Habitat
  • No último final de semana, movimentos de moradia realizaram cerca de vinte ocupações em São Paulo, reivindicando soluções para o grave problema habitacional que atinge especialmente as populações mais pobres. Muitos seguiram de ônibus para Brasília, onde se somarão a manifestantes de outros estados para pressionar também o governo federal.

    Em São Paulo, estamos passando por um momento-chave que, a depender de como for concluído, poderá significar uma oportunidade de grandes avanços na questão habitacional. Isso porque o novo Plano Diretor Estratégico da cidade seria votado nesta quarta-feira (09) na comissão de política urbana da Câmara Municipal, mas foi adiado pela segunda vez.  Depois, será votado também no plenário, onde se encerrará um processo de discussão que teve início no ano passado.

    A proposta de Plano que se encontra em debate da Câmara contém uma política fundiária para a habitação, incorporando instrumentos que contribuirão, com terras e imóveis, para viabilizar um volume

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  • Um tema importante que normalmente polariza as discussões sobre o Plano Diretor é a verticalização da cidade. Mas o que o debate tem de apaixonado tem também de simplificado, e a discussão termina se reduzindo a “verticalização: sim ou não?”.

    De um lado, os que defendem a qualidade de vida nos bairros, a preservação do patrimônio e da paisagem contra esses “paliteiros” e “espigões”... De outro, a força dos ganhos imobiliários decorrentes da multiplicação do solo, o discurso da modernização e do propalado adensamento...

    Quem é contra a verticalização geralmente entende que mais prédios significam mais pessoas, mais carros, mais trânsito, menos qualidade de vida. Mas infelizmente, ou felizmente, a equação não é simples assim.

    Óbvio que a história e a tradição de nossas cidades muitas vezes nos levam a crer que a coisa funciona necessariamente desse jeito, já que a maior parte dos bairros verticalizados atende famílias com renda mais alta do que a de seus moradores originais, em prédios

    Saiba mais »de Verticalização: para além do debate do sim ou não
  • Quando se fala no problema do lixo, geralmente pensamos em construção de aterros e em novas tecnologias de reciclagem. Na área da educação, pensamos logo na falta de creches, escolas e outros equipamentos educacionais. Na saúde, queremos mais hospitais, mais clínicas, mais equipamentos para realização de exames, mais medicamentos disponíveis.

    Obviamente que os problemas de cada uma dessas áreas têm suas especificidades e complexidades. Mas é comum que gestores públicos busquem traduzir em obras as respostas a cada um deles. Se fazer obra fosse a solução, acredito que não estaríamos hoje reclamando da precariedade dos nossos serviços públicos e das dificuldades da vida nas nossas cidades.

    A usina do lixo, o edifício da escola ou do posto de saúde geram inaugurações festivas, fotos em jornais e em folders de propaganda, vídeos na TV. Mas o problema não termina com estas inaugurações, apenas começa. No centro da questão está a gestão e a qualidade do serviço, que dependem de muitos

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  • Bloco de carnaval na Vila Madalena, SP, durante o último domingo (23)

    Quem vê essa foto certamente pensa que se trata do carnaval do Rio de Janeiro, do Recife ou de Salvador... Puro engano. Essa imagem é do carnaval de rua de São Paulo, que vem crescendo a cada ano. Para se ter uma ideia, um cadastro de blocos aberto pela prefeitura recebeu a adesão de 195 agremiações. Neste site é possível ver a programação e a lista dos blocos do carnaval de rua paulistano.

    Um dos blocos mais antigos de São Paulo, Os Esfarrapados, fundado em 1947, percorre as ruas do bairro do Bixiga, um dos redutos do samba paulistano e da cultura negra da cidade. No Cambuci, o Bloco da Ressaca arrasta foliões desde 1984. De acordo com os organizadores, o bloco surgiu da vontade de proporcionar uma festa pública e gratuita pra comunidade, já que os ingressos para o desfile das escolas era caro, e também de resgatar a tradição carnavalesca da região. Foi no Cambuci que surgiu a primeira escola de samba de São Paulo, a Lavapés. Também as guerras de confetes eram tradicionais no bairro.

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  • Do início do ano até o dia 5 de fevereiro, 35 ônibus foram incendiados na cidade de São Paulo. Mais da metade das 65 ocorrências registradas ao longo de todo o ano passado. Segundo informações da imprensa, na região metropolitana 50 ônibus já foram incendiados este ano. No ano passado inteiro foram 77 os casos.

    Se as manifestações de junho de 2013 tiveram como estopim o aumento das tarifas do transporte público, entre as muitas pautas que foram sendo inseridas no caminho, a violência nos protestos tornou-se o foco das discussões. E a pauta do transporte público parece que perdeu força...

    Os incêndios a ônibus são um exemplo de como isso tem ocorrido: a violência dos ataques - e não seu objeto, o transporte público – têm marcado o debate sobre o tema nos meios de comunicação.

    Mas não estão claras as motivações de todos esses ataques. Alguns são protestos contra o uso de violência pela polícia, mortes e desaparecimentos de cidadãos. Mas também sabemos que há outros motivos:

    Saiba mais »de Incêndios a ônibus: mais perguntas que respostas
  • Desde o final do ano passado, e mais intensamente nas últimas semanas, muito tem se discutido sobre os chamados “rolezinhos”, encontros promovidos por jovens das periferias em shopping centers de várias cidades. Seja na imprensa, nos ônibus, no intervalo da novela ou nas mesas de bar, todos têm algo a dizer sobre o fenômeno.

    Na imprensa, a polêmica entre os comentaristas gira em torno do tema dos direitos, do racismo e da segregação. Teriam hordas de jovens o direito de utilizar o espaço do shopping para se encontrar e “zoar”? E, simetricamente, teriam os proprietários de shoppings o direito de impedi-los?

    O fato de os rolezinhos serem protagonizados por jovens de periferia e, portanto, majoritariamente não brancos, acende também o tema do racismo: seriam os shoppings espaços de lazer e consumo exclusivos de brancos, onde estes “outros” não poderiam entrar?

    Estas duas dimensões – dos direitos e do racismo – articulam-se no tema da segregação: em tese, os shoppings são espaços privados

    Saiba mais »de Rolezinho ou Ocupa Shopping Center?
  • No final do ano passado, o Conpresp, órgão municipal de proteção ao patrimônio histórico, cultural e ambiental, declarou o samba patrimônio imaterial de São Paulo, reconhecendo a longa tradição que a manifestação tem em nossa cidade.

    A verdade é que, ao contrário do que diz a célebre afirmação do poeta Vinicius de Moraes, São Paulo nunca foi túmulo do samba.

    Inventariado por Mário de Andrade nos anos 20 do século passado, o samba rural de Pirapora do Bom Jesus, a 54 km da capital, é considerado uma das matrizes do samba no Estado.

    Na capital paulista, a manifestação do samba está intimamente relacionada com a presença das comunidades negras na cidade. Um dos bairros mais importantes na história do nosso samba é o Bixiga, onde no final do século XIX havia um quilombo, o Saracura. É lá que surge, no século passado, a escola de samba Vai-Vai, uma das mais tradicionais do nosso carnaval.

    Antes das escolas de samba, porém, já existiam aqui os chamados grupos ou cordões carnavalescos,

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  • 300 km de faixas incomodam muito mais...

    Todos os dias, os paulistanos gastam, em média, 2h e 42min para se locomover na cidade. Por mês, são dois dias e seis horas passados no trânsito. Por ano, chegamos a passar, em média, 27 dias presos em congestionamentos.

    Não é difícil adivinhar que setor da população puxa essa média pra cima: segundo dados da última pesquisa Origem e Destino, realizada pelo metrô, o tempo gasto pelos usuários de transporte público em seus deslocamentos é 2,13 vezes maior que o de quem usa o transporte individual.

    Sob o impulso das manifestações de junho, uma das medidas adotadas em São Paulo para tentar enfrentar o problema do transporte público foi a implementação de faixas exclusivas de ônibus em várias regiões da cidade. Neste final de ano, já são 295 km de faixas exclusivas e um ganho de quase 50% na velocidade média dos ônibus, que subiu de 13,8 km/h para 20,4 km/h.

    Mas a medida vem descontentando, principalmente, usuários de automóvel particular, que têm

    Saiba mais »de Uma faixa exclusiva de ônibus incomoda muita gente…
  • A morte precoce do ator Paul Walker, de apenas 40 anos, em um acidente de carro no dia 30 de novembro, nos obriga imediatamente a refletir sobre a cultura do automóvel, tão celebrada pela série “Velozes e furiosos”, da qual ele era uma das estrelas.

    Não é de hoje que carros e motocicletas são associados à velocidade e à liberdade. O próprio Paul Walker, em entrevista à Folha no início do ano, deu a seguinte declaração: “Acho que todo homem pensa em carro como sinônimo de liberdade. Velocidade é isso, sentir-se livre”.

    Recentemente, a FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais) e o Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos divulgaram o “Mapa da Violência 2013: acidentes de trânsito e motocicletas”, com análise de dados até 2011.

    De acordo com o documento, a violência no trânsito vem aumentando progressivamente no mundo. Isso levou a ONU a instituir a “Década de Ação pela Segurança no Trânsito 2011-2020”, com o objetivo de formular propostas que busquem reduzir o número

    Saiba mais »de Nem velozes, nem furiosos: por trânsitos mais humanos!
  • Que São Paulo já está saturada de carros todo mundo já sabe. São 5,6 milhões de automóveis particulares na cidade. Seu impacto nas ruas já conhecemos, mas sua presença na cidade vai muito além dos congestionamentos. Na terça-feira (26) a prefeitura divulgou um informativo com dados impressionantes sobre essa questão.

    Entre 2002 e 2012, foram construídos 300 mil novos apartamentos. No mesmo período, 500 mil vagas de estacionamento foram construídas nestes edifícios. A área ocupada por essas vagas corresponde a quase 50% da área ocupada pelos próprios apartamentos. É como se para cada prédio construído para moradia, um outro prédio, com a metade do tamanho, fosse feito apenas para carros.

    Para abrigar os automóveis nestes dez anos (apenas nas residências, sem contar os espaços comerciais...), foram 12,8 milhões de metros quadrados construídos. Com esta área construída, seria possível abrigar, por exemplo, 160 mil apartamentos de 50 metros quadrados!

    Esses dados revelam as consequências

    Saiba mais »de São Paulo: casas para os carros ou para as pessoas?

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(76 artigos)

Sobre Raquel Rolnik

Arquiteta e urbanista especializada em planejamento e gestão da terra urbana. É professora da FAUUSP e Relatora Especial para o Direito à Moradia do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Foi diretora de Planejamento da Cidade de São Paulo (1989-1992), Secretária Nacional de Programas Urbanos do Ministério das Cidades (2003-2007), e Coordenadora de Urbanismo do Instituto Pólis (1997-2002). Prestou consultoria a governos, organizações não governamentais e agências internacionais, como UN-Habitat, em política urbana e habitacional. É autora dos livros “A Cidade e a Lei” e “O que é Cidade”, além de vários artigos e publicações sobre a questão urbana. Colabora com o portal Yahoo, onde tem uma coluna quinzenal, e mantém o blog da Raquel Rolnik, onde escreve regularmente sobre questões urbanas.

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