Cartas da Amazônia

A onda gigante engoliu o porto?

A grande onda de refluxo do rio Amazonas no choque com o Oceano Atlântico, conhecida por pororoca, foi fraca, na semana passada, para decepção dos surfistas. Eles esperavam subir na onda gigante que reverte do mar quando, na sua luta titânica com o maior rio do mundo, não permite ao Amazonas avançar tanto, como faz na maioria das vezes, penetrando em até 100 quilômetros sobre água salgada, tornando-a salobra.

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Mas a pororoca mereceu mais atenção da imprensa do que o acontecimento quase à meia noite do dia 28 do mês passado. Foi quando desmoronou parte do terreno onde funcionava o píer flutuante da multinacional Anglo American, utilizado na atracação de navios que embarcam minério de ferro em Santana, no Amapá, na mesma faixa de influência, no estuário do Amazonas, onde ocorre a pororoca. Muita terra, minério, algumas embarcações e seis pessoas foram para o fundo, arrastadas pelas águas violentas do rio. Os corpos de três delas não foram resgatados.

Foi um dos mais graves acidentes desse tipo ocorrido na Amazônia nos últimos anos. A explicação oficial dada para o desmoronamento não foi capaz de interessar a imprensa. O porto teria ruído por causa do rio Amazonas. Uma onda gigante teria erodido o terreno até arrastá-lo no rumo do oceano Atlântico. Se a versão fosse correta, teria sido a maior ocorrência de terras caídas à margem dos maior rio do mundo em todos os tempos.

Quem circula pelo Amazonas com alguma constância pode observar o fenômeno. Na grande cheia de 1976, uma das maiores do século passado (o Amazonas sobe e desce em intervalos semestrais), eu observava a paisagem quando um búfalo se lançou sobre uma pequena ilha com capim que descia pela correnteza e foi embora também.

Na época da cheia uma das principais missões dos vaqueiros é evitar esse fato. Eles tangem o rebanho sobre canoas e vão tocando os animais para pontos seguros. Mas um local de terra firme pode desabar e ir embora na correnteza, como aconteceu com o búfalo.

Mas jamais vi ou tive referência de um desmoronamento tão grande quanto o do porto de Santana, que abriu uma cratera naquele local. Duas hipóteses se mostravam mais plausíveis do que a da onda gigante: uma combinação da ação erosiva do rio sobre suas margens devido a pressão dos milhares de toneladas de minério de ferro estocado à espera de embarque; ou a superonda mesmo, mas justamente como efeito da queda de tanta terra e minério.

Durante quase meio século o porto de Santana serviu ao embarque de manganês, dos mais puros que havia no mundo, trazido de uma distância de 200 quilômetros, por trem, da mina da Serra do Navio, pela Icomi, empresa criada pela multinacional americana Bethlehem Steel com o engenheiro mineiro Augusto Trajano de Azevedo Antunes.

A jazida foi exaurida e a mineradora se retirou sem cumprir suas obrigações legais. Uma das maiores, que constitui chaga mortal ainda aberta, é o remanescente de arsênio, subproduto altamente tóxico e agente cancerígeno que foi descartado durante a tentativa de agregar um pouco de valor à simples extração de matéria prima.

A Icomi construiu uma usina para agregar o minério fino em pelotas, como é feito sem problemas com o minério de ferro, para o qual a tecnologia já está consolidada e o descarte não é tão agressivo. A experiência pioneira com o manganês, quando já mais fino e de menor teor do que no início, não deu certo, durando pouco tempo.

Mas o rejeito de arsênio contaminou a população da vila vizinha do Elesbão, com dois mil habitantes. Casos de câncer, deformação e morte são o que persiste do capítulo efêmero da esperança de desenvolvimento pela mineração de manganês. Não se sabe se parte do estoque de arsênio remanescente possa ter sido alcançado pela erosão.

Só quando uma nota oficial da Anglo American confirmou o acidente é que as pessoas mais atentas puderam ter uma ideia da gravidade da situação. Mas não ao ponto de provocar a repercussão devida. A desatenção para com esses fatos foi a mesma quando desmoronamento semelhante, e bem mais grave, ocorreu no porto de Chibatão, em Manaus, que simplesmente desapareceu, em outubro de 2010.

Centenas de contêineres, caminhões, outros veículos e cargas foram lançados ao rio, causando prejuízos nunca exatamente avaliados. Houve mortos e feridos. O porto era obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal.

Pouco antes o mundo inteiro tinha se chocado com o tsunami na Ásia. No porto de Chibatão, o principal terminal fluvial de uma cidade com dois milhões de habitantes, um dos maiores centros de montagem de produtos importados e revenda do mundo, o espetáculo semelhante era produto não da natureza, mas dos homens.

Quem viu aquelas cenas, muito semelhantes à das grandes ondas asiáticas derivadas de um abalo sísmico em alto mar, não podia conceber a sua causa: a pressão de centenas de equipamentos e cargas sobre uma nesga de terra, sem a mais pálida infraestrutura para suportar essa pressão, estática e dinâmica. Era previsível aquela colossal erosão, Mas ninguém se preocupou com isso. A Amazônia é no (e “o”) fim do mundo mesmo.

Os seus exploradores e pioneiros querem é ganhar dinheiro – muito e rápido. Com doses de sagacidade, esperteza, audácia e pouco escrúpulo, além de dispor de engrenagens de poder, montam seus negócios para acumular seu capital e reinvesti-lo em áreas mais rentáveis, quase sempre fora da Amazônia.

Depois que a Icomi se foi, deixando o Amapá mais ou menos como o encontrou, foi a vez do sempre presente Eike Batista sucedê-la. Eike produziu algum ouro e muita propaganda em torno das riquezas de que se declarava dono. Uma delas era o minério de ferro, que não interessou à Bethlehem Steel porque a então segunda maior siderúrgica do mundo estava necessitada de manganês. E o Amapá dispunha de autêntico filé-mignon.

Eike montou seu projeto e, como de hábito, o passou em frente à Anglo American. Por conta das projeções extravagantes e exageradas do seu interlocutor, a multinacional teve que abater quatro bilhões de dólares dos seus ativos no balanço do ano passado. Talvez por isso, suas instalações para embarque de minério de ferro em Santana sejam tão primárias.

Seria mais um grande prejuízo para a mineradora, não fosse uma circunstância, ainda a ser confirmada. Recentemente a Anglo negociou essa mina com o grupo indiano Zamim, que já explora ferro no Amapá através da Zamapá, e utilizava o mesmo porto. Se o grupo Zamim já concluiu a compra, serão eles que pagarão a conta do desabamento.

A resposta ajudará a elucidar quem, no final das contas, pagará pelos estragos da “onda gigante” que destruiu o porto de Santana.

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Sobre Lúcio Flávio

Lúcio Flávio Pinto, 64, é jornalista desde 1966. Editor do "Jornal Pessoal", publicação quinzenal que circula em Belém do Pará desde 1987.

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