Collor, Casa da Dinda, Ferrari e Fiat Elba: minha gente, 1992 nunca acabou

Matheus Pichonelli

Quem ligou a TV ontem ao longo do dia pode ter experimentado uma estranha impressão de volta ao tempo. Fernando Collor de Mello, Casa da Dinda, automóvel comprado sob suspeita. Até a trilha de abertura da novela O Rei do Gado, sucesso de 1996 em destaque no programa Vale a Pena Ver de Novo, dava a sensação de que por um instante voltávamos para a década retrasada.

Não era impressão. Na verdade, nunca saímos dos anos 1990, diga o que disserem os antigos grunges fãs do Nirvana. Nos sucessivos processos de transição política do país, os mortos aparentemente sepultados de regimes anteriores retornam quase sempre como vetores da estabilidade – ora como aliados, ora como algozes, mas com capital político e financeiro suficiente para manter a influência e vende-la em varejo. É o que permite a um ex-presidente retornar da suspensão dos direitos políticos como senador de primeiro escalão de um partido neoaliado, o PTB, e, até onde apontam as investigações da Lava Jato, com influência até mesmo na BR Distribuidora. A ele o doleiro Alberto Yousseff diz ter pago propina R$ 20 milhões ao em troca de favores da subsidiária da Petrobras.

Além da Casa da Dinda, mansão da família Collor usada como residência oficial durante a sua presidência, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na TV Gazeta, afiliada da Rede Globo em Alagoas da qual Collor é o principal acionista. Se alguém quiser saber como o ex-presidente se manteve em forma, rico e com os votos fidelizados desde que foi ejetado do Planalto, é só seguir as pistas.

A ação da PF irritou o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ex-assessor de Collor na campanha de 1989. O trabalho rendeu a ele o passaporte para a liderança do governo Collor no Congresso – e de lá o Ministério da Justiça de FHC e para a base aliada, hoje nem tanto, dos governos petistas. Renan, que já foi suspeito de pagar pensão a uma amante com a ajuda de uma empreiteira, está entre os políticos denunciados na Operação Lava Jato, assim como o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que deslanchou a carreira política a partir de 1991 quando foi nomeado presidente da Telerj (Telecomunicações do Estado do Rio de Janeiro) pelo então presidente…Fernando Collor.

Em artigo escrito na época, o jornalista Janio de Freitas contava que o hoje presidente da Câmara havia sido “escolhido a dedo” para o cargo por PC Farias após sua contribuição na campanha de Collor. Segundo a Folha de S.Paulo, o apadrinhamento de PC, tesoureiro que pagou o Fiat Elba de Collor no início dos anos 1990 e não chegou vivo aos anos 2000, foi um prêmio por Cunha ter freado a candidatura de Silvio Santos à Presidência da República em 89. Ele ficou no cargo durante dois anos e teve as contas reprovadas pelo Tribunal de Contas da União em razão de suposta contratação de servidores sem concurso e licitações irregulares.

Os anos 1990, como se vê, nunca acabaram. Ou nunca chegamos a ele, a depender da contribuição de nomes como José Sarney (PMDB-AP) como consultor de incêndio (para apagar ou alastrar) a cada crise nova política, ou de Antonio Delfim Netto a cada crise econômica – e assim sucessivamente desde que a República fora proclamada por um marechal amigo do imperador.

“Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”, disse o antropólogo Claude Lévi-Strauss em suas andanças pelo país. A frase foi absorvida por Caetano Velloso nos versos de Fora da Ordem, mas, diferentemente da canção, tudo por aqui é um processo contínuo de asfalto, ponte e viaduto entre o novo e o velho não sepultado. Aqui, não importa o quanto as palavras impeachment e renúncia sejam citadas como solução para todas as dores: o problema, no fundo, não é apenas quem chega e quem sai, mas quem nunca saiu. A ponte das grandes mudanças é quase sempre ruína, quase nunca construção.


Foto: Ana Volpe/Agência Senado

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