WandNews - 77ª edição

E é com inenarrável prazer que anuncio a chegada de mais uma WandNews, a coluninha que vem recheada com as principais insanidades da semana.

Hoje temos o recrudescimento da histeria chorumêra pelo impeachment de Dilma, o beijo no coração do deputado que chama o golpe militar de revolução, a abordagem evangélica da polícia goiana, e um Wando Responde em nome de Jesus.



CHORUMINHO

Depois que Eduardo Cunha se elegeu presidente da Câmara, o impeachment voltou a ser a onda do momento. Todos sabem que ele não vai rolar, mas deixar a chama da esperança acesa interessa a muita gente.  

Mas os Revoltados Online, Lobão, intervencionistas militares e outros grupos de direita estão nessa campanha muito antes de virar modinha. Eles articulam um movimento pela derrubada da presidenta eleita desde que as urnas foram apuradas.

A febre do impeachment estava quase esfriando quando um advogado de FHC, membro do conselho do Instituto FHC, resolveu contratar um parecer jurídico de Ives Gandra. Advogados consultados pela Folha dizem que o valor da peça contratada pelo advogado do tucano deve ter custado de R$100 mil a R$150 mil. Uma pechincha.

Ives, que há dois meses dizia em entrevista aos Revoltados Online que era necessário esperar a conclusão da Lava a Jato para se cogitar impeachment, já mudou de opinião. O advogado, que é um dos primeiros integrantes da Opus Dei no Brasil e chama o “Golpe de 64” de “Revolução”, diz agora que “há fundamentação jurídica” para o impeachment.

Após a divulgação desse parecer “técnico” contratado por gente ligada à oposição, a chama do impeachment reacendeu com força total. Não se fala em outra coisa na imprensa, nas ruas e nas redes sociais.

A coisa tomou uma proporção tão grande, que até uma indústria do impeachment se criou. Sim, muita gente enxergou nesse momento de crise uma excelente oportunidade pra fazer bons negócios. O pioneiro nesse mercado é o grupo Revoltados Online, que flerta com a derrubada de Dilma desde a sua fundação:

Por apenas R$175,00 você garante o seu “Kit Impeachment Já”, tanto na versão masculina quanto na feminina. O kit vem com uma camiseta polo, 1 boné e 5 adesivos “Fora Dilma”. Nada como ser politicamente consciente e estar na moda ao mesmo tempo.

E, se por um milagre o impeachment acontecer, pouco importa quem irá assumir. Pode ser até o Homer Simpson:

Com apenas R$50,00 você pode mostrar pros seus amigos que um revoltado online também tem bom humor.

Quem também mais uma vez aproveitou o momento político pra faturar foi o empresário de moda Sergio K. Ele, que é proprietário da grife Sergio K, já havia colocado à venda durante a eleição a camiseta "Uai, we can!", em apoio a Aécio Neves. Dessa vez, porém, Sergio K mostra um espírito democrático ainda mais apurado, aliando business com ativismo político:

Por módicos R$99,00 você pode surfar a onda do impeachment fashion, mostrando a todos que você é diferenciado, moralmente superior, e não tem nada a ver com os problemas do país.

Mas e o Aécio? O que acha de tudo isso? 

"Não vejo elementos jurídicos ou políticos para um pedido de impeachment"

Diante da absoluta falta de provas que incriminem a presidenta, o principal líder da oposição se viu obrigado a jogar água no chopp dos guerreiros do impeachment. Bom, de qualquer maneira, faço votos que tenham sucesso nos negócios. 



BEIJO NO CORAÇÃO

O Brasil elegeu democraticamente o congresso mais conservador desde 1964 e já tem um grande símbolo dessa nova era. Estou falando do deputado federal Capitão Augusto, do PR, que desfila pelos corredores da Câmara com um fardamento militar repleto de condecorações penduradas

O capitão obteve pouco mais de 46 mil votos na última eleição, mas conseguiu se eleger graças ao seu correligionário Tiririca, que conquistou mais de um milhão de votos e ajudou a puxar outros nomes do partido. 

O deputado também é fundador do PMB, Partido Militar Brasileiro, que, segundo ele, já está pronto para ser lançado e será o “primeiro partido de direita assumidamente do Brasil”. 

O curioso é que Capitão Augusto já havia sido candidato pelo PV, PDT e PSB. Agora está no PR, que integra base aliada do governo, mas está criando o PMB, um partido que será de oposição. A política brasileira não é mesmo para amadores.

Em entrevista ao jornal O Globo, o capitão contou orgulhosamente que os integrantes do PMB são originários da antiga Arena, o partido que sustentou o regime militar.

Está quase tudo pro ponto para o PMB ser lançado, mas ainda falta um número que represente verdadeiramente o partido. Capitão Augusto está em dúvida entre quatro opções: 18, 38, 64 e 99. Ele explica:

18 - “É a idade do alistamento militar obrigatório, mas também a idade da maioridade penal que queremos derrubar no Congresso Nacional”

38 - “É por causa do famoso três oitão (38), revólver mais usado pelas corporações militares”

64 - "Em homenagem a nossa revolução democrática"

99 - “Para ser bem diferente de tudo mesmo”

Depois dessa aula de numerologia militar, não me resta nada a não ser desejar muita sorte pra democracia brasileira. Ela vai precisar. 



IMAGEM WANDALIZADA

No interior de Goiás, a PM foi acionada para conter um cidadão alcoolizado que estava quebrando objetos e causando confusão em um bar. Chegando lá, os soldados constataram que tratava-se de um problema espiritual. Não estavam simplesmente diante de um indivíduo bêbado, mas de um “espírito maligno”. 

Em vez de seguir o procedimento padrão e encaminhar o homem à delegacia, os policiais decidiram fazer um exorcismo em plena via pública:

Como vocês puderam notar, os policiais comandaram, no mínimo, 9 minutos de sessão de descarrego. Até onde é possível ver, o operação policial não obteve sucesso no ritual de exorcismo.

Um dos soldados liderou a ação com muito vigor, encarnado num pastor neopentecostal:

"Saia em nome de Jesus! Você tá repreendido em nome de Jesus! Você tá amarrado em nome de Jesus! Saia, espírito de alcoolismo! Cala a boca, Satanás! Ninguém quer falar com você!"

A gente até entende a boa vontade do policial evangélico, que considerou o atendimento espiritual a melhor forma de resolver a ocorrência. Mas a polícia representa o Estado, que é laico, e jamais poderia lançar mão de uma abordagem religiosa. Até porque aí o justo seria prender o capeta, e não uma vítima dele.



WANDO RESPONDE

Na última WandNews, em que uma reportagem da Globo foi premiada na seção Choruminho, uma amiga internauta parece não ter feito a leitura adequada do texto e só faltou querer me exorcizar na caixa de comentários:

(Siga-me no Twitter: @JornalismoWando)