Feminismo para as princesas e para as peludas


“Eu não sou feminista. Sou feminina.” Nos anos 1990, esse foi o mantra repetido por uma geração de mulheres que, tendo já ingressado no mercado de trabalho, acreditava que a missão histórica do feminismo estava cumprida. Foi o apogeu das revistas femininas com chamadas de capa do tipo: “101 dicas para atingir o orgasmo e levar seu gato à loucura”.

Tinha dicas para tudo, sempre acompanhadas por números vistosos --mania das revistas da época--, que não queriam dizer nada: “1008 formas de vencer na carreira”; “100 respostas para as suas maiores dúvidas sobre cabelos”; “Sarada em 40 minutos”; “Como perder 15 kg em 20 dias”. Vendia como água no deserto (ou em São Paulo daqui a pouco).

Em um país que há 500 anos nega o racismo nosso de cada dia --suprema hipocrisia!--, as mulheres negras não podiam aparecer em capa de revista. Havia um interdito claro, resumido na frase: “Negro não vende.” Ouvi essa máxima (ou mínima?) incontáveis vezes. Mas também os gordos eram proibidos: não saía na capa nada que afrontasse o stablishment da beleza, que reinava absoluto.

E tome fórmulas malucas para emagrecer, domar os cachos, gozar, abrir um negócio, ficar com o corpo da Xuxa. E tome anúncio, muito anúncio de produtos de beleza e moda, principalmente.

Ninguém poderia esperar que, nesse pântano ideológico, 20 anos depois, surgisse um feminismo renovado, quase adolescente, libertário, ousado e engraçado --exatamente quando morrem ou agonizam (por falta de leitoras) as revistas de que se falou acima.

Agora, leia o trecho sobre a indústria da beleza, recém-publicado na revista eletrônica “Capitolina” (www.revistacapitolina.com.br):

“Basicamente o que essa indústria faz é determinar que apenas duas ou três cores de uma caixa gigante de lápis de cor são bonitas – imaginei aquelas caixas glamurosas de quarenta e oito cores. Desesperados, os outros lápis fazem de tudo para ficar mais parecidos com a seleta casta da beleza.



O problema é que, por mais minuciosa que seja a mistura de amarelo com vermelho, é muito difícil chegar ao tom de laranja estipulado como padrão de beleza. E adivinha quem é que vende o amarelo pro vermelho ficar laranja? Sim! A indústria da beleza!



O lápis vermelho é tão bonito quanto o lápis laranja. É claro que há quem prefira vermelho e há quem prefira laranja, mas isso não significa que a beleza de um tem mais valor que a do outro.



Eu aposto que você não chegaria pra uma taturana e diria: “Olha só, você só vai ser gatinha se virar um dromedário, porque só dromedários são descolados e sensuais.” Você sabe muito bem que é impossível uma taturana virar um dromedário – apesar de ser 100% ok conversar com taturanas.



Então me responde: essa situação é menos bizarra do que essa porcaria de indústria metendo o dedo na nossa fuça e dizendo que a gente só vai se sentir bonita se for magra, branca, de cabelo liso e nariz pequeno? O nível de bizarrice é o mesmo.”

Ahahahaha! A autora dessa conversa surreal com a taturana é a Julia Oliveira, 20 anos, que vem a ser coordenadora e colaboradora de Moda e Beleza da revista “Capitolina”. Estudante de Letras, Julia define-se como pessoa “metida em muitas coisas, mas não faz nada direito – o que tudo bem, porque só faz por prazer mesmo –, como, por exemplo, escrever, imitar a Beyoncé e cozinhar.’’

A “Capitolina” é parte de um novo feminismo que incorpora as reivindicações históricas das mulheres, como o direito de dispor de próprio corpo, o direito ao livre exercício da sexualidade, contra o assédio e abuso sexual, pelos direitos reprodutivos, por salários iguais aos dos homens, contra a discriminação de gênero. Mas vai além.

As 58 jovens que fazem a revista moram em todo o país (algumas fora também), incluem estudantes em escolas privadas e outras que fizeram a escola pública; são brancas, negras, mestiças; homos, héteros. Tem também uma transexual, a pernambucana Maria Clara Araújo, 18 anos, ativista da causa trans* (“sou transexual com orgulho”) e vestibulanda. Maria Clara escreve sobre Estudo e Profissão.

Inclusão é a palavra-chave desse novo feminismo. Tem a menina que curte a fantasia de princesa? Tem e ela está dentro, ostentando sua coroa de Cinderela “fake”. E tem a menina romântica, que diz que seus melhores sonhos são com meninos.

Mas tem também a webdesigner mineira que se define como "muito feminista e ativista da causa": "Meu café da manhã são lágrimas masculinas”, escreveu.

E tem ainda a garota que anda de camiseta regata, exibindo portentoso tufo de pelos debaixo do braço. “Assumir nosso corpo, nossas feições e pelos é um ato político: desse modo estamos dizendo que ninguém controla nossa aparência além de nós mesmas”, afirma o texto crítico à indústria da beleza. (Veja também o site "Pelos Pelos", http://pelospelos.com.br/)

O mais legal é o diálogo que se estabelece entre tantas diferenças, assumidas como manifestações igualmente legítimas da liberdade de cada uma ser como é.

Em um Brasil crispado por ódios e ressentimentos, por manifestações irracionais de violência e morte, como as que temos visto nos últimos dias, essas meninas-mulheres falam simplesmente da esperança em dias mais criativos, mais tolerantes, mais respeitosos em relação à diferença, mais solidários.

São imprescindíveis!