Políticas de superproteção têm criado uma gente despreparada para o mundo

Enquanto escrevo, universitários no mundo todo fazem batuque e protestam contra o uso de palavras que julgam ofensivas. Os pobres pais e contribuintes pagam caro para que os alunos discutam neutralidade de gênero e coisas outras nas salas de aula.

Dia desses, na Universidade de Columbia, discutia-se o conteúdo ofensivo na mitologia grega.

- As Metamorfoses, de Ovídio, é cheia de cenas de estupro, vixe Maria. Pode ofender alguém mais sensível. E se criássemos um selo de advertência para obras como essa?

Li no Washington Post.

O modo mais indecente de promover a civilidade é esse que os universitários defendem. Simplesmente, alterar ou alertar conteúdo considerado ofensivo nos clássicos. A mesma gente que acha que tirar a palavra nigger de Mark Twain ou informar na capa que há suicídio e agressão doméstica em O Grande Gatsby fará do mundo um lugar melhor.

Cedo ou tarde ideias como essas chegam por aqui. Macaquinhos pelados e sem rabo que somos gostamos de copiar aqueles lá nos Estados Unidos e na Europa.

Muitos jovens perderam a noção das coisas. Não entendem a diferença entre a ficção e a realidade. Um deus da mitologia grega não pode mais descer do Olimpo em paz sem que eles tirem da cabeça alguma nova questão. Algumas dessas questões rendem ótimas ideias para esquetes cômicos, e essa é a maior contribuição que alguns dos jovens universitários nos dão no momento.

Em vez de deixar que a pessoa leia a história e a confronte com os seus valores pessoais, o que esses alunos querem é preparar o leitor para um mundo que não existe, que não é o nosso.

A necessidade de confronto fica melhor explicada no exemplo da vacina: as vacinas ensinam o sistema imunológico a reconhecer os agentes que provocam doenças, produzindo anticorpos capazes de combatê-los. É preciso que entremos em contato com os agentes agressores, de forma atenuada, para atacar a doença.

Pensa-se o contrário, que palavras consideradas ofensivas devem ser eliminadas dos clássicos, que um selo de advertência de conteúdo resolve o problema.

O resultado dessas políticas de superproteção é isso que vemos por aí, nas universidades: uma gente ofendida que não sabe lidar com o mundo - esse sim, cheio de crises, doenças e violência. As políticas de superproteção faz do sujeito um indivíduo despreparado.


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