Isto não é uma metáfora

Matheus Pichonelli

-Se todas essas áreas de florestas devastadas não são suficientes, então vou te mostrar outra foto.

-O que é isso?

-Um mar de lama.

-É uma metáfora?*

-Claro que não, rapaz. Isso é oportunidade.

-Eu só vejo lama.

-Eu vejo um lugar seguro.

-Como seguro? Olha o rebaixamento da nota. A inflação. A crise. O bolivarianismo.

-Que crise, meu caro? Que outro lugar do mundo dá pra pintar e bordar assim? Tô te falando, não tem lugar mais seguro para colocar o seu dinheiro. Por muito menos o Obama ferrou com a BP.

-Isso era uma barragem, não?

-Era sim. 

-Como virou tudo isso?

-Amigo, debaixo dessa lama tem de tudo. Tem resíduos tóxicos. Tem resíduo industrial. Tem agrotóxico liberado. Tem resíduo hospitalar. Tem a máfia da prótese. Tem porto com megaestaleiro que virou esqueleto. Tem estaleiro que não sabe fazer navio. Tem estádio onde não tem futebol. Tem o sangue dos escravos. Tem os meninos amarrados no poste. Tem a prostituição das meninas. Tem o neto de imigrante xenófobo. Tem a falência do ensino público. As escolas fechadas. Tem homicídio que não entra na conta de homicídio. Tem Ministério Público que grita, grita e não faz marola. Tem ambientalista que faz campanha e vira ecochato. Tem até quem ultrapassa pelo acostamento. E motorista embriagado. Tem de tudo nessa lama. Ela passa todo dia debaixo das janelas e não dá pra chamar nem pai nem mãe porque eles estão todos nos escombros.

-E o governo?

-Que governo? Tá louco? Ali é tudo nosso. Ali a gente usa o banheiro de porta aberta. Pode ser prefeito, governador, ex-governador, presidente, senador, ministro, o escambau. É tudo nosso.

-E as vítimas?

-Das vítimas ninguém se lembra. Dali a duas semanas o assunto é outro. 

-E a opinião pública?

-Essa quer saber de outras águas. Estão tudo na TV vendo o mar vermelho.

-Estou confuso. 

-Vai por mim: ali quem apita é nóis. Licenciamento ambiental ali é palavrão. Você assina um termo de ajustamento, diz que vai ter contrapartida, plano de contingência, monitoramento, margem de proteção, refloresta, alarme quando tiver emergência e esquece. Ninguém vai te cobrar nada. A não ser que você comece a falar de feminicídio, Simone de Beauvoir, essas coisas. Aí não dá. 

-Mas pensa no prejuízo que o dono dessa lama vai pagar…

-Que prejuízo? Essa conta já tá paga. Quem paga a janta é a gente, fera. Só que a janta ali tem outro nome. Ali ninguém dá o nome das coisas. Ali tragédia ambiental é acidente. Lembra do positivismo do Auguste Comte que tu aprendeu na escola? Esses caras olham pra bandeira e acreditam. Por onde a gente passa a gente desertifica e deixa corpos no caminho. Alguns nunca vão ser encontrados. Mas pra eles essa lama envenenada é PROGRESSO.

-E não tem manifestação?

-Amigo, pra isso existe a borrachada. Gás de pimenta. Ali quem não reagiu está vivo. O resto paga a conta do enterro e esquece. Pra gente é dinheiro de pinga. A vida ali não Vale o gelo que tu bota no teu uísque. 

-Pensando assim…

-Pode investir. Antes dessa lama toda sabe quanto eles faturaram? Dois bilhões. Num ano. Pode investir. É seguro. Mas primeiro ajuda na campanha, tá? Faz o jogo de cena. Diz que tem um projeto. Que vai colaborar. Aí vai lá e derruba tudo. Se a fonte secar, ou estragar, a gente pega a mala e vai embora.

-Tá. Ok. Colocar o dinheiro é fácil. Entendi. Mas e pra tirar, se é que você me entende?

-Meu bem, para isso sempre teremos a Suíça.

Foto: Agência Brasil

*Crônica descaradamente inspirada na charge de Laerte publicada na edição de terça-feira, 10/11, na Folha de S.Paulo