Lula, 70: entre o mito e o revisionismo

image


Ontem, 27 de outubro de 2015, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva completou 70 anos. Nunca antes na história desse país os passos (atuais e pregressos) de um ex-presidente foram observados com tanta atenção e desconfiança como dessa vez.

Em parte porque seu governo é hoje alvo de uma espécie de revisionismo histórico em tempo real. Em parte porque o acirramento da polarização com o PSDB de Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e Carlos Sampaio (sic) atingiu, nos anos Lula/Dilma, patamares ingovernáveis. O desencarne parcial do poder - mais parcial talvez do que gostaria a sua sucessora - dá a ele uma sombra em direção a 2018 atacada diariamente pelos opositores.

Em outros tempos, Lula teria saído da cena pública para ser lembrado como mito nos livros de História. Seria lembrado como o presidente em cujo governo milhões de pessoas saíram da pobreza e se tornaram consumidoras. Como o presidente que colocou o Nordeste no centro das preocupações. Que levou energia elétrica a rincões mal iluminados do país. Que abriu fronteiras diplomáticas em direção ao Sul. Que ampliou o gargalo universitário com bolsas e ações afirmativas. Que colocou no papel um ambicioso plano de infraestrutura. E que instituiu e ampliou o alcance de um engenhoso programa de distribuição de renda pelo país.

Não é pouco, mas parte dessa outra história começou a ser desconstruída antes de qualquer biografia definitiva.

Para chegar (e se manter) no poder, Lula contou com uma base de apoio que é a antítese dos sonhos da classe trabalhadora representada por seu partido. Este, ao longo dos anos, perdeu quadros históricos (ora chamados radicais, ora ressentidos) por lideranças pragmáticas abatidas, uma a uma, em escândalos de corrupção. O primeiro deles, o mensalão, vitimou José Dirceu, nome forte de seu primeiro governo agora suspeito de enriquecimento ilícito. Outro nome forte, fiador da política econômica dos primeiros anos de governo, saiu pela porta dos fundos quando foi noticiada a violação do sigilo bancário de um caseiro que dele (e de seu grupo) sabia demais.

O escândalo do mensalão expôs a forma com que a campanha petista construiu alianças para chegar ao poder. A Lava Jato expõe agora os custos da sua manutenção: sob seu governo, a maior empresa do país foi (ou seguiu?) loteada entre partidos políticos que instalaram verdadeiros feudos em diretorias estratégicas. Eduardo Cunha (PMDB-RJ), conforme sugerem as investigações da PF e do MPF, é a face mais obscura desse loteamento.

Desses feudos, sempre segundo as apurações, saíram empresas agraciadas e financiamento de campanha, acordos só agora investigados e revelados ao público. O resto da história é conhecido, e explica por que o presidente mais bem avaliado da história é hoje rejeitado por 55% dos eleitores sem assinar qualquer despacho há quase cinco anos. (Outras lideranças contemporâneas a ele sofrem o mesmo desgaste, segundo o Ibope, mas isso é tema para outra conversa).

A verdade é que, nesses cinco anos, não houve um único dia em que os jornais, a maioria antipáticos ao ex-operário, não deram destaque a qualquer fala (ou não-fala) do ex-presidente. As entrevistas são raras, mas as declarações públicas e privadas (especuladas, vazadas, quase sempre desmentidas) são muitas: ora para atacar opositores (e ser atacado por eles), ora para pedir apoio à sucessora, ora para dizer como ela deve gerir seu legado.

Recentemente, a Lula foi atribuída a responsabilidade de costurar, em nome do governo, um pacto de não-agressão com Eduardo Cunha, que tem a chave para o processo de impeachment contra Dilma Rousseff na Câmara. Em público, ele nega. Mas, de maneira semelhante aos seus opositores, evita subir o tom e pedir, com todas as letras, a saída do presidente da Câmara, que em menos de um ano no posto já mostrou ser capaz de colocar em risco os direitos de trabalhadores, mulheres, adolescentes em situação vulnerável, etc - a base, portanto, de sua popularidade.

A crise econômica que hoje manda a fatura coloca em xeque as escolhas do ex-presidente em seu tempo de governo. O papel dos bancos públicos, sobretudo o BNDES, que desde 2008 emprestou o equivalente a 10% do PIB para empresas escolhidas pelo governo acelerarem o crescimento, é agora contestado (sobre o assunto, recomendo a leitura da reportagem de Consuelo Dieguez na piauí deste mês). Pois um dia o dinheiro secou, e o ambiente político e empresarial (parte do qual, durante anos, se aproveitou da bonança), também.

A crise tem muitas frentes, e acontece em um momento em que a proximidade de Lula com as empreiteiras (aparentemente legal, aparentemente complexa) é dissecada e um suposto esquema de “encomenda” de Medida Provisória é investigado – uma apuração que já levou ao cumprimento de um mandado de busca e apreensão no escritório de seu filho Luis Cláudio Lula da Silva. Às vésperas dos 70 anos, as definições de inferno astral parecem ter sido atualizadas para o ex-presidente.

No campo político, parte da conta das opções econômicas explode no colo da sucessora, que até tentou se cercar de pessoas da sua confiança e se afastar, até onde era possível se afastar, do antigo governo. Nesse esforço de inflexão, parte da diretoria da Petrobras perdeu espaço com ela. Ministros herdados do antigo governo caíram ou foram substituídos sem qualquer carta de recomendação. Até mesmo a chefe de gabinete da Presidência em São Paulo foi limada por suspeita de tráfico de influência, num alerta involuntário de que nem todas as escolhas do ex-presidente eram assim tão criteriosas.

A Dilma sobrou um dilema delicado. Uma mudança brusca no discurso em sua defesa equivale a jogar para o padrinho político a culpa dos escândalos só agora investigados. Ainda que ela queira (se é que quer) se afastar do ex-presidente, a ausência de traquejo político a leva a recorrer ao antecessor nos momentos de apuros. Lula acaba de emplacar na Casa Civil Jaques Wagner, um nome de sua confiança. Lula atrela seu destino político ao de Dilma, e Dilma atrela seu destino político ao dele.

O agravamento da crise política, com a possibilidade real de impeachment, tem consequências catastróficas não apenas à biografia da presidenta na berlinda, mas à história do antecessor que a escolheu a dedo e a deixou com os leões.


Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos