Black Friday: até agora, cinco mil queixas

O número de reclamações sobre a Black Friday recebidas pelo site Reclame Aqui já ultrapassa a marca de 5 mil queixas. Segundo o serviço, das 18h de quinta-feira às 15h20 desta sexta-feira (28) tinham sido contabilizadas 5.260 reclamações.

Veja aqui o ranking completo das mais reclamadas.

 

No Brasil, ser reconhecido como gente é ser comprador: aqui direitos do cidadão são apenas direitos do consumidor.

Pautas na televisão têm contemplado agora, aos magotes, atores sociais da periferia: é claro, agora têm dinheiro para comprar. Viraram gente.

Mas tudo isso tem um preço, nos dois sentidos do termo.

 

O número de inadimplentes atingiu o recorde de 57 milhões de brasileiros, este ano, segundo levantamento da Serasa Experian. Dados de agosto passado: o total de consumidores com dívidas em atraso é maior do que o verificado em agosto de 2013, quando foram registrados 55 milhões. Um lote de 60% dos inadimplentes têm contas mensais a pagar que custam acima de 100% de sua renda mensal. Outro lote, de 53% dos endividados, acumulam até duas dívidas não honradas.

Há uns 40 anos isso era uma heresia entre os jovens. (heresia vem do grego e significa “escolha”)

Quando a cultura hippie era moda, nos 60 e 70, você encontrava na USP e nas PUCs da vida hordas e hordas de gente falando sobre o conceito de “fetiche da mercadoria”.

Quando o marxismo não havia degenerado no groucho-marxismo, as pessoas acreditavam naqueles termos “cosificação” (as pessoas trabalham tanto até virarem coisas, peças), e “reificação” (os objtos são vendidos como se tivessem valores humanos desejáveis).

Assim, diziam, os coisificados perdiam suas almas para o trabalho: e as reconquistavam comprando produtos que, humanizados, lhes traziam a alma de volta.

Era bonito crer nisso. Mas se foi.

No auge da nova  guerra fria, sob Reagan, os Estados Unidos bateram seus recordes de consumo: havia a ideia de que o dia seguinte não poderia existir… No Brasil, isso ocorre agora nas periferias.

O fenômeno tem novos contornos:  a chamada nova classe média está consumindo até sair pelo ladrão. E não é só por aqui no Brasil…

 

Vamos ver agora como está a nova classe média no mundo: é a classe média que na metade de agosto de 2011 tomou de assalto a praça Tianammen, na China. É a nova classe média chinesa, que derrubou o político que roubou 1 bilhão da construção de estradas de alta velocidade e que mantinha 18 amantes com dinheiro público. É a classe média que peitou o governo indiano de Manmohan Singh e que apóia massivamente o grevista de fome Anna Hazare. É a classe média que bota em xeque o governo da Indonésia. Os números são inequívocos: a nova classe média é responsável por mais de um terço de toda a população da África, de três quartos da população da América Latina e de quase 90% da população da China. É a classe que segundo o Banco Mundial tem faturado de 2 a 13 dólares por dia, e que subiu de 277 milhões de representantes da América Latina para 362 milhões entre 1990 e 2005.

 

A nova classe média brasileira representa mais de 50% da população . O crescimento desse segmento, com renda familiar per capita mensal entre R$ 291,00 a R$ 1.019,00  , deve-se principalmente ao aumento na renda dos mais pobres. A elite econômica (classes A e B) tem renda superior a R$ 4.591, enquanto a classe D ganha entre R$ 768 e R$ 1.064.

 

A nova classe média  é responsável por injetar cerca de R$ 1,1 trilhão na economia brazuca. Estudo do Instituto Data Popular sobre o consumo em supermercados revela que, em 2002, a nova classe média só consumia 28 categorias de produtos, contra 40 em 2011.

 

A Classe C é composta, hoje, por 91,8 milhões de brasileiros.

Viram os números?

Uma sexta-feira mundial foi criada para dar uma pernada de anão na nova classe média…

Nesta Black Friday ninguém comparou os preços. Eu sim: são iguais aos de sempre, para a maioria dos produtos.

É um embuste, ainda que polaroidemente bem vendido.

É a sexta para que as pessoas se sintam mais gente: ficando no vermelho.