Whiplash: a perfeição é arbitrária

Matheus Pichonelli

Charlie Parker só se tornou o Yardbird depois que outro mito do jazz, Jo Jones, arremessou um prato em sua cabeça para incentivá-lo a tocar direito. Humilhado, Parker treinou e treinou até superar o trauma e atingir o ápice. A história é narrada de forma recorrente por Terence Fletcher, personagem de J. K. Simmons em Whiplash– Em Busca da Perfeição, azarão entre os indicados ao Oscar de melhor filme no domingo, e provavelmente o que mais tenha a nos dizer sobre o mundo (competitivo) atual. O drama, dirigido por Damien Chazelle, mostra a trajetória de um jovem baterista, Andrew Neiman (Miles Telle), para alcançar este ápice na melhor banda de jazz do melhor conservatório dos EUA. Para isso tem como aliado - ou inimigo - o temido professor Fletcher, e a temível sombra de Parker, que morreu consumido pelo álcool e pelas drogas aos 35 anos, e outros antecessores que chegaram ao auge em sacrifício da própria vida.

Há, no filme, uma tensão constante entre aluno e professor, líder e liderado, aspirante e referência. Essa tensão se desenvolve em uma fronteira confusa entre o melindre e a ofensa, o incentivo e a chacota, a dureza e a opressão, a seriedade e o absurdo. Esse limite de bordas invisíveis tem nome: caráter. Em Whiplash, nunca sabemos se o professor sonha ou teme ser superado. Seus métodos de ensino são abjetos: para atingir a perfeição, ele estimula a competição entre os músicos de sua banda na base do assédio moral. Em uma das cenas, ele pede para uma menina fazer um solo em clarinete para descobrir se ela está lá apenas pelo rosto bonito ou por talento. No primeiro sopro ele a interrompe e sentencia: “sim, é só porque você é bonita”.

Instigados pelo professor, os estudantes escolhidos a dedo para compor a banda trucidam qualquer sinal de solidariedade entre eles. Só assim atingem o resultado além do esperado: a gentileza com o outro pode dar margem para confiança; e a confiança pode ser fatal para a manutenção de um espaço cativo. A consequência é a angustia, o pânico, a apreensão, a sociopatia, a incapacidade de agir e pensar além do voo solo. Na definição do roteirista Henrique Melhado, um amigo entendido no assunto, Fletcher é talvez o maior vilão do cinema em muito tempo. Essa é a boa noticia para quem, antes da premiação de domingo, procura um grande filme para curar a letargia pós-Carnaval. A má noticia é que Fletcher está por toda parte.

Ao fim da sessão, me lembrei de quantas vezes me deparei, na vida profissional, com métodos e técnicas semelhantes de recrutamento. “Você está aqui por algum motivo”, diz o dono do feudo enquanto enfia a bomba de ego insuflado no talento recém-ingresso. Em seguida vêm os pontapés, as perguntas sobre “você quer me foder?” ou sobre “o que você vai fazer quando desistir e ninguém se lembrar mais de você?”. Depois, o incentivo à delação: os olhos fixos em cada um da equipe ao menor erro e a intimação: “quero saber quem foi”. Perdi as contas de quantos amigos sobreviveram ao inferno profissional com crises de choro no banheiro, remédios para a insônia, álcool e nicotina para a ansiedade. Alguns se apegaram aos prêmios de desempenho individual para seguir adiante. Outros relaxaram. Outros simplesmente desistiram - e decidiram ser esquecidos pela História em paz.

Fletcher está nas melhores empresas, nas melhores escolas, nas melhores famílias, e basta notar o nível de apreensão no período pré-vestibular para saber que eles são muitos. Por trás de toda catástrofe está o medo latente e insuflado de falhar. Esse pânico é capaz de forjar todos os heróis e dar início a todas as guerras. Pobres heróis. Para Fletcher, duas únicas palavras bastam para matar qualquer talento no nascedouro: “bom trabalho”. Se tivesse ouvido essa frase em vez de ser achincalhado pelo mestre Jo Jones, conclui o personagem, Parker jamais teria se tornado Bird.

A lógica parece mover todas as narrativas do mito do homem moderno: aquele que tropeça e se levanta, que não desiste nunca, que é determinado e obcecado pelos próprios objetivos. Nessa narrativa, louvamos as histórias de superação pessoais - e não coletivas. Louvamos o sujeito que chega ao pico da montanha sem ajuda dos balões de oxigênio. Louvamos os limites do corpo. Louvamos o drible, e não o passe a gol. Louvamos a estrela e não o elenco. A métrica de todo o sucesso, porém, não contabiliza os gênios que morreram anônimos e apavorados – e esse é o nó de todo o filme.

Pois eu, que não sou besta pra tirar onda de herói, agradeço e me agarro a cada “bom trabalho” recebido quando estou prestes a desistir. E me lembro de todas as vezes que, para dar conta de uma apuração mais delicada, fui procurado ou procurei ajuda – para assinar a mesma reportagem a dois, a três, a quatro. No fim, o que levamos do trabalho é a construção coletiva da solidariedade. Em uma das cenas Neiman sangra de tanto tocar – e de tanto tocar não só para atingir a perfeição, mas para não perder seu disputado espaço para qualquer novato. Em certo momento, deixa a baqueta ensanguentada cair no meio de uma apresentação – e ficamos angustiados por saber que ninguém se abaixaria para pegá-la. É o risco do voo solo catapultado na base da cotovelada.

Isso me leva a questionar se a formula da educação pela pedra ilustrada no filme não está com os dias contados na vida real. Um dos sinais pode ser a forma melancólica como a seleção brasileira foi atropelada na última Copa. Antes da partida contra a Alemanha, víamos os jogadores da equipe, convencidos de que estávamos em guerra contra os povos visitantes, distribuírem coices e xingamentos entre si e aos adversários após chorarem alucinados na hora do hino. O choro do capitão Thiago Silva na hora dos pênaltis contra o Chile era o choro de uma geração angustiada, travada, emocionalmente condenada – coincidência ou não, uma geração supostamente domesticada por um “paizão”. Pudera: enquanto davam o melhor de si em campo, o técnico campeão do mundo - que hoje abandona a partida quando contrariado - concedia entrevista coletiva para dizer que se arrependera de ter convocado um entre eles. Quem era? Não importa: o estrago estava feito. (No Palmeiras era pior: ele chegou a reclamar em público da qualidade técnica de seus comandados).

Do outro lado víamos os alemães relaxados em trajes de banho numa praia paradisíaca entre gentilezas no Twitter e abraços aos funcionários de uma pousada na Bahia. O resultado do jogo mostra que nem sempre a estratégia do pânico é a melhor estratégia; na maioria das vezes o melhor é relaxar, e isso explica porque, em contraponto aos exemplos do filme, temos na cabeça a imagem de Pelé quando pensamos em genialidade. Pelé, por mais que se esforçasse para apurar a técnica, era no fundo uma criança com seu brinquedo favorito. Só uma criança que não tem ideia dos próprios medos e dos perigos do mundo pode aplicar, aos 17 anos, um chapéu dentro da área em plena final da Copa de 58. Esse elemento lúdico da disputa precede qualquer conquista - e se o futebol se tornou uma formula geométrica em desencanto é porque, graças aos Fletcher da bola, desaprendemos a dar espaço para a criação. (Ou alguém diria que Pelé só se tornou Pelé graças à exigência ao martírio de algum treinador?)

O mesmo se dá na política. Em uma reportagem recente publicada na revista piauí, os três últimos presidentes são definidos a partir de suas obsessões. Fernando Henrique Cardoso queria ser admirado, Lula queria ser amado, e Dilma quer ser temida. A definição coincide com os relatos de subordinados intimidados e angustiados ao se expor ao erro e ao acerto nas reuniões presidenciais. O ato falho é quase sempre revelado nas aplicações de um pronome possessivo durante os pronunciamentos: o “meu” governo.

Num caso como no outro, o que está em jogo, e isso parece exposto ao longo do filme, é que o mundo atual não comporta determinadas estruturas de comando - seja nas empresas, seja no ambiente político. Como lembrou o psicanalista Jorge Forbes em uma palestra recente, a ordem contemporânea tende a eliminar  da vida pública e privadas os líderes empedernidos nas próprias convicções, que mandam e não delegam, que são moralistas e não relativizam, que padronizam e atribuem notas, que centralizam e hierarquizam.

De acordo com os especialistas, para sobreviver a esses tempos incertos e de verdades relativas será preciso cada vez mais saber compartilhar decisões e conviver com os limites, as diferenças e as ambiguidades humanas. Esses serão o terreno propício do talento. A pressão e o terror, como mostra o filme de Damien Chazelle, podem até motivar a obsessão e nos levar a um desempenho individual parecido com a perfeição; mas ela, em si, não forja caráter. O risco é nos transformarmos em máquinas em benefício de nossas próprias metas.