Paisagem sem reboco

Vista aérea do Rio de Janeiro (Thinkstock)

Quando morava em Copacabana, vizinho do Pavão-Pavãozinho, fui testemunha auditiva de uma intensa troca de tiros. Garanto que é algo bem diferente de assistir Willian Bonner entrevistando José Mariano Beltrame pela televisão, pois o controle remoto não é de ninguém - e você pode ser a notícia escolhida pela bala perdida. Durou menos de quinze minutos. Em seguida - imagino - removeram os presuntos, limparam o sangue da calçada e a vida prosseguiu  radiante na cidade maravilhosa do Ruy Castro.

Naquele final de tarde, eu lembro, o sol caprichou ao se recolher defronte as pedras do Arpoador. A turma do Tai-chi compareceu em slow motion, a alma do Cazuza esperava a lua deserta que viria na sequência, uma gringa acendeu o baseado, turistas vindos de Cuiabá e da Islândia mais os ambulantes e a fauna praiana de praxe, todos incautos & mancomunados (eu incluído) com o espetáculo da mãe natureza e nem aí com o(os) presunto(os) do prólogo:

—-  Viva o pôr do sol! Viva o Gil!

Mudei de bairro.  

A única coisa que posso dizer é que a vista aqui de cima é deslumbrante. Sem muito esforço, vejo o porto, toda a extensão da ponte Rio-Niterói, o Sambódromo, o relógio da Central e o Maracanã, se eu der uma espichada no olhar pra lá da Charitas alcanço a Serra dos Órgãos, e o Dedo de Deus. Tenho uma visão de 360 graus que atesta aquilo que os místicos chamam de esperança, e que eu prefiro chamar “um dia depois do outro”. Atrás de mim, o Redentor. Que continua lá, firme, forte, segurando as pontas e protegendo os inocentes dos tiroteios e da beleza de uma cidade que, de perto, é outra cidade. Diante desse painel que é a expressão da vida acontecendo antes de ser apenas uma paisagem, e imediatamente logo abaixo do meu umbigo (em escala), vejo o mar propriamente dito - azul e desbotado pelo sol inclemente de verão. Ao redor, sobre e sob esse relicário cinematográfico, outro mar, um mar de barracos sem reboco e telhas de amianto, que os gringos aprenderam a chamar de “comunidade”.

—- Melhor não dizer qual é a favela pra garantir a segurança - alerta minha concierge saída diretamente de uma das telas de Di Cavalcanti - o nome dela é Brisa, mulata nota mil.

O tiroteio varou a madrugada e se prolongou até quase nove horas da manhã. Só podia ser uma guerra. Ou a “comunidade” me dando as boas vindas. Quando desci, Wesley, filho da Brisa, me informou: “morreram mais de trinta”.

O mantra oficial vai dizer que se trata de um problema localizado, que está tudo sob controle na cidade pacificada. Curiosamente, penso no final de tarde no Arpoador:  "Será que vai rolar pôr do sol?  O pessoal do Tai Chi conseguirá manter o esfíncter relaxado depois dessa?”  

Aí bateu uma saudade inexplicável de um Rio de Janeiro que não existe mais.  Ruy Castro deve ter uma explicação. Ou ele, ou minha psicanalista bronzeada pelo sol de Ipanema  –  a gata formada na PUC que não tive oportunidade de conhecer. O Rio de Janeiro, segundo meu amigo e escritor Reinaldo Moraes, é uma paisagem na memória do paulista. Um beijo menina que vem e que passa, um dia perdido qualquer dos anos 70 - quem sabe? - apareço no seu consultório pra ajustar meus parafusos.

Uma paisagem na memória do paulista.  Pro Wesley, filho da Brisa,  não é bem assim. O barraco que ele divide com mulher e duas filhas fica apenas a dez minutos do leito onde repouso meu esqueleto e meus déjà-vus.

—- Fica espero, paulista. O Microondas esquentou a noite inteira.

O que sobra de um corpo que vai pro microondas? - pensei

Wesley, filho da Brisa,  leu meu pensamento, e devolveu isso aqui:

—- Os pedaços vão aparecer, aos poucos. Serviço expresso: vem em carrinho de supermercado, na quentinha. Pelo sedex, misturado com a farinha que vai fazer a cabeça de muito maluco na zona sul.

O que mais teríamos de acrescentar a barbárie, além do nosso cagaço? Cineminha?  Testemunharíamos as rajadas (o som dos morteiros é diferente) e eventualmente levaríamos uma bala perdida nos cornos como se fôssemos personagens do documentário de um cineasta mauricinho?

Até onde vão nossas informações? Tim Lopes não voltou pra contar o que não deveria ter visto. E o pior, para que, afinal de contas, servem essas informações? Para quem?

Wesley, filho da Brisa, deixou escapar que “aparentemente” corre a mais absoluta normalidade no morro do F… .O Jornal Extra contou 3 presuntos, Wesley, cínico, me garantiu que eram mais de 30. Enfim, tudo dentro dos conformes.

Um parêntese. Chique demais quando Wesley, filho da Brisa, cravou um “aparentemente” em suas reflexões. Eu dei corda.

O que ocorre, creio, é uma relação básica de cliente com fornecedor. Oferta e procura. Capitalismo. A novidade ou o avanço tecnológico do caos atende pelo nome de “Milícia”. Pensando bem, não se trata de uma grande novidade: os milicianos nada mais são do que os atravessadores de sempre. O modus operandi é o mesmo de seus colegas do Congresso Nacional, são lobistas. Nada demais. O que vale é suprir a necessidade dos clientes. Satisfazê-los. Os cadáveres continuam  – há 250 anos, desde a revolução industrial – acumulados sob a mesma lógica: a única diferença que existe entre os meninos de Wall Street e a rapaziada da favela do F…, além de os primeiros serem bem mais truculentos e branquelos, é o endereço.

—- Qual o espanto, malandro?

Wesley, filho da Brisa, olhou pra mim como se afiançasse minha “tranquilidade”, como se me indagasse e já soubesse a resposta:

Depreendi que o Estado não vai querer acabar com o capitalismo na bala. Ou vai?  

“Rio não é Caracas, relaxa, merrmão” - bem que Wesley podia ter me dado essa resposta, mas essa liçença poetica é minha.

Na dúvida, torço para que a paisagem não seja estatizada, tomara que Ruy Castro continue escrevendo seus livros em tecnicolor e câmera lenta e, salvo disposições em contrário, a “galera” do Tai Chi poderá relaxar o esfíncter numa boa: o sol do Arpoador vai prolongar a mesma palhaçada todo final de tarde, apesar da Brisa que sopra por aqui, sanguínea, indiferente, completamente perdida dos sonhos de Di Cavalcanti.