A história está passando

Lúcio Flávio Pinto

A opinião pública brasileira parece estar sofrendo de uma disfunção intelectual muito semelhante à ejaculação precoce. Sua atenção é levada ao paroxismo antes que dela possa resultar uma ação. E quando o momento de intervir se apresenta, está desatenta, já perdeu o interesse, passou para outro item da agenda. Não converte sua vontade em fato concreto. Passa pela história sem dela se tornar personagem.

É o caso das hidrelétricas na Amazônia. Os holofotes estão direcionados para a usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. Ela é o alvo de intenso tiroteio dos críticos do modelo energético e de arrogante silêncio da parte dos executores da obra.

Enquanto isso, há quase dois meses a hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, está em funcionamento. Duas das 46 turbinas entraram em operação no dia 30. Até o final do ano a previsão é de que 12 máquinas estejam em linha.

A usina, de custo projetado para R$ 16 bilhões, poderá gerar então 859 mil megawatts, o suficiente, segundo a concessionária da usina, para atender o consumo de 40 milhões de pessoas. É nada menos do que 20% de toda a população brasileira. Sua capacidade final será de 3,1 mil MW.

Por que esse silêncio acabrunhante? Porque a polêmica hidrelétrica já é fato consumado e o que interessa é combater essas obras enquanto elas ainda estão em andamento, para que não se materializem?

Uma vez tornadas prontas e acabadas, os que a vinham acompanhando partem para outro front. O objetivo não são os resultados práticos. É a defesa da causa. Ou o combate à causa antagônica.

Como, independentemente de quem vença os duelos intelectuais, a história real da Amazônia prosseguirá, esse tipo de atitude, a pretexto de combater uma forma de colonialismo (interno e externo), ao ser sua contrafação mecânica se torna também seu espelho, a face inversa da mesma moeda.

A imprensa — como a mais autêntica porta-voz da sociedade — devia estar informando-a sistematicamente sobre o start da usina de Santo Antônio. O acompanhamento da partida da megabarragem de Tucuruí (a quarta maior do mundo), no rio Tocantins, ainda sob o regime militar (embora em seus estertores), na metade dos anos 1980, foi mais atenta e fecunda do que a das hidrelétricas de hoje, construídas durante o mais duradouro período democrático no Brasil.

Há muita coisa em jogo no avanço da motorização em Santo Antônio, que começou a ser feita nove meses antes do previsto pelo cronograma original, apesar de todos os incidentes e problemas de percurso de uma grande e controversa obra como essa.

O efeito mais imediato e próximo é sobre a outra hidrelétrica do mesmo porte e no mesmo rio, a de Jirau, que tem um cronograma mais atrasado. Mas diz respeito às futuras usinas na Amazônia.

As duas turbinas já em operação em Santo Antonio são do tipo bulbo. Essa tecnologia permite gerar energia em baixa queda, ao contrário das turbinas convencionais, que requerem um desnível de água suficientemente expressivo para produzir volumes maiores de energia.

O efeito prático dessa tecnologia é não exigir barragens de alta queda, como a de Tucuruí, que tem 70 metros de altura. Represas baixas significam menores áreas alagáveis. Nada como no Tocantins, cujo represamento provocou a formação do segundo maior lago artificial do país, com área de três mil quilômetros quadrados. Sem esse reservatório, a usina não poderia atingir sua produção máxima, de 8,2 mil MW, só superada pela represa de Itaipu, no Paraná.

As duas barragens do Madeira, aparelhadas com a maior quantidade de turbinas bulbo do mundo, sem paralelo em qualquer outro país (o que lhes dá um caráter pioneiro perigoso e crítico, a demandar mais profundas análises), funcionam a rio corrente, a "fio d'água", conforme o jargão da engenharia. Não precisam da estocagem de água de um grande reservatório, para acionar as monstruosas palhetas das turbinas convencionais, sobretudo no verão, quando há muito menos água na região.

Esta seria a nova tendência na motorização de hidrelétricas na Amazônia. Mas não é o caso de Belo Monte, com orçamento duas vezes maior do que Santo Antônio. A usina do Xingu também quase não terá reservatório, mas suas turbinas não são as do tipo bulbo. São mesmo as convencionais, que precisam de enormes volumes de água em queda até as máquinas. Cada turbina precisa de 500 mil litros por segundo para atingir pena carga.

É evidente que há um descompasso entre o layout de Santo Antônio e Jirau e o de Belo Monte. Enquanto o primeiro é coerente com o rio Madeira, o mais caudaloso afluente do Amazonas, com um regime hidrológico mais estável (tem sempre um bom volume de água o ano inteiro), o segundo está em paradoxo com as características do Xingu.

No inverno este rio também é um expressivo fornecedor de águas para o Amazonas. Mas no verão o seu fluxo pode se reduzir em até 30 vezes. Vira um córrego em certos trechos na estiagem. Não haverá água nesse período para mexer as fantásticas engrenagens da casa de força de Belo Monte. Todas as máquinas ficarão paradas por dois ou três meses. Ou mais.

Mil explicações e desculpas já foram apresentadas pelos executores dessa obra, mas uma coisa está acima de qualquer dúvida: combatida e vetada num primeiro momento por causa dos enormes impactos ambientais que provocaria, Belo Monte foi toda redesenhada para ser uma hidrelétrica ecologicamente aceitável.

O preço desse ajuste foi torná-la inviável economicamente. Para que a adequação ao meio ambiente fosse completa, ela devia ter sido aparelhada com turbinas tipo bulbo, como Santo Antônio e Jirau. Mas se fosse assim não produziria o tanto de energia (11,3 mil MW) que se quer obter dela no auge da estação chuvosa. Escolheu-se uma solução mista. Para isso ignorando que o Xingu não é o Madeira, muito pelo contrário.

O resultado: criou-se um Frankenstein. O problema agora é saber se quem pariu Mateus o conseguirá embalar. Ou, dito de forma mais direta: como impedir que Belo Monte venha a dar prejuízo quando começar a funcionar.Prejuízo certo. E grande.