Crespo sim, duro não!

Nega Gizza
Eu e Ela

Quando pequena, eu era chamada de moreninha pelas minhas coleguinhas da vizinhança. Eu não gostava, porque sabia que era negra, ou preta como alguns preferem. Não gostava, mas também não me manifestava, porque naquele momento eu nem sabia o porque de ser preta e muito menos quais argumentos usar para me "defender" quando me chamavam de moreninha, marrom bombom ou cor de chocolate. No fundo, pensava que não era por mal, era apenas a forma que minha amiguinhas, muitas delas também negras, encontravam de não me ofender, afinal, ser chamada e reconhecida como negra poderia parecer uma ofensa.

Venho de uma família marcada pela miscigenação, a mesma que caracteriza o povo brasileiro. Na família da minha mãe, meu avô era português e minha avó descendente de índios, meu pai baiano tem a família descendente de escravos. Mas para mim o que mais importa é o que vejo quando me olho no espelho. Assumo que fui entender e saber mais sobre minha raça e história como negra, quando era adolescente, li livros, vi filmes e ouvi músicas. Todas estas informações me tornaram uma mulher mais sábia em relação à minha negritude.

Hoje percebo que a questão da negritude está atrelada a muitos fatores. Entre esses fatores estão nossos traços físicos e também, por que não, o tal do cabelo de preto. Falar de cabelos sempre gera discussões adversas, até porque toda a misturada brasileira nos deu pessoas com rostos e traços bastante diversificados, o negro e a branca, o índio e o branco, o português e a preta, que tem filhos mestiços de pele clara ou escura mas que nascem com cabelos CRESPOS.

Hoje se tornou estilo, tem um monte de gente que adotou um estilo de cabelo em pé ou de Black Power. Reconheço também que muitos dessa nova geração tenham sido tomados pela onda do black is beautiful, sem nem mesmo saber o porque de adotarem tal postura. Mesmo assim acredito que seja válido. Reconhecer beleza nos cabelos que antes só viviam alisados é uma grande vitória.

Sempre tive muito orgulho por poder ter um cabelo resistente e por que não dizer diferente, que posso cortar, pintar, trançar, esticar, deixar black e fazer um grande mix de visual, mas fico muito incomodada em saber que ainda hoje, em uma época em que caminhamos para a evolução do reconhecimento da nossa identidade racial , ainda existem aqueles que tentam atingir o poder de sabedoria do povo negro, e tentam definir nossos cabelos como DURO, dando a eles todo o tipo de conotação negativa possível.

Na minha época de criança, o preconceito era muito mais velado e era tanta a opressão que algumas meninas pretas olhavam-se no espelho e se viam como brancas de cabelos LISOS. Assim como no filme "Preciosa", em que a personagem Claireece sofre com sua condição de preta pobre e obesa.

Atualmente percebo que tem crescido a discussão com idéias que falam de cabelos crespos de forma positiva, como o livro "CABELO RUIM?" da jornalista Neusa Baptista Pinto, que conta a história de três meninas aprendendo a se reconhecerem como belas e como o projeto PIXAIM da instituição Cufa Matogrosso que valoriza o cabelo crespo masculino e feminino. Considero imprescindível ter referências para fazer o cabelo crespo ir além do estilo e se tornar uma ferramenta para mudar a auto estima do negro brasileiro, por isto é importante disseminar trabalhos que falem e trazem o tema afim de colaborar. Enquanto isto vou cantarolando e mudando como uma camaleoa, "minha cabeleira é assim, cabelo crespo, é pixaim".