A kriptonita pessoal vai derreter as balas de prata contra Dilma e Aécio

Claudio Tognolli
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Vivemos na semana da bala de prata. As redes sociais estão infestadas de manifestações sobre o que as assessorias de Dilma e Aécio podem lançar na sexta-feira, seja no debate na Globo, seja em alguma mídia.

A pergunta que não quer calar é: o quanto uma bala de prata gerada por assessores, e voltada a certas mídias, poderá alterar as cabeças dos indecisos que vão decidir esta eleição?

Em 36 anos de jornalismo este blogueiro testemunhou algumas balas de prata cuja eficácia ninguém até hoje aferiu.

Dizia-se no passado que uma “vária” (nota editorial curta) do Jornal do Commercio derrubaria até Deus. Esses tempos não mais existem. Nem capa de revista é mais bala de prata.

Conheço uma boa bala de prata que funcionou. Mas aconteceu nos EUA. Gary Hart era a grande esperança do partido democrata norte-americano. Anunciou oficialmente, em maio de 1987, a candidatura à Casa Branca. Mas o Miami Herald revelou que Hart havia passado  uma noite em companhia de um jovem manequim, sem conhecimento da mulher. Hart negou. Depois, sem saída, declarou que a vida privada dos homens políticos não deve ser pública. Mas o escândalo assumiu tais proporções que Hart retirou a candidatura. E quando regressou à corrida, sete meses mais tarde, terminou em último, numa distância olímpica dos dos outros  sete candidatos democratas à presidência dos EUA.

A. M. Rosenthal, então editor-assistente do The New York Times, num artigo clássico, de maio de 1987, chamado “Ouvindo o ranger da cama” condenou a publicação do Herald: referindo que “não me tornei jornalista para ficar escondido do lado de fora da casa de um político para ver se ele está na cama com alguém”.

Brigadeiro bala de prata
Conversei com general Golbery do Couto e Silva, bruxo da abertura política, duas vezes, por telefone. Numa delas era para conferir a seguinte história de uma bala de prata. O tenente Eduardo Gomes, na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana,  em 1922, teria tomado um tiro na Benelux (países baixos): e ficado emasculado. Na sua candidatura à presidência, em 1945, com o lema “Brigadeiro é bonito e é solteiro”, a oposição soltava nas mídias notinhas de que ele era o “capão bonito”. E, segundo Golbery, até um doce, que não tinha nome até então, foi batizado de “brigadeiro” pela oposição, naquela  campanha presidencial: tudo porque o doce brigadeiro não tem ovos na receita original…
 
Este blogueiro testemunhou pessoalmente algumas balas de prata. Vamos falar das eleições de 1989. O Datafolha havia noticiado, sozinho, que quem iria para o segundo turno eram Lula e Collor, e não Brizola. Acertaram na mosca.

Inconformado (não se sabe se pelo furo preciso do Datafolha ou se pelo anúncio da ida de Lula ao segundo turno), o jornal O Globo trouxe reportagem, de autoria de Dalton Moreira e Chico Capela, indicando que o Datafolha “chutara” a aposta em Lula pela margem de poucos milhares de votos (sic).

Verdadeira ou não, a reportagem do Globo estremeceu por meses as relações entre os dois jornais.
Também naquelas eleições de 1989 duas balas de prata tentaram mudar o curso das eleições: o furo do Jornal do Brasil, de que Lula não reconhecia a filha Lurian Cordeiro Lula da Silva. E outro sumamente fecal: a nós, que cobríamos o sequestro de Abilio Diniz, a Polícia Civil de São Paulo ofereceu um cenário torpe: com milhares de projéteis, dezenas de submetralhadoras, e em meio ao arsenal fotos da campanha de Lula à presidência.

Tentaram a todo custo vincular Lula aos sequestradores. Lembre-se que Abilio foi solto do cativeiro, na zona sul de São Paulo, exatamente às 17h daquele 17 de dezembro de 1989: ao fechamento das urnas do segundo turno, que conduziram Collor à Presidência. Torno essa foto pública pela primeira vez.

Também lembro de uma bala de prata plotada pelo PT. Em março de 1998 fui capa da revista Caros Amigos, com o então mais processado jornalista do Brasil. Ali contei uma particularidade: como na Folha de S. Paulo havia encomendado a mim e a outro repórter especial a tarefa de ir atrás do suposto filho de Fernando Henrique Cardoso, fora do casamento. Contei que o outro repórter tentaria arrancar do terno de FHC um cabelo com bulbo (o que era impossível). E a mim caberia mandar fazer o exame de DNA, numa época em que apenas uma pessoa o fazia em todo o  Brasil (era um médico geneticista  da Polícia Civil de São Paulo).

Meses mais tarde, o PT pegou a minha dica: e a plantou na capa de Caros Amigos, aquela sobre o porquê  a mídia não noticiava nada sobre o filho de FHC fora do casamento.

Foi feio, feio “bagaray”: o filho não era de FHC e mesmo assim ele assumiu a paternidade. Um ponto de honra para o tucano sobre o qual as pessoas insistem em não se lembrar…
 
Vamos esperar a bala de prata de sexta-feira próxima.

Com a certeza (numa mixórdia entre Drácula e Super Homem), de que nos tempos ultra-modernos as balas de prata da mídia murcham à irrelevância face a Kriptonita que é a opinião pessoal de cada eleitor..