Alckmin e a irresponsabilidade na crise da água. Quem vai pagar por isso?

Laura Capriglione
Alckmin e a irresponsabilidade na crise da água. Quem vai pagar por isso?

É escandalosa a irresponsabilidade com que, até agora, vem sendo administrada a crise da água em São Paulo. Na zona leste da cidade já há bairros como Guaianazes, que somam mais de 72 horas ininterruptas sem água nas torneiras. E, ao contrário do que supõe a o senso comum, uma quantidade imensa de casas humildes não dispõem de uma só, ainda que pequena, caixa d’água. Ou seja: acabou a água da rua, acabou toda a água. E ponto.

Por isso é tão inquietante ver o novo presidente da SabespJerson Kelman, admitir nesta semana que o reservatório da Cantareira (responsável, em condições normais, por 47% do fornecimento de água para a Região Metropolitana) pode secar até março. Ou o secretário de Recursos Hídricos do Estado, Benedito Braga, dizer que temos de estar “preparados para o pior”. Para afastar o risco de uma “catástrofe”, Braga disse que “a população tem de reagir.” E que o plano do governo para enfrentar a crise é esse: “Em seis meses, não se faz nenhuma obra. O que nós queremos é que o consumidor consuma menos. A curtíssimo prazo, é isso o que tem de ser feito.”

É, o prazo encurtou demais, entre outras coisas, porque só na semana passada o governador Geraldo Alckmin (PSDB) reconheceu que São Paulo vive uma situação de racionamento de água. Durante todo o ano de 2014, as pedras sabiam que a crise nos reservatórios estava feia. Mas Alckmin dizia que não. Como se a negação resolvesse o problema.

Não resolveu.

velho método tucano de nunca assumir qualquer responsabilidade pelos problemas que ocorrem em sua alçada até foi tentado. Desta vez, culpou-se São Pedro e o clima, que não podem se defender…

Conceda-se que choveu menos do que o esperado, sim. Entretanto, segundo a engenheira Monica Porto, da Escola Politécnica da USP, há dois anos, um estudo da Agência Nacional de Águas já colocava São Paulo entre as áreas de risco de desabastecimento hídrico, por conta do aumento de demanda, decorrente da pressão demográfica.

E não se tomaram as providências necessárias.

pesquisadora da Universidade Stanford, na Califórnia, Newsha Ajami, diretora do programa Water in the West, que visa à pesquisa e desenvolvimento de soluções para a crise de água no Oeste dos EUA, desceu a lenha no governo. “É, sim, um problema nacional de seca, mas [no Estado] ele é exacerbado pela falta de gerenciamento e de soluções”, disse a pesquisadora à “Folha de S.Paulo”

Comparando a situação de São Paulo com a da Califórnia, também às voltas com abastecimento de água, Newsha disse ter ficado surpresa ao chegar à capital paulista e ver o rio Tietê cheio. “Nós [na Califórnia], realmente não temos água, não está chovendo e os nossos rios estão secos.”

Segundo ela, o governo deveria já se ter concentrado em corrigir os vazamentos nos canospor onde escorre de 40% a 45% da água produzida pelo sistema. “Eles estavam cientes de que havia vazamentos no sistema e me surpreende que não tenham tentado resolver isso. Acho que o governo não vinha fazendo a manutenção ativa do sistema”, disse.

De fato, para quem conhece os rigores de uma seca de verdade, é inadmissível, quase surreal, a situação de São Paulo. Tem inundação e falta d’água ao mesmo tempo. Chove e os reservatórios secam. Como isso é possível?

A Sabesp já disse literalmente, como que a “tirar uma” da cara dos paulistanos, que “São Pedro tem errado a pontaria” [frase do presidente da empresa]. A crise de abastecimento de água seria uma decorrência do fato de as chuvas estarem desabando sobre bairros sem reservatórios de água, enquanto que, nas represas, quase não chove.

Mas esta é uma desculpa esfarradada. São Paulo já tem uma estrutura de coleta de água de chuvas, que corre separadamente do esgoto. “Mas, no fim, os dois são despejados no mesmo lugar”, constatou a diretora do programa Water in the West. Ela considera que essas águas de chuva poderiam ajudar em períodos de seca e tentaria captá-las, limpá-las e usá-las novamente.

Por fim, segundo ela, seria preciso investir em um sistema que limpasse a água do rio Tietê e permitisse reutilizá-la. De verdade… Até agora, tudo o que os paulistanos viram foi o governo estadual enfiando bilhões de dólares no rio, sem conseguir de fato avançar na despoluição.

É claro que é preciso estimular os consumidores a economizar água. É claro que os “gastões” tem de ser punidos com um sobrepreço. Mas a queda, dia após dia, do nível dos reservatórios já antecipa que isso não será suficiente.

Talvez seja necessário reavaliar a conveniência de manter indústrias, com alto padrão de consumo de água, funcionando dentro da região metropolitana, disse o geógrafo Wagner Ribeiro, professor titular da USP.

O fundamental é que não sejam os mesmos de sempre —os pobres e moradores das periferias— os que pagarão pela irresponsabilidade dos governantes. 

Como repórter, acompanhei a crise hídrica de Itu (município situado a 102 km de São Paulo), onde chegou a haver uma rebelião popular pela falta de água, em setembro último.

Arremessando pedras, tomates e ovos, em vez de “black blocs”, quem tomava a dianteira no protesto eram comportadas donas de casa, transformadas em “perigosas revolucionárias” pelo desespero de não ter uma gota de água para saciar a sede ou para um mínimo de higiene.

Água, vamos falar a verdade, é coisa séria demais. Na falta, desestabiliza, desespera, faz até o mais pacífico cidadão perder a cabeça. Com a inação da Sabesp e de Alckmin, 2015 promete!