“Em Cuba se mata e se morre de fome”

Claudio Tognolli

Corria janeiro de 1991. Frei Betto, Chico Buarque e Antonio Callado organizavam o “vôo de solidariedade a Cuba”. Literalmente, intelectuais brazucas iriam plantar batatas lá. Era nos campos da UJC, União da Juventude Comunista de Cuba. Era, também, a forma encontrada por aqui de se hipotecar solidariedade a Fidel Castro. Naquele ano, a emenda Torricelli, sob Bush pai, havia apertado ainda mais o embargo dos EUA contra Cuba.

Eu morava em Miami, como correspondente da Folha de S. Paulo. Cujo mais refinado crítico, Luiz Antonio Giron, havia feito Antonio Callado parir o cólon de ódio. Giron escreveu que o tal vôo de solidariedade era uma forma de brazucas irem exumar a múmia de Fidel. Batatinha: Folha de S. Paulo vetada de ir no vôo. Curiosamente, Playa Girón foi onde, à 1h15 de 17 de abril de 1961 um contingente de 1,5 mil exilados cubanos dirigidos pela CIA tentaram derrubar Fidel…

Coube a mim uma missão: fazer barulho em Cuba. Como? Infiltrando-se, sem visto de jornalista. Ou seja: sem ter um carrapato do Partido Comunista Cubano acompanhando os trabalhos do repórter.

Passo 1: Telefonei ao amigo escritor, o gênio Fernando Morais, pedindo dicas. Morais me indicou um jornalista chamado Aroldo Wall. Ele se mandou do Brasil em 1964. Trabalhava na agência de notícias cubana fundada por Gabriel García Márquez, a Prensa Latina.

Passo 2: Bolar um plano de infiltração. Assim se fez. Numa agência de Little Havana, em Miami, chamada Cuba Paquetes, obtive visto de turista. Com ele, fui para Havana.

Instalado no Hotel Colina, veio a grande travessia do deserto. Tomei muito líquido cubano geladíssimo. Tirei a camisa. Dormi por duas noites sobre a placa de metal do ar condicionado russo, gigantesco, do quarto.

Passo 3: Dar uma gorjeta gorda como uma coruja para um taxista. Que, mesmo doente, me levou às favelas cubanas, então um tabu. Que me levou às famílias que vendiam as filhas no mercado de putas. Que me levou a quem guardava os chicletes no congelador, e os cobria de açúcar, para reciclar a goma (em Cuba chicletes era ouro puro). Que me levou aos doentes de pele, afecção decorrente do uso de sabonete de cavalo mexicano, marca Ibis, porque em Cuba sabonete era luxo.

Já doente com 42 graus, fui então aos postos de saúde cubanos. Recebi tratamento exemplar. Mas não havia antibióticos. Por conta do embargo dos EUA. Solução: pagar 45 dólares, no mercado negro, em cada pastilha de antibiótico. Donc: seu eu fosse cubano, teria morrido (um engenheiro cubano ganhava então 40 dólares por mês).

Passada a febre, fui ao tal Aroldo Wall, indicado pelo Fernando Morais. Wall ficou branco como uma Cibalena quando eu lhe disse que fizera tudo aquilo como infiltrado. Seu olhar se liquefez. Intuí que eu havia entregado meu berçário ao Rei Herodes. No outro dia, um celerado Jeep do Exército cubano foi ao meu hotel, e um tal de Angel, chefe da Prensa Latina, me deu, militares ao lado, 24 horas para sair do país…

Naquele dia ainda cumpri a última etapa de minha agenda: ir na casa do então ministro da economia de Fidel, Carlos Lage Davila, que era amigo de uma ex-professora minha. Nunca fui tão bem tratado. Na saída o então ministro dos esportes de Cuba (guardo ainda seu cartão pessoal), etilizado ao extremo, me apontou ao seu carrinho russo marca Lada e disse, com voz pastosa: “Em que outro regime eu teria dois carros Lada, uma casa da cidade e outra na praia, de graça?”

Deixei amigos curiosos em Miami. Jeff White, da Radio Miami International, que transmitia em ondas curtas, para Havana, recados de parentes exilados; Silvia Iriondo, que perdeu amigos ao ter o seu e os aviões deles metralhados por Migs Cubanos, num vôo de protesto nas costas de Havana, feito pelo Hermanos a la Playa; os comandantes do Alpha 66, que treinavam nos Everglades, sul da Flórida, para invadir Cuba e “matar Fidel Catero”; comandante Hubert Mattos, ex-braço direito de Fidel, preso por este, libertado, e então chefe da resistência em Miami; Juanita Castro, lésbica, irmã de Fidel exilada em Miami, que mantinha em Little Havana, Miami, uma farmácia chamada “Mini Price”.

Sempre que eu telefonava a estas pessoas, isto é, sempre, todos encerravam a conversa assim:

“Em Cuba se mata e se morre de fome”.