o sempre elétrico Paulo Cintura dentro da minha cabeça, enquanto os primeiros fogos estouram ao longe (alguém adiantado).

Mas coisas assim não dependem da gente. Nada disso é busca pessoal. Mais fogos, devem faltar uns cinco minutos. Já desencanei de procurar respostas no rio, não tem escapatória, é comigo mesmo, tá tudo no meu nome. Quero continuamente ser uma pessoa melhor (pra mim, para os que me cercam) do tipo que julga menos, ama e ouve mais. Do tipo que transforma medo em reflexão, curiosidade em ação, encantamento em paixão, músicas em amor, segundas chances em belezas totais. Bem na hora dos fogos. Fogos. 2013. Fogos. Fogos. E eu sorri. Quem sabe?

p.s.: “Brisa tropicana” é faixa de Pelos Trópicos, terceiro disco da cantora paulistana Andreia Dias, e está disponível para download gratuito.