Nova Mimosa

Nova Mimosa


"Situada nas imediações do Maracanã, a Vila Mimosa — famoso ponto de prostituição do Rio — traça planos para atrair os turistas que vem para a Copa do Mundo. Entre os projetos que podem sair do papel, constam a nova Vila Mimosa, batizada de Cidade das Meninas, do arquiteto Guilherme Rodrigues Ripardo, e o Museu do Sexo".  

"Cleide Almeida, assistente social da Associação dos Moradores do Condomínio Amigos da Vila Mimosa (Amocavim), diz: “Estamos buscando parcerias com instituições privadas, inclusive internacionais, e governamentais, para construir a Cidade das Meninas e o Museu do Sexo, orçados em mais de R$ 4 milhões. Já há empresários estrangeiros interessados em patrocinar as obras” -  fonte: Jornal o Dia.
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Sou a favor da Nova Mimosa, e nesse texto não vou falar dos severinos da terra, os verdadeiros mantenedores da Vila. Quero, aqui, tratar especialmente da saliência dos gringos.

Somos uma piada para os gringos, com rara exceção de uma meia dúzia de masoquistas (ou seriam sádicos disfarçados de masoquistas?) que nos levam a sério. Desde sempre eles vem aqui fazer safári. Não é o caso de festejar essa condição, mas de devolver o pasto em forma de pasto.

Para tanto, os moralistas de plantão e as autoridades locais não  precisam ressuscitar nacionalismos toscos nem apelar para a pudicícia e os bons costumes.

Precisaríamos de quinhentos anos - por baixo - para convencer os gringos de que fomos nós, e não foram eles, os colonizadores, que escreveram nossa História .

Ou seja.  Nem o torcedor mais tosco do Bayer Leverkusen consideraria a hipótese de trocar Goethe pelo Gilberto Gil.  Da mesma fora que jamais passaria pela cabeça de qualquer surrealista francês trocar o Musée d’Orsay  pelo Museu do Ipiranga.    

Ocorre que derrubaram a Kilt, em São Paulo, e a boate Help em Copacabana. Só que os patriotas esqueceram de avisar os gringos que - entre outras coisinhas - o Renan Calheiros continua sendo presidente do senado de nossa impoluta república.  Dos escombros da boate Help irromperá - pasmem - um Museu da Imagem e do Som.  Quanta insensatez. Imaginem o contrário. Imaginem se destruíssem o Louvre para, no lugar, colocar um puteiro do estilão da Help. Nossa vocação é brega, é bunda.

Não existe arte nem uma inteligência brasileira a ser considerada, suscitamos – desde sempre – apenas o interesse lúbrico desses fdps, ou seja, eles comem nossas índias, brancas, negras e mulatas  e nós, agradecidos, empenhamos nossas alminhas e vestimos a carapuça.  Somos  macaquinhos deles. Sempre foi assim. Assim sempre será?

Penso que é melhor dar um lustro na verossimilhança do que perder completamente a identidade, ou seja: o ideal é tirar uma casquinha, e incluir os gringos no nosso derrière enfadonho. Tá na hora de dar um passo adiante da antropofagia epilética dos tropicalistas.

A propósito. Triste o nosso tropicalismo, perdeu o viço e a camada de ozônio. Tropical fanho.   Moramos nos escombros de uma selva devastada. As meninas da Mimosa deviam servir de exemplo pros nossos antropófagos, economistas e administradores de plantão. Não vejo problema algum em assumir nossa condição de bunda, pasto, vaso de esperma.  

Explico. Uma coisa é ser submisso, outra completamente diferente, é ser otário.

Se quebrarmos o espelho que nos reflete, seremos iguais a eles.  Eu prefiro a identidade prostituta ao nacionalismo tosco. Quando demoliram as boates Kilt e Help, quebraram o espelho. Ou seja: ignoraram a natureza da nossa bunda empinada: nosso verdadeiro potencial de submissão.  A riqueza brasileira consiste no reflexo: refleti-los  na miséria  dos espelhos através do quais fomos corrompidos. Medusa nos gringos!

De modo que ficar chocado com o turismo sexual desses bichos de goiaba, cogitar de os educar,  é algo tão descabido e tão inverossímil quanto pensar que somos os melhores porque "a Copa do mundo é nossa". Isso sim é dar o lombo pros gringos, reafirmar nossa macaquice e nosso atraso.  Viva as putas que saíram do mangue! Viva a Nova Mimosa!  Viva o Brasil de quatro!