Empregadas também são gente

Enquanto ignoramos completamente o dia 13 de maio, que nem feriado no Brasil é, eu, com vergonha, vejo uma gente querendo fazer ligação entre escravidão e o trabalho de babá.

Chamada da Folha traz: “Empresa importa babás e domésticas das Filipinas para o Brasil”. Na matéria, histórias de mulheres filipinas que vieram para o Brasil trabalhar como babás - ganhando 2 mil por mês, com limite de 8 horas de trabalho por dia, folgas semanais e INSS.

Segundo os comentários, vieram para ser exploradas. “Escravidão”, “senzala” e “casa-grande” são algumas das palavras usadas para descrever a relação patroa/babá. Mostre a foto de uma madame ao lado da empregada para ver uma reação digna de um beijo gay entre bebês numa novela.

Vejo pelo menos três problemas aí.

O primeiro é se esquecer de que a babá também é gente. E, como gente, é perfeitamente capaz de pensar por si o que é melhor para a própria vida. O comentarista indignado tende a não enxergar isso. As babás e as domésticas não são vistas como uma pessoa comum, mas uma coisa à parte incapaz de pensar por si e que precisa ser guiada por uma alma iluminada - a deles.

Eis o paradoxo, contra a exploração, o defensor do pobre e de “gente sem instrução” acaba por destratar o trabalho das profissionais.

Também é muito curioso que a opinião delas nunca entrem na questão. Às babás e às domésticas não são dados nenhum espaço para falar o que pensam.

O segundo problema é supor que o trabalho de babá e de doméstica não seja digno.

Tal indignação deixa claro que as profissionais são enxergadas como “ralé”, como um problema a ser resolvido, nunca como indivíduos que trabalham com dignidade.

O espírito classista é bem típico e já havia se manifestado na passeata organizada pela CUT alguns meses atrás, quando um homem levantou um cartaz bastante comentado na época: “Odeia o Brasil? Vai para Miami limpar privada”. Bem, alguém precisa fazer o trabalho, não?

É assombrosa a ideia de um mundo onde pobres conseguem se virar sem a ajuda de iluminados que sabem o que é melhor para eles.

O terceiro problema é a banalidade com que tratam a escravidão. Que bem se pode trazer disso?

Escravidão é crime. Tratar um serviço digno, como cuidar das crianças dos outros, com todos os direitos trabalhistas previstos, como escravidão, é empobrecer a discussão, além de um desrespeito com as profissionais.

Até quando babás e domésticas continuarão a ser tratadas assim? Até quando essas mulheres serão levadas como crianças? Onde estão as feministas para denunciar o paternalismo?


Siga-me no Twitter (@GuyFranco)