O Brasil de Vale Tudo

Flavio Moura
Imagem: Flickr/vcheregati

A entrevista abaixo foi publicada nesta quinta (12), no jornal O Globo. No geral eu daria apenas um link, mas o caso justifica copiar por inteiro:


“As empregadas perderam a noção de limite”, diz consultora

Lisa Mackey usa sua experiência pessoal e uma pesquisa feita com 150 mulheres entre 35 e 45 anos para dar um “curso de atualização para secretárias do lar”, no próximo dia 25. Ela conversou com a coluna.


Por que você criou este curso?

Porque eu passei um ano e meio trabalhando em casa e quase enlouqueci com as empregadas.

Como assim?

Senti que elas perderam a noção do limite. Teve uma que eu pedi para chegar às 7h30 e botar a mesa do café. Ela disse para mim: “Eu não! Imagina se vou botar mesa de café para madame!”. Essa falta de limite foi muito lembrada também na pesquisa que fiz.

Quais as falhas mais comuns citadas na pesquisa?

Alguns exemplos: empregada que pendura o pano de prato no ombro; a que fala muito ao celular e depois diz que não deu tempo de passar toda a roupa; a que se recusa a usar touca e uniforme; e as que ficam falando das tragédias do bairro onde moram.


É tão óbvio o descalabro dessa entrevista que dá atévergonha de comentar. É bem possível que no século dezenove houvesse senhores de escravos com mais discernimento sobre relações trabalhistas do que esta repulsiva representante dos círculos cafona-endinheirados do Rio de Janeiro.

As ruas de várias cidades vão se encher de manifestantes no domingo. Mas como aderir a um protesto em que parte dos descontentes pensa como esta nobre madame?

O atraso e o arcaísmo embutidos nessa mini-entrevista são o calcanhar de Aquiles da legitimidade dos protestos contra o governo Dilma e dos defensores do impeachment.

Por trás dos brados em defesa da moralidade, muitos descontentes disfarçam esse ranço classista horroroso. Como assim, uma empregada se recusar a servir meu café da manhã?

Esse é um retrato poderoso das mudanças no Brasil dos anos Lula para cá.

Alguns anos atrás, assisti à reprise da novela “Vale Tudo” no canal Viva. A relação entre patrão e empregado nas casas retratadas no folhetim era uma representação fiel do espírito daquele fim dos anos 1980. 

As serviçais negras, de uniforme, morando na casa dos patrões, envelhecidas e resignadas, submissas aos caprichos das madames e sinhozinhos e desabafando com os motoristas e o resto da “criadagem”.

Em casa, naqueles anos, criamos o bordão “Brasil de Vale Tudo” sempre que esse tipo de mentalidade aparecia. 

Era evidente o contraste com o que víamos ali por volta de 2010, 2011: funcionários do prédio viajando de avião ao nordeste para passar férias, negociações decentes com diaristas que deixavam claro seus limites, o zelador que se mudou para o centro de São Paulo, pagava prestações do apartamento próprio e ia trabalhar de bicicleta.

A entrevista dessa senhora carioca é puro Brasil de Vale Tudo. É o retrato de uma época que parecia enterrada no passado, mas que infelizmente volta a cada piora da conjuntura econômica do país.

Considero mais do que justas todas as críticas aos milhares de erros do governo Dilma e vejo com bons olhos o ímpeto democrático de manifestações e revoltas que toma conta do país.

Só fico aqui matutando sobre as motivações. Estou do lado de quem briga por dar um rumo ao governo, para aperfeiçoar o sistema político e construir uma representatividade compatível com os anseios da população.

Mas lá no fundo, desconfio que boa parte desse pessoal quer mesmo é voltar ao Brasil de Vale Tudo.