WandNews - 59ª edição

E é chegada a edição de número 59 da sua WandNews, a coluninha que vem recheada com os absurdos mais sensacionais da semana.

Hoje temos a dignidade médica como escudo do chorume, a revista VEJA trocando “Guerra e Paz” por “Walt Disney”, a retumbante ignorância da revolta bandeirante contra nordestinos, e um Wando Responde ao separatista. 



CHORUMINHO

Muitos comentaristas gostam de dizer que minha intenção é dividir o Brasil entre brancos e negros, pobres e ricos, norte e sul. É como se vivêssemos em plena igualdade de condições, sem conflitos de qualquer tipo, numa harmonia social de fazer inveja a qualquer país escandinavo. Hoje vamos dialogar com um chorumito que mostra que a realidade é bastante diferente.

Uma comunidade de quase 100.000 médicos e estudantes de medicina no Facebook foi alvo de uma reportagem do IG, que mostrou o peculiar ativismo político de alguns doutores brasileiros. O grupo não poderia ter um nome mais adequado: 


E é com toda essa dignidade que alguns integrantes têm destilado ódio contra quem não escolheu o mesmo candidato da maioria da classe médica. Segundo a reportagem, os militantes-doutores "pregam ‘castrações químicas’ contra nordestinos, profissionais com menor nível hierárquico, como recepcionistas de consultório e enfermeiras, e propõe um ‘holocausto’ entre os eleitores da petista"

Quanta dignidade! Médicos pisoteiam o Juramento de Hipócrates em público e propõem métodos nazistas para impedir a proliferação daqueles que optaram por um outro projeto político.

Uns confessam fazer campanha com pacientes dentro do consultório, outros dizem colocar ”a recepcionista no lugar dela” ameaçando com demissão caso Dilma ganhe.

Algumas frases revelam o tamanho da sensibilidade social desses médicos:

Um verdadeiro pot-pourri de chorumes encharcados de ódios contra quem não compartilha do mesmo nível hierárquico desses deuses do Olimpo. Sem muito o que dizer diante desse holocausto de dignidade, encerro a seção mais nobre dessa coluna com um trecho do Juramento de Hipócrates:

A saúde de meus pacientes será minha primeira preocupação (…). Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes



BEIJO NO CORAÇÃO

Em 1983, dois cientistas alemães da Universidade de Hamburgo revolucionaram o mundo da ciência. Uma fusão entre células de um boi e células de um tomate criou o “boimate”, o “fruto da carne”.

Essa notícia era uma brincadeira de 1º de abril da revista New Scientist, mas VEJA levou muito a sério. Além de criar um diagrama explicando o processo, a revista entrevistou um biólogo pra comentar a anedota com ares científicos. 

O beijo no coração não tinha como não ser pra revista, que novamente ficou confusa e protagonizou mais um capítulo da série “boimate”. 

Na última sexta, em entrevista dada a Globo depois do debate presidencial, Eduardo Jorge se saiu assim quando perguntado sobre o uso da maconha:

" (…) prefiro ler Tolstói, Romain Rolland,  observar pássaros, brincar com meu neto, jogar futebol. Tenha paciência!"


Mas a VEJA entendeu:


"Prefiro assistir a Toy Story com meu neto ou jogar futebol”

Além da edição magistral das falas do candidato, a revista trocou o nome do escritor russo por o de um desenho animado da Disney. 

Se cientistas alemães pudessem fundir células de Tolstói com células de Buzz Lightyear, o personagem de Toy Story, talvez conseguiríamos criar esse incrível personagem:


IMAGEM WANDALIZADA

Mesmo com tantos motivos pra criticar o governo e sua candidata, a revolta contra os eleitores mais pobres parece ser mesmo a tática preferida de alguns militantes opositores.

Se você acha que os médicos esvaziaram os reservatórios de chorume, prepare-se para ler um texto vindo diretamente das profudenzas do volume morto, O manifesto anti-nordeste foi publicado na Revista Actual, que circula gratuitamente pelo interior de São Paulo. O título da coluna é “DESESPERO”:

O colunista Anderson Magalhaes propõe uma estratégia terrorista pra dificultar a participação dos pobres na festa da democracia. A coluna começa até que bem tranquila:

"Ainda tem salvação!!! Nesta eleição, diga não ao povão e faça com que a Dilma e sua corja perca seus votos na última hora”

Até aí, nada tão absurdo perto das declarações feitas no “Dignidade Médica”. Preste atenção apenas no erro de concordância em negrito, ele lhe será útil daqui a pouco.

"Vamos fechar as bocas de urna e as bocas de fumo, trancar as nossas ‘secretárias do lar’ em casa, interditar as casas de forró e proibir os porteiros de saírem dos prédios. Vamos paralisar todas as linhas de trem e ônibus, tirar a tv aberta do ar e obrigar todos assinarem pay per view. Subornar todos os que tenham ajuda de custo para o supermercado. Cancelar os vôos vindos do Nordeste e fazer sanções econômicas à Bahia enquanto Carlinhos Brown não prometer voto de silêncio … Ate la, Salvador e adjacências vão viver apenas do que produzem: dendê, cocada e Luiz Caldas"

A coisa alcançou um nível tão chorumesco, que chego até imaginar que o colunista seja um petralha infiltrado na revista pra difamar a oposição.

Mas tudo que está ruim ainda pode piorar:

Alagoas, Piaui e Maranhão ficariam de fora do cenário eleitoral por falta de quorum alfabetizado. E, para ter seu voto validado, todos terão de formular uma frase inteira sem erros de concordância e com todos os plurais - a regra vale para Goias e Tocantins, que politicamente pertencem a região Norte. Será que da certo?

Numa democracia isso não dá certo, não, querido. Sua proposta é o mais puro creme de chorume fascista. E, nesse mundo idealizado, está claro que sua carreira de carrasco gramatical seria um fracasso




WANDO RESPONDE

No post "Fernando Henrique o preconceito contra o nordestino", em que escrevo sobre a desqualificação histórica do nordestino em períodos eleitorais, um bandeirante confuso apareceu pra dar um recado aos leitores:

 


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