Panelaço e xingamentos: é esta gente sem educação que quer assumir o poder?

Laura Capriglione
Imagem: Thinkstock

Não foi o ajuste fiscal e seus efeitos deletérios sobre a população mais pobre o que levou os bairros ricos de 12 capitais, Higienópolis e Leblon como símbolos, a uivar de suas varandas gourmet impropérios contra a presidente eleita do Brasil.

Também não foi a corrupção, ou teriam sido ouvidos apupos endereçados aos peemedebistas Renan Calheiros e Eduardo Cunha, respectivamente presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados. Os dois apareceram na lista do Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, como suspeitos de envolvimento no desvio de recursos da Petrobras.

(Ninguém lembrou deles.)

Era Dilma Rousseff o alvo do protesto ululante de desrespeito, má educação, machismo, covardia.

Em pleno Dia Internacional da Mulher, os ricos resolveram que tinham de desconstruir aos berros a imagem de Dilma, cobrindo-a com o mais abjeto rol de xingamentos a traduzir o preconceito de gênero.

“Vaca”

“Puta”

“Filha da puta”

“Vagabunda”

“Xuuuupa, Dilma!”

“Ei, Dilma! Vai tomar no cu.”

Isso não é “divergência política” –é boçalidade fascista achando que, assim, pavimenta o caminho para o impeachment a jato da presidente.

Não pavimenta.

O linchamento moral de Dilma Rousseff faz lembrar que quem arreganha os dentes contra ela é a mesma parcela da elite hidrófoba que atacou a ascensão social dos pobres; que se opôs à regulamentação da profissão de empregada doméstica; que “denunciou” os aeroportos apinhados de gente que antes nem podia sonhar com uma viagem de avião; que, tendo acesso aos consultórios mais caros do país, vociferou contra o “Mais Médicos”; que se opôs ao ingresso dos negros nas universidades —pela primeira vez em 500 anos.

E que não aceita o resultado das urnas por ódio de classe.

Sejamos francos: a Dilma do segundo mandato ainda tem de provar que fará um governo socialmente justo —até agora, todas as pancadas do ajuste fiscal foram dadas do lado mais fraco…

Mas eu estou entre aquelas pessoas que nunca acreditaram que se possa construir um país melhor apelando para o ultraje baixo e feroz contra uma mulher.

Por tudo isso —hoje— sou Dilma e não abro.