Chega de descaso: um movimento contra a mercantilização da saúde

Matheus Pichonelli

Ana Carolina Cassino tinha 23 anos quando entrou, em agosto do ano passado, no hospital da Unimed, no Rio de Janeiro, com uma apendicite. A doença é tão comum quanto enganosa: embora, de cara, não assuste médicos ou pacientes, pode levar a complicações graves caso não seja tratada rapidamente. Os médicos sabem, ou deveriam saber, disso. Em alguns casos, basta um pequeno corte no lado direito do abdômen ou por via laparoscópica para contê-la. Em outros requer intervenções delicadas – e atenção redobrada.

Formada em farmácia, Ana Carolina esperou 28 horas para ser atendida. Morreu com uma infecção generalizada. Algumas semanas depois, recebo pelo Facebook uma mensagem do farmacêutico da Fiocruz Leandro Farias, fundador do Movimento Chega de Descaso. Leandro era marido de Ana Carolina. Na mensagem, ele dizia acompanhar meu trabalho e pedia ajuda para divulgar o movimento. “Transformei luto em luta. A minha causa agora é coletiva. Temos uma pagina no Facebook e um site www.chegadedescaso.com.br. Nele tem depoimentos de figuras públicas apoiando a causa como: Anderson Silva, Vitor Belfort, Lucinha Lins, Luiz Eduardo Soares, Carlinhos de Jesus, entre outros”, conta.

Na troca de mensagens, ele me convidou a escrever um artigo para o site do movimento. Desde então, perdi as contas de quantas vezes comecei a escrever e apaguei. Começo e apago. Se fossem os tempos na máquina de escrever, haveria à minha volta uma montanha de papeis amassados. Toda vez que começo o texto eu paro, volto, e entro na página do movimento. Depois, confiro as postagens do meu novo amigo. Lá, fico algo como prostrado diante da foto de um casal jovem, explodindo entre risos, e cortado por uma faixa de “Luto”.

Imediatamente me lanço de volta aos meus 23 anos e penso no que eles viveriam pela eternidade em diante se não fossem as intermináveis 28 horas no hospital. Naquele intervalo, um dia se encerrou, outro nasceu, e uma história que mal havia começado foi simplesmente interrompida porque ninguém foi capaz de colocar uma paciente na maca e levá-la a uma sala de cirurgia.

Mas o que dizer dessas 28 horas? O que dizer desses 23 anos? O que dizer da campanha? O que dizer sobre os médicos agora acusados de descaso? Que eles fazem parte do Cremerj, o conselho regional de medicina do Rio que deveria apurar a atitude eles? (Na mensagem, o Leandro me lembra que metade da diretoria pertence ao grupo gestor do hospital).

Na nossa cultura, buscamos conforto nas palavras de amigos e líderes religiosos para suportar os absurdos do acaso, da ausência, da dor e da perda. Vivemos para transformar a dor em saudade, e a saudade, em aconchego. Inconscientemente, pensamos que só conseguiremos seguir em frente quando esta dor estiver domesticada. Por isso costumamos dizer que o tempo é o nosso melhor remédio. E que, remédio por remédio, não há nada a fazer se não esperar.

Não duvido das propriedades ativas da espera, mas ela só funciona quando o absurdo nos escapa. Quando ele é provocado, pela ausência ou pela negligência, esperar é deixar esquecer. É também morrer aos poucos.

Por isso, se pudesse dizer algo ao Leandro, e a todos os amigos, familiares e apoiadores da campanha, é que não se resignem. Não se esqueçam. Não a esqueçam. Nunca.

“Ana Carolina, como outros 50 milhões de brasileiros, tinha um plano de saúde na falsa certeza de que quando precisasse teria um atendimento digno e humanizado”, escreveu Leandro em um artigo recente. “Precisamos valorizar a defesa do direito à saúde por meio do fortalecimento das lutas contra a sua mercantilização”.

É a busca por justiça que fará com que a história da Ana Carolina não seja interrompida em um corredor de hospital à espera de uma cirurgia. Para além da memória e da saudade, ela será um corpo presente toda vez que seu exemplo seja usado para evitar novos absurdos consentidos.

*Ilustração: José Américo Gobbo: http://americogobbo.com.br/