Quem quer ser um milionário?

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A vida simples (ainda) custa caro. É preciso ter um bom emprego para ter boas escolas para ter um bom nível de instrução e informação para morar nas valorizadíssimas áreas próximas ao metrô para ter acesso a ciclovias, restaurantes naturebas, prateleiras com caríssimos produtos orgânicos, cafés e parques com redes abertas de Wi-Fi. Ainda assim, chama atenção o fato de o cafona de ontem ser o chique de hoje, e o chique se ontem ser o cafona de agora.

Explico. Quando falamos, por exemplo, sobre os desdobramentos da Operação Laja Jato, e citamos que somente um dos investigados guardava US$ 97 milhões em propinas no exterior (Noventa. E sete. Milhões), é comum ouvir no meio da conversa:

-Quantas vidas é preciso para torrar tudo isso?

-Mas pra que tanto dinheiro?

-Esses caras já não tinham um bom salário?

-Já não tinham status?

-O que alguém faria com tantos milhões no cofre?

-De que servia tanto?

Noves fora uma certa ingenuidade das perguntas (pelo andamento das investigações, é possível concluir que megalomania e indicação política são termos associados; ninguém viraria diretor no esquema se tivesse como missão se contentar com o cargo e desbaratar o próprio esquema), é possível perceber nos questionamentos a rejeição a uma ideia arcaica de prosperidade.

Essa ideia pode ser ilustrada pela condição de um dos empresários do esquema detidos pela Polícia Federal. Ao chegar à carceragem em Curitiba, estava esbaforido, sufocado dentro de um terno de corte nobre. Era um homem rico, mas liquidado. Parecia um personagem de Monty Python e o Sentido da Vida que, ignorante dos próprios limites, come com tanta gana, tanta pressa e tanta angústia que explode no restaurante. Entre ossos e vísceras expostas, pede a conta e a sobremesa. 

Vejo a cena como a metáfora de nossos projetos expansionistas: esse estilo de vida acelerado, concentrador e cumulativo construiu fortunas, ergueu monstruosidades em condomínios fechados e bairros nobres, espalhou iates em praias antes preservadas e SUVs em ruas diminutas e esburacadas. 

A história do desenvolvimento econômico até aqui é a história do exagero. Os ciclos de prosperidade, como o ciclo do pau-brasil, da borracha, do ouro e, agora, do petróleo, deixaram para trás não apenas monumentos ao mau gosto e à ostentação, mas também rastros de destruição, miséria e devastação. Bebemos tudo até a última gota porque sabíamos que os recursos eram escassos. Desviamos cursos de rios, criamos cisternas próprias, e demos de ombro para quem não tinha copo d'água para beber.

Hoje essa corrida predatória parece estar em xeque. Ou menos atrativa. O desafio atual é manter os recursos de pé porque já não ignoramos os riscos de um colapso. Não por acaso, a palavra sustentabilidade, incomum há 20 ou 30 anos, ganhou primeiro plano. A ciência que ontem nos dividia em baias de reino, filo, classe, ordem, família, gênero, espécie (e raça) avançou de tal modo que hoje é preciso ser uma aberração humana e moral para ignorar as ideias de causa, efeito, interdependência. A ciência que espalhava estradas, incêndios e crateras hoje nos fala das dores universais. Prova que até os seres invertebrados sentem. Reconhecer-se humano se tornou um exercício de respeito à dor, inclusive de quem nos sacia a fome. Sabemos dos caminhos da carne até nosso prato, e muitos reagem à ideia de se alimentar às custas do confinamento, do pasto, de gases poluentes e da água para arrastar o sangue.

O meio ambiente, portanto, é hoje analisado não apenas como uma questão de gosto, mas de sobrevivência. Isso tem a ver com uma noção mais sofisticada de uso e respeito de espaço – uma noção cada vez mais associada a direitos. “Gente quer respirar ar pelo nariz”, dizia a música de Caetano Veloso. Parece um detalhe, mas ali reside o todo.

Da mesma forma que o escravismo caiu por terra por um imperativo econômico, e entrou para a história como uma atrocidade moral, hoje é ou deveria ser inconcebível que um jovem chegue à idade adulta sem direitos básicos de consumo e bem-estar: escola, vestuário, moradia, acesso a informações, alimentação saudável, etc. Por ser exclusivista, o modelo concentrador e predatório é permanentemente contestado - que o diga Thomas Piketty, autor de O Capital no Século XXI

Em outras palavras: o sujeito contemporâneo sabe, ou deveria saber, que outros, além dele, têm direito a um padrão mínimo de consumo. Isso significa mais gente para tomar água, acender a lâmpada, comer, estudar, se divertir. Respirar ar pelo nariz, portanto. Para evitar um colapso humano e ambiental, aceitamos mudar os nossos padrões de consumo para que outros possam participar. Contestamos, assim, modelos de consumo consagrados em uma época na qual ter acesso a direitos era ter acesso a um privilegio. Não é mais. Ou não deveria ser.

Pois o desafio agora é viver mais com menos. É não morrer entupido de bens antes que o mundo acabe. A ideia de bens coletivos ganha forma nessa virada. Por isso exigimos transparência de quem nos presta serviços públicos ou privados. Queremos notícia mais séria sobre a descoberta da antimatéria e suas implicações. Mas também queremos saber os níveis de sódio e quantas colheres de açúcar nos vendem em latas de refrigerante. Queremos saber, e sabemos, que não precisamos de tanta gordura trans, milho, soja e proteína animal para passar o dia. Queremos o necessário. Por isso, para o sujeito contemporâneo, o acúmulo não parece fazer sentido. Mas faz sentido trocar o automóvel que mais parece uma banheira engolidora de gasolina pela bicicleta. E as prateleiras tomadas de tralhas por microchips e nuvens compartilhadas.

Afinal, de que vale apodrecer na claustrofobia dos muros superprotegidos se é na rua que está a vida? De que adianta nossa ambição cumulativa se ela nos leva ao medo e à paralisia? Se ela nos leva a viver, como em outra música, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar?

A vida pode ser mais do que isso. É possível ser mais com menos, e é isso o que aprendemos cada vez mais cedo com quem já nasceu em outro conceito de espaço e expansão. Essa transição ainda levará anos, e a reação de quem cai atirando contra a expansão desses direitos nos ofusca um certo otimismo: num mundo que pede cada vez mais transparência e contenção, quem constrói castelos nos próprios porões está fadado à ruína. 

Fora do discurso oficial, já não admiramos o sujeito que acende charuto com nota de cem e faz estardalhaço com aberrações habitacionais ou motorizadas nos espaços públicos. Pelo contrário. Aos poucos, começamos a admirar o sujeito que faz muito com pouco. Que vai e volta para casa sem agredir nada nem ninguém. Os demais explodirão empanturrados.


Foto: Cena do filme Monty Python e o Sentido da Vida

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