O racismo nosso de cada dia

Jornalismo Wando

Nossa democracia racial continua desfilando garbosamente pelas passarelas do país. Essa semana foi especialmente interessante pra quem gosta de apreciar bons exemplos do que esse povo miscigenado e sem preconceito é capaz. E, com a força das redes sociais, toda essa nossa sedutora capacidade de conviver com as diferenças ganha ainda mais eco.

Um perfil no Twitter chamado @NaoSouRacista, que divulga os momentos mais singelos da cordialidade do povo brasileiro, compartilhou alguns desses mimos:

O que vemos nessa seleção de tweets? Jovens sendo jovens com um humor bastante ácido, porém despido de preconceito. A incorreção política é a principal inspiração desses jovens humoristas brasileiros. Oferecer banana pra um negro, por exemplo, não é considerado preconceito, mas apenas ousadia de crianças rebeldes que se levantam contra a ditadura do "politicamente correto". É uma galerinha atrevida, que não se acanha ao seguir a trilha desbravada por grandes humoristas da sua geração

"Eu tenho amigos pretos e amo eles", "não é preconceito, é questão pessoal" e "nada contra, mas" são frases que denotam o coração aberto desses meninos para as diferenças. Afinal de contas, o brasileiro é mundialmente conhecido por sua alegria e bom humor, não pelo racismo. Isso é coisa de países que viveram o apartheid como EUA e África do Sul. Sempre fomos generosos com as diversas etnias que habitam o país. Assim como nossa ditadura foi branda, nossa escravidão também foi bastante suave, e isso se reflete nos dias hoje. Do jeito que alguns humanistas falam, até parece que prendemos e agredimos nossos negros nas ruas.

Outra demonstração dessa harmonia étnica chamou a atenção essa semana. Um ator e psicólogo carioca voltava tranquilamente do trabalho quando foi preso e levado para a delegacia.

Confundido com um assaltante, Vinicius Romão foi reconhecido pela vítima e imediatamente encarcerado, sem direito a um telefonema. Segundo amigos e parentes, a polícia insistiu para que a vítima o reconhecesse como culpado. Como os pertences da senhora assaltada não foram encontrados com ele, um dos policiais afirmou que o ator teria passado o material para uma pessoa conhecida como "Braço". Passadas duas semanas, o delegado disse não ter ido atrás das imagens que registraram o assalto e que comprovariam a inocência de Vinícius. Só depois de muita pressão da família, dos amigos e da imprensa é que a polícia retomou o caso e esclareceu a questão. O ator da Globo foi solto após ficar 15 dias na cadeia injustamente, sem poder receber a visita de familiares. E o tal "Braço", usado pra justificar a prisão, parece que nunca existiu. Deve ter sido o braço invisível que regula a democracia racial brasileira.

E por falar em Rede Globo, emissora cujo diretor de jornalismo é autor do livro "Não Somos Racistas", lembrei do Big Brother Brasil, um programa que contribui anualmente para reforçar os pilares culturais dessa sociedade harmoniosamente mestiça. Foi na passarela do reality que nossa democracia racial voltou a desfilar essa semana.

Comandado por um profissional identificado com as causas populares, o Boninho, o programa nunca decepciona nessa seara. A edição desse ano não poderia ser diferente. O brother Cássio, por exemplo, não é racista, até tem amigos negros, porém foi tachado de preconceituoso por dizer que sente saudades da escravidão. Ontem, a sister Franciele também fez uma brincadeira que poucos entenderam:

“Tenho tudo de uma negona. Tenho o samba e até o cheiro. Me deixa sem desodorante para você ver!“

Confrontado pelo único brother negro na casa, Franciele se defendeu atrás da boa e velha imunidade humorística:

"Não. Nada disso. Eu falei de boa. Não vejo como racismo"

Além dos clássicos "não sou racista, mas", "não tenho preconceito, até tenho amigos negros"e "tô brincando!", agora também podemos acrescentar o novo hit: "falei de boa" ao acervo cultural da nossa bela e frondosa democracia racial.

E se alguém for racista aqui, a gente joga a culpa no "Braço".