Autoridade planetária no tema, Claudio Willer lança livro sobre o universo Beat

Claudio Willer está lançando Os rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico, L&PM (200 páginas, R$ 34,90),  na livraria Martins Fontes, Avenida Paulista 509, dia 3 de julho, a partir das 19h.

É apontado como a maior autoridade sobre cultura beat do planeta.

Um dos ícones brasileiros do estudo da contracultura, nascido em 1940, Willer é poeta, ensaísta e tradutor, ligado à criação literária mais rebelde, ao surrealismo e geração beat. Suas outras publicações recentes: Manifestos, 1964-2010, (Azougue, 2013), Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia (Civilização Brasileira, 2010); Geração Beat (L&PM Pocket, 2009);Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004). Traduziu Lautréamont, Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Antonin Artaud. Publicado em antologias e periódicos no Brasil e em outros países. É doutor em Letras na USP.

Nascido nos anos 50, o movimento Beat atacava o marcartismo e o mundo bipolar. Seus epígonos, como Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Jack Kerouac , apesar disso, conseguiram ser odiados por marxistas e capitalistas. Seja Bush pai ou Fidel Castro, o mundo bipolar lhes odiava o senso de liberdade e anarquismo. E o pendor místico. Afinal eram espíritos no mundo material...

Sobre seu novo livro, Claudio Willer falou a este blog:

Por que e quando você começou a se interessar pelos beats?

Quando caí na vida, acho – por volta de 1960. Li On the Road e The Dharma Bums (Os vagabundos iluminados) de Kerouac e gostei. Beat era tema na imprensa, novidade que interessava, inclusive pelo escândalo que provocava, tentativas de censura, libertinagem  etc. Manifestações de rebelião, inconformismo, gostávamos disso. Em 1961, como relato em meu Geração Beat (L&PM Pocket) , o poeta Roberto Piva me apareceu em casa com uma pilha de edições da City Lights, Ginsberg, Corso, Ferlinghetti e outros. Devoramos. Em 1967, junto com Decio Bar, fiz encenação teatral de poemas beat – traduzi Ginsberg, Uivo inclusive. Quando o mercado editorial brasileiro despertou para a beat, em 1984 (trinta anos!) eu estava preparado para participar.

Como e quem o movimento impacta na cultura brasileira?

Muita gente. Já fiz listas de beats brasileiros. Mas o importante a assinalar, acho, é a ampliação desse impacto, ou dessa presença. Isso é atestado pela movimentação editorial, a quantidade de obras de Kerouac, Ginsberg e outros que vem sendo publicada. Há cada vez mais leitores, o que justifica a publicação de um ensaio mais complexo como este que estou lançando: é um guia de leitura, procurando mostrar  mais conteúdo e qualidade nesses autores – principalmente em Kerouac, algo menosprezado, ainda, por uma crítica mais acadêmica ou formalista.

Como voce definiria a estética beat em termos de codigo de comportamento?

Palavras-chave são liberdade, espontaneidade, valorização do som, da oralidade. Mas foram autores cultos, suas criações dialogavam com o que liam.  Desregramento não conflita com conhecimento

Há beats atuais? Como os primeiros beats veriam o quadro atual do mundo?

Cabe lembrar que os beats estão aí, continuam – Gary Snyder, Michael McClure, Lawrence Ferlinghetti, Diane di Prima são idosos, mas estão em forma.  Mas a contribuição beat, principalmente através da contracultura, foi tão ampla que é difícil localizar, especificar nomes.

--Gyorgy Lukacs, o marxista magiar, referia que o que fica de uma época é a forma, e não o conteúdo. Qual o legado formal dos beats?

Curioso. Afinal, Balzac, sobre quem Lukacs escreveu, permaneceu pela forma, por enriquecer a narrativa, e pelo conteúdo, pela crítica à sociedade em que vivia, e pelo pessimismo extremo. É central nos beats a confusão proposital de literatura e vida. Formalmente, eu diria que a valorização da dimensão musical da criação literária, da presença da língua falada, da língua das ruas inclusive, mas convivendo com a expressão erudita. Kerouac, sob esse aspecto, é genial – tem trechos, em sua prosa poética, em que você ouve Shakespeare e língua das ruas daquele momento, combinados de modo harmônico.