Problemas de emergente, preocupações de primeiro mundo

De um tempo para cá, começaram a aparecer fotos de sovacos peludos de mulheres no meu Facebook. Nada contra sovacos peludos, tenho até amigos que são, mas que campanha horrorosa é essa?

Decidi investigar e descobri que, aparentemente, existe um lugar no hemisfério sul, fora da Oceania, onde exibir sovacos peludos é um dos grandes problemas contemporâneos. Onde é isso? Quero me mudar para lá. Aqui na periferia, as preocupações continuam as mesmas: assaltos à mão armada, taxistas que se recusam a vir para o meu bairro por causa da violência e manchas que amanhecem na calçada sem que você saiba bem se são os restos de um harakiri ou de uma piñata entalhada em melancia.

Confesso que tenho inveja de quem tem como preocupação exibir os sovacos peludos por aí, que cresceu oprimido pelo padrão de beleza imposto pelo He-Man e pela She-Ra.

Queria viver nesse mundo onde os problemas são os sovacos peludos, as propagandas de cerveja, as travestis, a falta de diversidade étnica em Mario Kart, a impossibilidade de casamento homoafetivo entre os Miis - aqueles bonequinhos cabeçudos da Nintendo.

Eu queria poder me dar ao luxo de ter preocupações de primeiro mundo.

Mas morando aqui, fica difícil. Enquanto crianças chegam no quinto ano do fundamental sem saber ler, não vou propor nem apoiar proibição de publicidade voltada para o público infantil, por exemplo.

Enquanto existir o cercadinho do crack no centro da cidade, não vou propor nem apoiar regulação de comidas que engordam como fazem hoje com os cigarros, com imagens horrorosas no verso do pacote de salgadinho.

Tenho inveja de quem vive nesse mundo onde os maiores vilões são as propagandas de Furby, a She-Ra e os baconzitos. Por menos, muito menos, muitos por aí são chamados de filhinho-de-papai ou vão parar no classe-média-sofre. Mas tem algo mais classe-média-sofre do que uma lei que protege as crianças dessa coisa ameaçadora chamada propaganda da Barbie?

Quem vê de fora pensa até que já atingimos algum grau de civilização.

Brasil importa indignação de primeiro mundo sem ter resolvido os problemas básicos. Se fosse gente, Brasil seria o convidado bêbado de uma festa de gala que faria umas graças, umas dancinhas esquisitas, e que uma hora cairia na piscina. Brasil é aquele parente que troca de carro todo ano mesmo com nome no SPC e no cadastro de emitentes de cheques sem fundos. Aqui tem lei contra a palmada, mas é o país mais homicida; tem casamento gay, mas esses casais estão sujeitos a levar lampadadas na cabeça; o marco é civil, mas um ou outro só é civilizado.

Ouço uma voz na minha cabeça (é você, Júlia?): Prioridades: primeiro a corda, depois é que chutamos o banquinho.