Mandela: de terrorista a herói internacional

A partida de Mandela comoveu o mundo. O ícone da luta pela igualdade racial morreu ontem, aos 95 anos, em Pretória. Vejamos algumas capas dos jornais pelo mundo:

Como podemos ver, nenhum assunto foi merecedor de dividir a capa com o mito que ajudou a extinguir a segregação na África do Sul. Mas, no Brasil, a coisa foi um pouco diferente. Vejamos o que gritaram as letras garrafais de algumas manchetes brasileiras:

Como no dia seguinte ao caso do helicóptero, a notícia de maior destaque na Folha e no Estado não foi a morte de Nelson Mandela, mas o mensalão - principal assunto do país desde 2005. Se Jesus tivesse voltado ontem, até ganharia uma fotinho bacana no topo, mas a manchete principal seria "Judas Mensaleiro" Dentro daquele cruel regime, Mandela lutou pela liberdade de seu povo e reagiu de forma violenta à segregação. Para Ronald Reagan e Margareth Thatcher, por exemplo, Mandela era considerado um criminoso comunista e terrorista. Mas isso não foi uma exclusividade desses nobres estadistas. Vejamos como a Folha de São Paulo se referia a ele em fevereiro de 1969: Mandela, portanto, era considerado um terrorista do movimento negro que se apoiava em grupos comunistas clandestinos. Advogados do governo africâner o acusaram de ser um subversivo marxista. Quase um Zé Dirceu sul-africano! O que aconteceu de lá pra cá? Por que a imprensa de repente passou a ver no antigo terrorista um homem doce e conciliador? Essa frase de William Waack no Jornal da Globo nos ajuda a entender:

"Nelson Mandela demorou mais de 50 anos para descobrir que sua maior arma era o sorriso"

Entenderam? Enquanto o regime do apartheid persistiu, Mandela não sorria para os brancos segregadores, mas jogava bombas e preparava tocaias contra eles. Era um terrorista do mal que lutava pela fim da violência contra os negros. Terminado o regime de segregação, Mandela foi solto e não precisou mais fazer cara feia. As táticas violentas se tornaram desnecessárias e um discurso conciliador ganhou espaço. E o mais importante: o líder sul-africano finalmente descobriu sua arma mais poderosa: o sorriso. Foi a partir de então que este homem passou a conquistar simpatia internacional.

Nada como 27 anos de cadeia para recuperar um terrorista. Se a gente for pensar no caráter pedagógico, até que o apartheid não foi tão ruim assim. Aprendida a lição, Mandela voltou a sorrir e tornou-se um mito internacional da igualdade e da justiça, amado até mesmo por quem sempre o chamou de terrorista.