Racismo na polícia


“Pelo fato de ele ser de cor, por se dizer negro, um negão forte, os caras olharam e sentaram bala.” Assim Guilherme Zaratini definiu a ação dos policiais militares de São Paulo, que mataram na última segunda-feira (21) com cinco tiros o seu irmão, Osvaldo José Zaratini, de 32 anos.

Gerente de uma loja de tintas no bairro de Cidade Ademar, na zona sul da Capital, Osvaldo foi vítima duas vezes. Na primeira, de um sequestro-relâmpago, praticado por Rafael Lima de Oliveira, de 28 anos, um ladrão em fuga, que invadiu a picape de Oswaldo e, armado, ordenou que ele dirigisse para longe. Mas o carro acabou interceptado pela PM. Ao descer da picape, o negro Osvaldo recebeu cinco tiros.
Os policiais disseram ter confundido o aparelho celular que ele estaria carregando. Acharam que fosse uma arma.

A família da vítima não acredita nessa versão. “Cinco tiros em uma pessoa sem arma?”, perguntou o irmão. Como sempre, a polícia promete investigar “o contexto em que as ações se deram."

Também a PM do Rio de Janeiro promete investigar “o contexto em que as ações se deram”. No caso, a morte do dançarino negro Douglas Rafael da Silva Pereira, 26, o DG., a população da favela do Pavão-Pavãozinho, encrustada no bairro de Copacabana, acusa policiais de terem torturado e matado o rapaz.

E tem o caso da auxiliar de serviços Claudia Silva Ferreira, negra, atingida por um tiro no peito e arrastada no chão por uma viatura policial ao longo de exasperantes 350 metros. Também aí a PM está investigando “o contexto em que as ações se deram."

Enquanto isso, quatro crianças negras, seus filhos naturais, mais quatro sobrinhos que ela criava, ficaram órfãos. O marido de Cláudia, Alexandre Fernandes da Silva, a quem vi em São Paulo na última sexta-feira, dia da Paixão de Cristo, quando ela foi homenageada, é a expressão viva de um homem moído pela tragédia.

Já seria muito. Mas como não mencionar o assassinato do ajudante de pedreiro, negro, Amarildo Dias de Souza, casado, torturado e morto pela PM do Rio de Janeiro em julho de 2013? Mais seis órfãos negros.
“Onde está Amarildo?” tornou-se um bordão da luta contra a violência policial.

São mortes e sofrimentos injustificáveis, inexplicáveis e, ainda assim, tão frequentes. Uma rotina sinistra que, entretanto, não consegue provocar nos governantes – da esquerda à direita no espectro político -- mais do que medíocres reações protocolares. O “Vamos investigar” de sempre equivale a uma conspiração de silêncio cúmplice.

Mas, o que as populações pobres das periferias urbanas já sabiam agora está provado. Segundo estudo recém-divulgado da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) sobre o racismo na Polícia Militar paulista, um negro tem três vezes mais chances de morrer nas mãos de um PM do que um branco.
Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), “o peso desproporcionalmente alto dos negros entre as vítimas mortas nas ações policiais constitui claro indício da existência de viés racista nos aparelhos de repressão.”

E ainda há quem diga que não existe racismo no Brasil.

“Este governo falhou com o negro. Esta chamada democracia falhou com negro”, disse Malcom X, ativista e defensor direitos dos negros americanos, em um comício de 1964. Poderia ser um diagnóstico sobre o Brasil de 2014.