Mente Aberta
  • Vou pular a discussão de quem é o melhor: livro de papel ou eletrônico? É claro que essa questão é interessante. Até inteligente. Mas prefiro falar da leitura independentemente do seu suporte. Então narro algumas graças que a leitura me deu por toda a vida. Também já escrevi em postagens anteriores, e não me furto a escrever novamente, que o prazer de ler nada tem a ver com se preparar para o vestibular, ou prestar concurso para  emprego. Ler literatura não garante ascensão para ninguém. Fosse verdade que a leitura ajudasse, escritores, redatores, jornalistas, revisores, editores, professores estariam magnificamente valorizados no mercado de trabalho.

    Nunca li literatura acreditando que ela seria um caminho para o dinheiro. Li por desfrute. Li para conhecer novas paisagens, culturas diferentes, modos de vida do passado, fantasias de futuro. Também para sonhar e me emocionar. Leio porque aprendo com a amizade entre um esquimó e seu cachorro cego. Aprendo com uma personagem da remota

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  • Íamos pela avenida Dr. Arnaldo, incrivelmente livre de trânsito, quando minha irmã Cláudia soltou a frase que inspirou o presente texto. Falávamos sobre quais tópicos do cotidiano e comportamento merecem ser debatidos. Então, ela pontuou: Política, por exemplo. Se não se discute política, é a guerra. Adorei a frase, pois é isso mesmo. Política é coisa pública, algo que - queiramos ou não - interfere diretamente sobre o preço do pãozinho e a subjetividade de cada um. Ninguém está imune a ela. Com consciência, sem consciência, gostando, detestando, a política está em toda parte.

    Algumas pessoas pensam que política é manifestação do cálculo e da razão. Mas eu também acho que política tem muitíssimo a ver com emoções. Amigos deixam de ser amigos, mulheres rompem com maridos, filhos brigam com pais por conta de crenças e posições ideológicas! É como se, mesmo discordando, eu tolerasse tudo o que uma amiga pensa de si mesma, mas quando ela fala da coletividade, do país, eu quero que o

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  • Bastidores

    Na infância, a maioria das crianças quer comandar. Ser o piloto do avião, o motorista do trator, o dono da bola, a primeira bailarina, o primeiro violino. Protagonizar soa tão natural quanto o molhado da água. Mas infância é chuva de verão. Verdade que, efêmera nos anos, é eterna na memória e na imaginação. 1, 2, 3 viramos adultos. Daí constatamos que a maior parte dos ofícios, serviços, contribuições está por trás dos panos, nos bastidores. No fundo do palco e nas laterais, uma legião dedicada irá garantir a reflexão e o entretenimento da plateia.

    Quem primeiro morre nas guerras? Os soldados e os civis. Generais, governantes, embaixadores costumam se safar. Eles aparecem justificando carnificinas embaixo da luz dos refletores. Nos tempos de paz, a lógica é parecida. Muita gente conhece as biografias de Balzac, Joyce, Amado, Lispector. Mas, excetuando familiares e amigos, o público pouco ou nada sabe dos gráficos, revisores, livreiros que garantiram que Ilusões Perdidas, Ulisses, Dona

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  • Repaginar

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    Não acredito que a gente tenha chances infinitas de corrigir a rota para alcançar o porto que queremos. Por toda vida, talvez tenhamos duas ou três oportunidades para acertar o alvo. Aqui me refiro a oportunidades internas - aquelas que nós mesmos nos damos. Nos últimos tempos, muita gente escreveu que devemos abandonar o emprego quando estamos infelizes com ele. Chegar para o chefe, dar uma banana, encher a boca e saltar o sonoro: fui!

    Mas, vida como ela é, nem sempre é possível abandonar o lugar onde se ganha o pão com manteiga, o tênis para caminhadas, a mensalidade da escola do filho. Segue lista! Não existe vida sem contas a pagar. Nem empregos sem sapos a engolir. Alguns autores, majoritariamente americanos, ganharam bastante grana vendendo livros nos encorajando a fugir de empregos chatos, burocráticos, repetitivos. Autores que perceberam que 90% da humanidade gostaria de trabalhar em postos estimulantes, criativos, abertos. No entanto, a maior parte dos trabalhadores do mundo

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  • Apareça

    Depois que virei blogueira, tem gente que volta e meia me manda mensagens dizendo: Sempre gostei de escrever, mas não mostro pra ninguém. Minha observação padrão - não por preguiça, mas por convicção - tem sido: Comece um blog e persista. Use seu Facebook, Twitter, Linkedin para postar suas palavras. Compartilhe o que você considera original, útil, sensível. Mas ando reparando que minha dica não faz sucesso. Ao contrário, recebo tréplicas avisando: Ainda não estou preparada, ou preparado. O assunto termina aí.

    Mas não acaba nesta crônica. Penso que nunca estamos verdadeiramente preparados. Fosse assim ninguém teria medo de morrer, uma vez que temos uma vida inteira para nos preparar. Quem posta, arrisca. Haverá quem goste e quem desgoste. A maioria nem irá ler o que você escreveu. É do jogo: você não escreve para todo mundo, você o faz para leitores que estão a fim de roubar algum tempo do próprio tempo para ler o seu recado. Constância, relevância, pontualidade também ajudam a formar

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  • Meu pai foi obcecado pela organização. Tanto das gavetas de armários, quanto das reivindicações políticas. Aos sete anos, órfão de pai, ele ingressou em regime de internato no Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde a pedagogia era a disciplina. Ao se tornar trabalhador, meu pai ajudou a fundar um sindicato. Porque ele acreditava que para conseguir qualquer coisa era preciso se organizar. Afirmava que o poder individual era ínfimo se comparado com a eficácia do coletivo. Ele também foi um homem de partidos. Adepto de assembleias, votações, fidelidade ideológica, consciência de classe. Eu e ele fomos companheiros em muitos pensamentos, mas sempre achei que papai subestimava a força e o brilho do indivíduo.

    Outra discordância tínhamos em relação à luta geral e à particular. Para ele: resolvida a injustiça social e as desigualdades econômicas, todas as outras injustiças e desigualdades se resolveriam de baciada. Hoje percebemos que não é bem assim. Mulheres, negros, gays, pessoas com

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  • Passageiros

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    Resignados ou revoltados somos prisioneiros do nosso tempo. Filhas e filhos de uma época. Ah, também somos pais. Depois avós de uma determinada fatia cronológica. Eu, por exemplo, por mais que curta os anos 2000, sou cria do século 20. Minha juventude e as importantes descobertas - boas e más -  estão lá. É evidente que estou viva aqui e agora, na frente de várias telinhas, reverenciando a internet, o smartphone, as redes sociais. Mas não esqueço das minhas raízes: a máquina de escrever, o telefone fixo, a biblioteca, os correios e telégrafos. Também recordo que nasci antes de Brasília.

    Mas se a época é território, a imaginação é asa. Com esta última posso ir para trás e para frente. Uma amiga me contou que adora tudo que diz respeito aos anos 1920: o jazz, o modernismo brasileiro, os bibis dos calhambeques, a paz entre duas grandes guerras. Há outros fanáticos pelos anos 1960 (eu me incluo). Década das rebeliões estudantis, da literatura e cinema experimentais, da massificação da

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  • A primeira vez que tive consciência de um passado consistente foi no dia seguinte ao meu aniversário de 10 anos. A revelação se deu dentro do lotação Usina-Muda, na Tijuca carioca. Enquanto o ônibus corria pela rua Conde de Bonfim, eu não parava de me espantar com a incrível marca de uma década de vida. Já tinha elementos para preencher uma lista gorda, dividida em duas colunas. À esquerda os bons acontecimentos, à direita as coisas chatas. Minha escola figurava no topo da chatice, pois ela me pressionava a fazer tudo certo. Na verdura dos 10 anos, intuía que o erro era metade de todas as coisas.

    Mas então a relevância do erro era apenas sensação e um bocado de solidão. Passariam décadas para que a intuição de que o erro ensina mais do que o acerto se tornasse conhecimento consolidado. Dois escritores me ajudaram nisso. Oswald de Andrade quando festejou a contribuição milionária de todos os erros no seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, e o múltiplo Paulo Leminski ao escrever: Herrar é

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  • A primeira lembrança que tenho da capital do Paraná são casinhas de madeira e esparsas araucárias. Depois, por acaso e graça, Curitiba se tornou minha capital literária. Do mesmo jeitinho que Paris inspirou tantos outros escribas. Ainda bem jovem, li Dalton Trevisan. O estiloso vampiro acertou minha jugular com sua prosa curta, nervosa, inclemente. Também bebi na novidade e qualidade do jornal literário Nicolau. Mas quem carimbou minha passagem na nau curitibana foi o polaco-índio-zen Paulo Leminski. O autor do hai-kai brasileiríssimo: Para que cara feia?/ na vida / ninguém paga meia. Não paga mesmo. A vida gosta de cobrar ingressos inteiros. Inclusive, com valor bem acima da inflação.

    Me tornei roteirista de vídeo em Curitiba. A tarefa foi roteirizar histórias sobre as riquezas naturais do Paraná: madeira, mate, café. Para a aprovação desses roteiros, viajava para Curitiba e dormia em um pequeno hotel no centro da cidade. Transitava sozinha pelo calçadão, Passeio Público, cafeterias.

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  • Barco no rio / Imagem: Régine Ferrandis

    A primeira vez que viajei para a Europa, eu tinha 39 anos. Como se dizia na época, minha cabeça “estava feita”. O que foi uma pena. Gostaria que a inspirada estética europeia  - de seus parques, museus, casarios, histórias - tivesse influenciado meus anos de formação. Mas outro pedaço do mundo cumpriu essa função. Foi na Colômbia, aos vinte e poucos anos, que inaugurei minha saída ao exterior. Logo depois, mochila nas costas, foi a vez da Bolívia, Equador e do maravilhoso Peru, com os encantadores Cusco e Machu Picchu.

    Para todos esses lugares, retornei. Mas nunca senti o impacto da primeira visita. É claro que isso faz parte da natureza humana. Por isso a memória valoriza os primeiros: filho, beijo, carro, palco, anestesia geral, passeata, sexo bom. O contrário sucede com o rotineiro. Trilhar sempre o mesmo caminho pode nos dar conforto, segurança, mas também instaura o tédio. Daí a inquietante ambivalência em optar pelo sabido ou pelo desconhecido. Escolher entre o embarque

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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