Mais uma vez, a culpa é do judeu

Claudio Tognolli

Se a minha teoria da relatividade estiver correta, a Alemanha dirá que sou alemão, e a França, que sou cidadão do mundo. Mas se eu estiver errado, a França sustentará que sou alemão, e a Alemanha garantirá que sou judeu.

Albert Einstein

Você não vai ler a seguir nenhum arrazoado sobre números, com balancetes de mortes praticadas no enfrentamento Israel versus Faixa de Gaza. Tampouco lerá discussões sobre de quem é a culpa do cômputo geral das baixas (nesta noite de quarta-feira, referia o Jornal Nacional, eram 1.346 palestinos mortos contra 62 judeus).

O eixo é outro: os neonazistas, sempre de plantão, já correm no vácuo da questão palestina para voltar aos ataques de sempre.

Isso porque o neonazismo só ataca enquanto respira.

De janeiro para cá, este blogueiro contou, nas bancas da cidade de São Paulo, nada menos que 13 novas publicações sobre a vida de Hitler.

Foi no mês de janeiro de 2014, também, que o site da Time destacou que Mein Kampf, autobiografia de Adolf Hitler, entrava na lista dos livros mais vendidos eletronicamente:

http://newsfeed.time.com/2014/01/07/why-is-hitlers-mein-kampf-topping-ebook-charts/

Uma editora brasileira, a Montecristo, de São Paulo, chegou a vender, em 2014, um exemplar de Mein Kampf a cada 30 minutos ,via I-books. No Brasil custa US$ 3,99. Lá fora, a obra ainda é mais barata: sai por US$ 0,99, nos EUA, e £ 0,99, no Reino Unido.

Os direitos do livro, que pertenciam a Hitler, foram entregues ao Estado da Baviera por ordem do líder nazista. O Estado da Baviera recusa-se a republicar e permitir republicações do livro: mas tais direitos cairão em domínio público no dia 31 de dezembro de 2015.

Outra obra que vende como água é a cascata chamada Os Protocolos dos Sábios de Sião. A obra foi escrita em russo, em 1897, pela pela Okrana, polícia secreta do Czar Nicolau Segundo.

Foi redigida pelos mesmos que orquestraram os “pogroms”. Pogrom (em iídiche פּאָגראָם, derivado do russo погром) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Judeus foram as cobaias dos primeiros pogroms.

Pois bem: a cascata dos Protocolos (com o delírio de que há um complô judaico-maçônico para dominar o mundo) tem um passado curioso.

Os Protocolos foram publicados nos EUA no Dearborn Independent, um jornal de Michigan, cujo proprietário era Henry Ford.

Hitler e seu Ministério da Propaganda citaram os Protocolos para justificar a necessidade do extermínio de judeus mais de 10 anos antes da Segunda Guerra Mundial.

Dois líderes egípcios no passado passaram a falar publicamente que os tais Protocolos eram “livros verdadeiros: Gamal Abdel Nasser e Anwar Sadat; na Arábia Saudita a obra era endossada pelo Reio Faissal; na Líbia, pelo coronel Gaddafi.

No passado recente, Henry Ford imprimiu do seu bolso 500 mil cópias dos Protocolos.

É nessas épocas de crises que envolvem Israel que os neonazistas dançam seus sabás. É nessas épocas que empresários neonazistas fazem negócios.

Fazer negócio e nome sobre o massacre da figura do judeu não é novidade.

Há 12 anos o jornalista americano Edwin Black lançou seu livro IBM e o Holocausto.

Segundo o autor, graças à tecnologia da Dehomag, subsidiária da IBM na Alemanha, os nazistas puderam localizar, identificar e assassinar os judeus. Tudo com a ajuda das máquinas de perfurar os holleriths.

Diz o jornalista: “A tecnologia da IBM consistia na perfuração de cartões em pontos específicos que serviam para a identificação das características de um determinado indivíduo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combinações possíveis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indivíduo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidadãos. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus”.

A IBM usou suas subsidiárias européias, principalmente a suíça e a alemã Dehomag, para lucrar o dinheiro sujo do nazismo, refere Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos serviços prestados.

A IG-Farbe, antigo principal conglomerado industrial da Alemanha nazista, teve vários de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg. A empresa se repartiu em nanicas bem grandes, como Basf, Hoescht e Bayer.

Era tudo puro negócio: Hitler citou Henry Ford em Mein Kampf. Assim como Watson, da IBM, Ford também foi condecorado por Hitler em 1938. A Ford alemã chegou a receber uma encomenda de 100.000 caminhões para o Exército alemão em 1942.

Gente famosa surfou com o nazismo. A estilista Coco Chanel, por exemplo, se apaixonou por um oficial nazista e tenista:

"Na minha idade, quando um homem quer dormir com você, não dá para pedir seu passaporte", justificou-se depois. Ferdinand Porsche, o gênio dos carros, criou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935, para Hitler, tentando competir com Henry Ford.

O ódio ao judeu tenta reduzir numeros já pequenos. Atualmente, o número de judeus é de aproximadamente de 13,8 milhões, segundo o demógrafo Sergio della Pergola, pesquisador da Universidade Hebraica de Jerusalém. Os judeus representam hoje 0,002% da população mundial, número três vezes menor do que o registrado em 1945.

A população judaica no mundo continua a ser muito menor do que em 1938, e só conseguiu crescer em Israel, onde “acaba de superar a simbólica marca de 6 milhões de pessoas”, diz o pesquisasdor.

Papo Cabeça

Na academia brasileira, os neonazistas gostam de citar duas obras de dois gênios: "Sobre a Questão Judaica", ensaio de 1843, de Karl Marx. E também “O mercador de Veneza”, de Shakespeare.

Marx, judeu, chamava aos negócios judaicos de “dirty jewish”. Concitava o leitor a buscar as raízes dos judeus não na religião, mas no dinheiro. Caiu como azul sobre dourado, aos nazistas, que Marx tratasse disso dessa forma.

Na peça de Shakespeare Shylock é um agiota judeu, que empresta dinheiro a seu rival cristão, Antônio. Shylock fixa como fiança uma libra da carne do coração de Antonio – que, falido, não consegue pagar o judeu, e este se lhe exige o naco de carne coronária.

Todo esse mosaico de pitadas anti-semitas aparece aqui e acolá, em crises como a atual, como um avestruz dormente, mas atento.

E quando tais crises eclodem, tais avestruzes altissonantemente nazistas se levantam das tumbas: e, com os dedos em riste, recurvos, em seus novos bicos, agora de corvos, berram em vozes tresnoitadas:

--O culpado de tudo é o judeu.