“Empresário do Gentili me chamou pra tomar um café”

"King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?" - GENTILI, Danilo.

Foi esse tipo de piada que levou o tradutor paulistano Thiago Ribeiro, de 30 anos, a cobrar Gentili nas redes sociais. Cansado de ver negros sendo alvo de chacota no "Agora é Tarde", Thiago resolveu acionar a justiça. O empresário de Gentili tentou colocar panos quentes e chegou a oferecer uma participação no programa do comediante. Tudo para evitar que o caso chegasse aos tribunais. Segundo o empresário, a intenção era: "esclarecer algumas coisas, te ouvir, saber o que pensa, etc.." O tradutor recusou, contrariando àqueles que o acusaram de querer apenas 15 minutos de fama.

Nessa bate-papo gostoso com o Wandeco, Thiago fala dos ataques racistas que continua a sofrer depois de 1 ano do acontecido, além do descaso das autoridades:

JW: Como começou a conversa com o Gentili?

TR: Na verdade eu ia encaminhar naquela semana uma denúncia contra ele e a Band por incitação ao racismo em TV aberta. Ia mandar para que o Ministério Público investigasse. Então pedi pra ele e para a Band um email para eu poder enviar uma cópia da carta. No meio do caminho ele me ofereceu bananas. Aí o que era uma denúncia geral se tornou pessoal. Eu recebi notificação da mensagem dele por email e, quando fui ver no twitter, ele ja tinha apagado. Mas eu tinha o email pra provar. Em seguida os fãs dele começaram a me atacar durante toda a madrugada. Eu não dormi e fiquei printando cada tela do celular. Reestruturei a carta e no terceiro dia fiz as denúncias. Pra você ter ideia, até o empresário dele veio falar comigo pra tentar um acordo. Isso no ano passado. (Leia aqui a troca de e-mails)

JW: Em que pé está a situação? Você abriu processo contra o humorista? Ou será que ele irá processá-lo antes por excesso de vitimização?

TR: Tem um processo criminal. Não quis entrar com o de danos morais logo em seguida, pois estavam dizendo que eu só queria dinheiro. Então preferi esperar até pra ver qual seria a decisão da parte criminal. Mas agora resolvi entrar com o de danos. O bizarro é que tem gente nem sabe direito o que rolou. Tem muita gente que me apoiou e acompanhou tudo, mas a galera que apareceu agora não sabe. Ontem no Twitter, uma pessoa disse que eu não poderia fazer mais nada, pois já havia se passado seis meses para fazer o B.O. Só que eu o fiz três dias depois da ocorrência, em outubro do ano passado. Aguardei pra juntar as provas. Somente em junho deste ano eles enviaram para a justiça. O pior é que os órgãos de defesa da população negra também não fizeram nada, como a SEPPIR, por exemplo. Ontem enviei emails para os órgãos cobrando posição. Só o DECRADI respondeu dizendo que agora as providências estão na mão do Poder Judiciário.

JW: Quer dizer que o empresário dele quis fazer as pazes? Que gracinhas! Eles te convidaram pra um jantarzinho? Como foi?

TR: O empresário dele queria “tomar um café” comigo. Eu recusei. Aí ele perguntou se eu não gostaria de ir até o programa para me explicar. Brincadeira, né? Ele disse que poderíamos conversar e resolver tudo sem precisar entrar com Justiça no meio. No fim ele perdeu a linha quando viu que eu não aceitaria nada disso.

JW: Então foi só depois que você recusou o acordo que o Danilo Gentili escreveu aquele texto se defendendo?

TR: Exatamente. E alterando a ordem dos fatos. Quando me chamei de macaco, foi ironizando uma piada dele de 2011, em que comparava negros, jogadores de futebol, ao King Kong. Eu não estava me chamando à toa. Apenas usei o nome que ele usou para falar de negros. Só que as pessoas esquecem o que falam.

JW: Ele se sentiu no direito de te oferecer banana quando você o ironizou e se chamou de king kong? O humorista não entendeu a piada, é isso?

TR: Pois é. Ele apagou segundos depois, aí então printei e postei no Twitter. Foi quando começou o ataque dos fãs. Aí começou a palhaçada. Das 23hs até 6 da manhã os fãs me bombardearam. Mas, claro, salvei tudo. Um ano se passou e continuo sofrendo os ataques que você testemunha todos os dias. E o Danilo Gentili continua livre e em cadeia nacional...Que no mínimo sirva de exemplo para nunca mais dizerem que não há racismo no Brasil, ou que ele e velado.

JW: Por que o seu caso não teve o mesmo desfecho rápido que o da doadora de leite materno?

TR: Porque teve apoio, né? Inclusive da ONG que ela participava. No meu caso, fui pessoalmente na OAB, Ministério Público, Assembleia Legislativa...Levei as denúncias pessoalmente em todos esses lugares, com todas as provas e imagens. Até agora nada. tenho um mailing com contatos de vários jornalistas, mandei para muitos. Ninguém se interessou.

JW: Você disse que sofreu preconceito quando criança por causa do Cirilo do Carrossel e que sua filha está passando pelo mesmo com a reedição da novela. Fico pensando qual conselho o Danilo poderia dar pra ela: "deixa de ser fresca, menina. Piada com negro é apenas uma brincadeira, leve na esportiva e dê risada também."

TR: (risos) Bem provável, viu? Tive até que ir na escola. Ela tinha 8 anos e a diretora disse que se tratava de um caso de bullying. E eu tive que mostrar pra ela que aquilo era uma prática de racismo dentro da instituição e que eles seriam responsabilizados. No fim, pediram que eu fosse até a escola falar com os alunos sobre o tema.

JW: Você concorda o trololó esquerdista de que a piada é um instrumento de propagação do racismo?

TR: Claro. Eu penso que essa atitude dos fãs deixa bem evidente que para muitos o negro não é gente. A lei determina que se eu, enquanto cidadão, me sentir ofendido, devo buscar meus direitos. Para eles eu devo apenas mudar de canal e ficar quietinho. Se não gostaram da minha atitude, deveriam voltar no tempo e me deixar na África.

JW: O que você tem a dizer pras pessoas que afirmam "ah, mas no Brasil todos são misturados, ninguém é 100% branco ou negro. Bobagem se dizer negro."

TR: Costumo dizer que se todos fossem iguais perante a lei como o próprio Gentili diz, todos teríamos as mesmas oportunidades, direitos e deveres. Se fossemos iguais, eu não estaria há um ano sofrendo ataques de cunho racial nas redes sociais. Se fossemos iguais, não haveria necessidade de cotas raciais em universidades. Se fossemos iguais, não precisaríamos implorar por justiça em casos de racismo. Ignorar a existência de diferenças é apenas uma estratégia para calar os negros e dizer depois que nós não nos aceitamos.

JW: O jornalista Flavio Gomes foi demitido da ESPN por ofender gremistas no Twitter durante uma partida de futebol. Acha que pode acontecer algo parecido ou a Band vai passar um pano como passou para o Boris Casoy no caso dos garis?

Acredito que é grande a possibilidade da Band passar um pano, no entanto não sossegarei ate que a justiça seja feita e que TODOS os culpados sejam punidos. A responsabilidade, agora, também é do Estado, que se omitiu ao tratar minhas denúncias e que permite que um programa de TV aberta pratique incitação ao ódio e ao preconceito. Ainda esta semana enviarei uma denúncia formal á OEA para que o Governo Brasileiro também responda por isso.