O preconceito contra haitianos no Brasil

Boa parte dos haitianos que imigraram pro Brasil em busca de uma vida melhor tem se decepcionado com o país. Encontraram emprego, mas não a tão falada hospitalidade brasileira, muito menos a democracia racial tão apregoada pelos quatro cantos do mundo. A xenofobia e o racismo que têm varrido a Europa também fazem morada no Brasil. 

Assusta a crueldade com que os haitianos estão sendo tratados por aqui. Ano passado, o Ministério do Trabalho recebeu diversas denúncias de xenofobia e preconceito contra haitianos. Vejamos essa reportagem do Jornal Hoje:

Um haitiano ouvido pela reportagem foi em busca de emprego. Conseguiu, mas já quer ir embora porque foi humilhado e agredido por um colega de trabalho: “Eles me chamam de macaco. Eu não fiz nada pra eles e continuam me chamando de macaco. Ele me deu uma banana e me bateu", diz o imigrante, que prefere não se identificar.“

(…)

Um outro haitiano ouvido pela reportagem, que trabalhava como eletricista em uma obra, diz que durante seis meses foi hostilizado pelos colegas. “Tavam me chamando de preto, burro, me xingando também porque eu deixei o meu país e vim morar aqui, porque meu país não tem nada”, conta o imigrante.

Ele conta também que acabou sendo demitido, segundo o engenheiro da obra, por ser estrangeiro: “Ele me mandou embora porque sou haitiano. É isso que ele falou”

Além do fato de serem negros e oriundos de países mais pobres, os haitianos também sofreram com a epidemia de ebola no continente africano. 

Acontece que o Haiti não fica na África e não sofreu nenhuma epidemia do vírus. A mãe de todo preconceito é mesmo a ignorância. 

Não bastou o festival de estupidez de 2014, o preconceito se mantém firme em 2015. Na última WandNews, falamos sobre um boato impulsionado pelo grupo Revoltados Online nas redes sociais. Eles pegaram a foto de um imigrante haitiano e informaram que ele teria sido contratado por Lula para espancar opositores políticos. Reveja:

O rapaz da primeira foto é Lubain Auguste, de 28 anos, um haitiano que aparece exibindo com orgulho sua carteira de trabalho brasileira. Ele foi descrito assim em uma reportagem do UOL :

Auguste fala espanhol, idioma que aprendeu durante os dez anos em que morou na República Dominicana, onde trabalhava como vendedor em uma loja de roupas. Ele veio para o Brasil em busca de um emprego que lhe dê melhores condições de sustentar a mulher e seus dois filhos, de três e seis anos, que ficaram no Haiti  

Esse jovem batalhador, bilíngue, que conseguiu emprego na Aurora Alimentos no interior de Santa Catarina, teve sua imagem compartilhada com mais de meio milhão de usuários do Facebook com a seguinte descrição: "pitbull haitiano”, “sociopata haitiano contratado para espancar brasileiros”, “contratado pra fazer o mal”.

Uma crueldade que serviu para atender interesses políticos partidários. Com tantos esqueletos no armário do PT, com tantas coisas pra se criticar no governo, os Revoltados Online acharam justo “assassinar a reputação” de Lubain para ilustrar o boato. Afinal de contas, é só um pobre haitiano qualquer. 

A partir daí, uma turminha reacionária não teve dúvida antes de espalhar essa mentirinha nas redes sociais. Teve gente que invadiu o Facebook de Lubain e compartilhou diversas fotos do seu álbum pessoal com a seguinte mensagem:

Até o pai de Diogo Mainardi - aquele cidadão que chamou o povo nordestino de “bovino” - entrou na onda xenófoba:

O uso do verbo “higienizar” diz muita coisa sobre o que há por trás da insatisfação com esse tipo de estrangeiro. Se pra alguns já é incômodo conviver com negros e pobres nativos, imagine ter que aturar esse tipo de estrangeiro “compondo o ambiancé”, como diria Ed Motta.

Não é apenas xenofobia. Ou será que alemães loiros, nas mesmas condições, sofreriam da mesma forma?

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