A nova intolerância: o politicamente correto ou o humor levado a sério

Garfiel

 

Um tiozinho de olhar bovino e mole, mas feições endurecidas, e uma classe de luz arcangelicamente doce sobre a cabeça (que a idade lhe trouxe), beberica uma “ciqueteú” (51) num boteco dos Jardins. Nivela seu destino com 3 pedreiros: um é sensaborão (mas um deles tem a voz tresnoitada, de fauno). Olha para o nada. E dispara: “Sou da época em que não se podia falar mal do governo, porque se era preso. Mas uma época em que gente como Jô Soares, Chico Anysio, Costinha, Renato Corte Real, Golias, José Vasconcelos, e outros, ganhavam uma fortuna tirando sarro, na TV, de nordestino, de viado, de negro, de puta, de pobre, de aleijado, turco, de judeu, de corintiano, de padre. Do diabo. Hoje eu posso meter a boca no governo: mas se meter a boca nesses daí, vou pra cadeia”.

A cena remete este blogueiro a outra. Era metade dos anos 90. No Jornal da Tarde, o blogueiro havia conseguido uma entrevista exclusiva com Jim Davis, cartunista criador do gato Garfield. Malgrado sua tirinha saísse na Folha de S. Paulo, ele quis falar apenas do Jornal da Tarde. Onde achar Jim Davis na recepção do hotel Renaissance, nos Jardins? Foi fácil. Ele era a cara do gato Garfield. E isso a primeira pergunta, geradora de um Jim Davis que se descompôs, matracolejando de gargalhadas paleontológicas ( de uma paspalhice cómica assustadora…)

——Kkkkkkk, todo mundo me pergunta isso! Sou a cara do gato porque, para dar feições a ele, eu tinha de me olhar no espelho, então aos poucos ele acabou assumindo as minhas feições!!!

A primeira pergunta de gravador ligado foi o que ele achava do politicamente correto. Se era algo válido, a conter a asselvajada  brutalidade da intolerância: ou se era um código de comportamento chato, à direitura do humor —algo bem outoniço se impondo ao verão das gargalhadas dos monjolos e brutamontes do dia-a-dia.

Olheiras gordas como marmitas, arreganhando a dentuça, Jim Davis disparou:

—Todo o humor nasce da diferença. O negro tira um sarro do branquela, o branquela do negro, o alto tira um sarro do baixinho, que o chama de girafa. O riso nasce da diferença. Garfield põe em xeque a todo o momento a inteligência do cão Odie, o chamando de burro. Sem diferença, não há humor.

 

Ok, dirão: é importante que um grife glamorosa do humor fino diga isso.

Mas a realidade das coisas é bem outra: as centenas de processos contra humoristas cimentam um compadresco antigo com a idade média. Basta você ir no endereço abaixo e ver que pilhérias de toda a ordem se converteram em ações milionárias contra humoristas:

https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=acoes+contra+humoristas

 

Não tenho capacidade lógica para entender porque o humor passou a ser levado tão a sério.  Mas uma coisa se depreende: a patrulha ideológica do politicamente correto tornou o mundo um lugar mais sisudo, antártico, impugnante, tabelionesco: o diabo.

Nem o pai do comunismo, Karl Marx, caiu nessa. Ele tem uma interessante história escrita sobre esse tema, que são as chamadas “Cartas à madame Harkness”. Nas missivas, Marx confessa que um seguidor do marxismo, o advogado Lassalle, havia escrito peças muito ruins e chatas porque pareciam libelos marxistas intragáveis – com personagens vomitando gritas comunistas a todo o momento.

Para madame Harkness, Karl Marx confessou que preferia Balzac, um escritor conservador, mas em cujas obras o realismo havia vencido. Ou seja: na estética marxista, o marxismo cai bem quando, na arte, aparece lateral, oblíquo, enviesado, ladino, como uma torre no xadrez. O ataque frontal, o libelo contaminam a sutileza da arte, diz essa escolar.

Marx condenaria o politicamente correto. Afinal ele é algo muito parecido com o que Stalin tentou fazer com o seu Realismo Socialista. Ele foi  aprovado por ocasião do 1º Congresso de Escritores Soviéticos, em 1934. Foi elaborado por Andrej Zdanov, braço direito de Stalin. Dizia a ata do negócio que “teatro, literatura, artes visuais  e humor devem ter um compromisso primeiro com a educação e formação das massas para o socialismo em construção no país….uma arte “proletária e progressista”, politicamente, envolvida com os temas nacionais e com as questões fundamentais do povo russo”.

Bom: seguir esse caminho ( a história mostra) levou onde já sabemos, não ?