Guga vira pra cima de Nadal e é hexa em Roland Garros!

Lucas De Tommaso
Brasil de Ouro

Enzo tem 4 anos e, pela idade, nunca tinha visto Guga jogar (como o amigo João Junqueira). Mas jamais vai esquecer do dia que repetiu o gesto do ídolo depois de bater uma bolinha com ele. Enzo era um dos 11600 torcedores que lotaram o Maracanãzinho para ver a exibição entre Guga e Novak Djokovic, atual número 1 do mundo.

Há alguns meses, a revista ALFA perguntou numa reportagem: e SE Senna nao tivesse morrido, como teria sido a Fórmula-1? O que mais ele teria ganhado? Depois de ver o ginásio carioca completamente lotado para uma partida amistosa de tênis, eu convido vocês para um exercício de imaginação parecido: e SE Guga não tivesse sentido as dores no quadril? E SE ele tivesse conseguido jogar em alto nível por mais algum tempo? O que ele teria conquistado a mais, como seria o tênis brasileiro?

Guga se aposentou oficialmente das quadras em 2008, mas as dores no quadril o atormentavam já desde o final de 2001, quando ganhou seu último torneio de Master 1000, na quadra dura de Cincinatti, nos Estados Unidos, onde superou, em sequência, Andy Roddick, Tommy Haas, Goran Ivanisevic, Yevgeny Kafelnikov, Tim Henman e Patrick Rafter, todos especialistas no piso. É consenso que a última grande exibição de Gustavo Kuerten no tênis profissional foi nas oitavas-de-final de Roland Garros, em 2004, quando aplicou um espetacular triplo 6-4 em Roger Federer (então número 1 do mundo e já apontado como o possível melhor da história). Então, o recorte temporal aqui será: e se Guga tivesse jogado em alto nível até o final de 2004? Ou, vá lá, até o meio de 2005.

Vamos voltar a 2001, quando Guga defendeu o título da Masters Cup de 2000. Não fossem as dores, a campanha do brasileiro em Sidney seria bem melhor. Vamos apagar as três derrotas e a eliminação na fase grupos. Sem dores e motivado pelo tricampeonato em Paris e pelos bons resultados na quadra dura, Guga só teria perdido para a eterna carne de pescoço, o russo Yavgeny Kafelnikov. Com duas vitórias sobre Juan Carlos Ferrero e Goran Ivanisevic, teria se classificado para o qudrangular final. Motivado pela busca do bi, ele travaria uma batalha épica contra Lleyton Hewitt que, mesmo apoiado pela torcida, perderia por 2 sets a 1, depois de tomar uma linda passada de esquerda na paralela. A final contra o francês Sebastian Grosjean seria um baile para quem, um ano antes, se tornou o único tenista da história a ganhar de Pete Sampras e Andre Agassi no mesmo torneio. Era o bicampeonato e mais um ano terminando na liderança do ranking mundial.

A boa temporada nas quadras rápidas teria um final melhor do que a eliminação na primeira rodada do Aberto da Austrália de 2002. Com uma chave relativamente tranquila, Guga teria ido até as oitavas-de-final. A vitória sobre Thomas Johansson, sueco campeão daquele ano era improvável. Johansson estava jogando o fino da bola, tanto qua ganhou de Safin na final.

Depois disso, a temporada de terra batida em 2002 já tinha dono: Gustavo Kuerten se sagraria bicampeão dos Masters 1000 de Roma e Monte Carlo e faria o povo brasileiro soltar mais uma vez gritos de "É TETRA", só que em Paris. A vitória seria sobre o freguês Juan Carlos Ferrero.

Acho que Guga não seria campeão de Wimbledon, mas pelo menos teria participado da edição de 2002 e teria ido às quartas-de-final (o que André Sá conseguiu fazer naquela edição, quando foi derrotado por Tim Henman). O restante da temporada de Guga não seria tão brilhante quanto a primeira metade, já que uma geração de tenistas de quadra rápida estava começando a se concretizar: Hewytt, Roddick e Federer, por exemplo.

O ano de 2003 seria um pouco complicado para Guga, inclusive nos torneios de saibro. Argentina e Espanha, países que tradicionalmente investem no tênis, estavam com tenistas dominantes na terra batida. Juan Carlos Ferreto, Tommy Robredo, David Nalbadian, Gaston Gaudio, Guillermo Coria, Rafael Nadal e por aí vai. Guga obviamente faria boas campanhas nos grandes torneios, mas nenhuma conquista impressionante.

Guga era (é, e sempre será) um fenômeno! Certa vez, um médico da ATP falou assim: "nunca vi alguém tão despretensioso chegar tão longe". Era um jogador alto, que fazia esforço para jogar (por mais que a esquerda mais bonita da história do tênis parecesse fácil de fazer). Inevitavelmente as dores chegariam (mas até aqui já conseguimos afastá-las por dois anos). Vamos então para os últimos capítulos do nosso "e se fosse verdade".

O penta de Guga em Roland Garros seria em 2004. Depois de atropelar Federer nas oitavas-de-final, faria o mesmo com David Nalbandian nas quartas; com Gaston Gaudio - súdito na esquerda na paralela-, e que não teria sido campeão; e na final com Guillermo Coria. Um título em grande estilo e que pouparia os amantes do tênis de uma das piores finais de Grand Slam do esporte (a que de fato aconteceu, entre Coria e Gaudio).

Na minha contagem, hexa vem depois do Penta. E o de Guga seria apoteótico. A quadra Philipe Chatrier, a principal do complexo de Roland Garros, seria lugar do maior jogo de tênis de todos os tempos. Guga, o então Rei do Saibro, contra Rafael Nadal, futuro monarca.

Nadal chegou à decisão como favorito, afinal tinha repetido o brasileiro, que nos anos de 2001 e 2002 venceu Monte Carlo e Roma em sequência antes de chegar à final em Paris. E logo de cara mostrou ao "Manezinho da Ilha" quem estava pronto para ser o novo queridinho dos franceses. O Miúra se aproveitava da diferença de idade e do canhão cheio de top spin do seu forhand para castigar o brasileiro. Resultado parcial de 2 sets a 0 para Rafa.

O placar do terceiro set anotava 5 a 4 a favor de Nadal, com ele no saque para liquidar a fatura do campeoonato. Na virada de quadra, Guga sabia que não podia mais errar. Sentou no banco, comeu o seu tradicional pedaço de banana e ouviu um grito da arquibancada vindo em bom português: "Bota o coração, Guga!". Depois de salvar dois match points com duas paralelas de esquerda, Gustavo Kuerten conseguiu ganhar o set no tie-break e seguir vivo na partida. Nadal, que ainda era jovem e precisava amadurecer um pouco o psicológico, se desconcertou: viu que o brasileiro começava a dominar os pontos de fundo de quadra, ora finalizados na paralela, ora na cruzada. A torcida já era toda verde-amarela quando Guga levou o quarto set no tie-break e sacava em 5/4 para fechar o jogo e levantar a taça, que veio com um saque no meio que Rafa nem tentou responder.

Guga se sagrava hexa, como Bjorn Borg, e desenhava no saibro sagrado seis corações, ao som de 14 mil vozes gritando, com sotaque francês: "ole, ole, le, olá, Guga, Guga!". (Veja o vídeo abaixo)

E se o quadril não tivesse sido cruel com Guga, muito mais do que os seis títulos de Roland Garros e mais algumas semanas na liderança do ranking, ele e Djokovic teriam de jogar no Maracanã para 80 mil pessoas reverenciarem o maior ídolo vivo do esporte brasileiro. E faltaria espaço para Enzos, porque o tênis já seria de vez uma paixão nacional.