Referências ocultas que poucos percebem nos discursos de Dilma

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O vento podia ser isso também, mas você não conseguiu ainda tecnologia para estocar vento. Então, se a contribuição dos outros países, vamos supor que seja desenvolver uma tecnologia que seja capaz de na eólica estocar, ter uma forma de você estocar, porque o vento ele é diferente em horas do dia. Então, vamos supor que vente mais à noite, como eu faria para estocar isso?

Este breve discurso é uma alusão ao famoso poema É uma brisa leve, de Fernando Pessoa:

É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser
(…)

E parece sugerir que a vida humana não é mais do que uma brisa, um instante que passa, “como eu faria para estocar isto?


E, finalmente, a Alice me deu uma ideia. Ela disse que, nesse caso, a gente podia saudar, nesse caso nós podemos saudar os conterrâneos e os subterrâneos, porque os subterrâneos é o metrô. Só fazendo esse aparte aqui.

Vemos aqui uma clara referência a Notas do Subterrâneo (traduzido também como “Memórias do Subsolo” no Brasil), de Dostoievski. O trecho apresenta uma dessas metáforas em que nossa presidente é brilhante. Observe com que cuidado o existencialismo se combina com a inauguração do metrô na Bahia:

(…) pegamos a pá, fomos lá, subterraneamente, desenterramos a cabeça do jegue, e tenho certeza que, de agora em diante, ninguém vai olhar para ninguém e falar: “Xi, o metrô da Bahia, xi.

Se o subterrâneo é o subconsciente humano, o metrô seria a via que o liga ao consciente. Que bela imagem! Mas o que é a cabeça do jegue soterrada? A nossa presidente não subestima a inteligência da plateia. E em vez da aguardada explicação, temos, ao final do discurso, uma maravilhosa explosão de ternura poética: “Xi, o metrô da Bahia, xi.”


Em um país pacífico, como é o nosso, em um país que pretende cada vez mais se desenvolver considerando a capacidade de distribuir seu desenvolvimento com a sua população, transformar o mundo significa, necessariamente, levar a cada uma das pessoas as melhores condições de vida. E é isso que a ciência faz, né, Aldo, desde a Arca de Noé.

A referência, sem dúvida, é do Antigo Testamento. Não me recordo, no entanto, de nenhum Aldo cuja existência vale mencionar aqui. Ou será que Rousseff está falando de Sant’Aldo, eremita que viveu no século VIII?


Então, é para que o bode sobreviva que nós vamos ter de fazer também um Plano Safra que atenda os bodes que são importantíssimos e fazem parte de toda tradição produtiva de muitas das regiões dos pequenos municípios aqui do estado.

Interessantíssima associação que só mais tarde, com a porta da geladeira aberta, fui perceber. Rousseff cita a Crítica da Razão Pura, de Kant, na qual encontramos a célebre frase do filósofo prussiano:

Um ordenha o bode enquanto o outro segura a peneira.

Ao citar a frase de Kant, a presidente está propondo um exercício bastante oportuno aos prefeitos do Ceará: procurar descobrir se uma questão é pertinente antes mesmo de formulá-la. Ora, todo o esforço em formular uma pergunta ou hipótese (o trabalho de segurar e ordenhar um animal) perderia seu objetivo sem ter como base um substrato experiencial, de maneira que os prefeitos do Ceará poderiam estar falando sobre um nada (o leite na peneira) se puxassem a presidente (o bode) para um canto sem souberem direito o que querem.


Um grande varejista uma vez disse o seguinte, disse uma coisa muito simples e de fácil entendimento, que é muito difícil para o conjunto da população ou para muitas camadas da população, comprar à vista, mas que quando se compra a prazo, tudo fica mais viável.

Talvez uma alusão a Georg Simmel, sociólogo alemão; autor do ensaio A Filosofia do Dinheiro (Philosophie des Geldes). A relação entre Dilma e Simmel (1900) é algo que, estou cada vez mais certo, levou às chamadas pedaladas fiscais.


Se hoje é o Dia das Crianças, ontem eu disse que criança… o dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais. Sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás, o que é algo muito importante.

Essa passagem me faz lembrar a célebre palestra de Brian Greene, um dos maiores especialistas contemporâneos em cosmologia e física de partículas, na Columbia University. O cachorro faz aqui uma aparição simbólica, oculto, por assim dizer, por trás de uma criança - que representaria todas as crianças do Universo. É de lamentar que a presidente não tenha se utilizado dos fundamentos da relatividade no resto do discurso, poupando a platéia de outras figuras ocultas explicativas.


Eu estou muito feliz de estar aqui em Bauru. O prefeito me disse que eu sou, entre os presidentes, nos últimos tempos, uma das presidentes, ou presidentes, que esteve aqui em Bauru.

Muitos sem dúvida terão dificuldades de entender os discursos de Rousseff sem antes ter lido o básico de mecânica quântica. A força de sua fala está na repetição das palavras, como se cada coisa estivesse presente em um multiverso diferente e, ao mesmo tempo, no mesmo lugar. Um antigo físico disse certa vez que “tudo é relativo”, mesmo o tempo (nos últimos tempos) e o espaço (aqui em Bauru).


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