Mente Aberta
  • Não vou entrar no bate-boca de que pichação é do mal e grafitagem é do bem. No limite, as duas são expressões legítimas. Claro que os olhos vêm sujeira na pichação e arte na grafitagem. Existe uma rua na Vila Madalena que é colírio para quem passa, galeria sem teto com grafites otimamente desenhados e coloridíssimos. Já os garranchos dos pichadores são em preto e branco e, em geral, aplicados nos muros de residências e lojas dos outros. Também, evidente, há no gesto de pichar tintas de revolta social.

    Pichar ou grafitar muros e paredes retorna a tempos quase impossíveis para a imaginação. Muito antes de nós, as pessoas desenhavam no interior de cavernas e em rochas pelos caminhos. Elas usavam carvão e outros minerais no lugar das latinhas de spray e látex. Hoje nossos olhos se encantam com a chamada pintura rupestre, estampada em sítios arqueológicos por todo o mundo. É um prazer atentar para as cenas gravadas e lançar hipóteses de crenças, diversões, trabalhos, modos de vida e de

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  • Muito antes dos iPods e similares colados nos ouvidinhos, houve os rádios de tomada e depois de pilha. Pelo Brasil profundo eles ainda resistem, apesar do assombroso avanço dos smartphones. Mas bem mais interessante do que o aparelho em si, é viajar para atrás no relógio e encontrar a importância do rádio antes que a televisão roubasse as salas e as atenções. O rádio, nos anos 1940 / 1950, funcionou como uma espécie de internet 1.0. Um portal de notícias, atrações e sonhos.

    Por exemplo, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro (PRE-8) teve de tudo: música, notícia, campanha, humor, radionovela, propaganda, esporte. Programas de auditório num teatro de 486 lugares. Orquestra própria, sob a batuta de Radamés Gnattali e outros de 24 quilates. O veículo foi tão popular que essas duas décadas ficariam conhecidas como a Era do Rádio. A Nacional funcionava no edifício A Noite, na Praça Mauá, zona portuária do Rio. Rádio de longo alcance, suas ondas espalhavam a programação para grande parte do

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  • 1 De dentro da gente:

    Quanto mais vivemos, mais histórias para contar. O experimentado vira narrativas de confusões engraçadas, brabas decepções, amores que rolaram, amores que emperraram. Mas envelhecer em si não é garantia de texto bom. Grisalhos têm que abrir a mente para o frescor da linguagem, para os novos canais e as diferentes formas. Eu, por exemplo, comecei escrevendo comprido, seguindo a tradição dos textos longos, candidatos a publicações. Agora escrevo curto para que o leitor, do ambiente digital, me leia numa só tacada.

    2 De dentro dos livros:

    Escritores precisam ler. Essa verdade não foi revogada. É lendo outros autores que formamos o capital literário. A bagagem, o tesouro dourado. Ler não para copiar, mas para aumentar o repertório. Quanto maior ele for, mais associações podemos fazer. O cérebro funciona juntando ideias, mesmo as disparatadas. Daí, leia tudo o que cair nas suas mãos, sob os seus olhos. É fato: com a prática você vai criando filtros. Ficando com os

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  • O israelense Yuval Noah Harari, no seu best-seller Uma breve história da humanidade, arrisca que a diferença fundamental entre nós e os outros animais está na capacidade de imaginar. Escreve o autor: Só o Homo sapiens pode falar sobre coisas que não existem de fato e acreditar em meia dúzia de coisas impossíveis antes do café da manhã. Ou seja, nós não marcamos espaços tão bem como os leões e os cachorrinhos. Não temos a habilidade sonora de baleias e golfinhos. Não voamos como os pássaros, nem abocanhamos como os tubarões. Imaginar é a ferramenta dos sapiens por excelência. É ela quem cria todas as outras.

    John Lennon (1940-1980) compôs o hino pop da imaginação, o Imagine, cujo refrão diz: Você pode dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único. Espero que um dia você junte-se a nós. E o mundo viverá como um só. É claro que a vida real, muitas vezes, imprime seu pesadelo. O autor de imagine um mundo de paz foi assasinado quando chegava em seu apartamento em Nova York. O atirador

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  • Mar Amar

    Pezinhos na areia fofa e molhada de água salgada das pequenas ondas. Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, anos 1960. Não tinha shopping, não tinha vitrine de big prédios residenciais. Havia dunas de areia, vento forte, minha avó Affonsina e o mar. Ele que eu percebia pela primeira vez. Ele que me acompanharia por toda vida. Primeiros registros - como sacou o publicitário Washington Olivetto - são o primeiro sutiã, aquele que a gente nunca esquece. Portanto lembrei do mar da infância quando, aos 40 anos, visitei o Cabo de São Vicente, no Algarve português. Que tontura! Olhar o mar a partir do Cabo é se debruçar para o infinito de água e sal, para as lágrimas e os depois. Portugal cheira a sardinhas, a perceves, a conquistas.

    Quer morrer no mar, mas o mar secou, o poeta Carlos Drummond diz ao José, sujeito que não sabe mais o que fazer, nem para onde ir. Mas, meu poeta querido, o mar nunca seca. Secam os rios, os chãos, as bocas. Até o amor seca. Já o mar é planeta molhado. Se um dia secar,

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  • Mesmo que pareça ter sido em outra vida, até hoje não me conformo com a minha escola carioca ter ido ao chão dando lugar a uma loja de departamentos. O Instituo Lafayette feminino ocupava um belo casarão com janelões e árvores frondosas. Ele ornava um dos quarteirões da rua Conde do Bonfim. Antes de ser minha escola, o casarão abrigou o Clube Tijuca e antes ainda serviu de moradia para o Duque de Caxias, aquele que disse: Quem for brasileiro que me siga. Mas não é isso que conta. O que dói em mim é a falta do edifício na paisagem. Quando passo em frente de sua ausência, minha memória dá um tilt. Ou, em bom português, entra em parafuso.

    Estudante da USP, no final dos anos 1970, morei numa república na rua Eliseu de Almeida, no bairro da Previdência. Em frente a nossa alegre e bagunçada casa passava o córrego Pirajussara. Um dia chegaram operários e máquinas. Canalizaram o rio. Com a obra, foram embora arbustos, sapos, passarinhos e passagens da minha juventude. A atual Eliseu de

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  • Talentar

    Aliás o escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) - possuidor de talento em alto grau - cunhou a frase: Talento é uma larga paciência. Ele deixou explicadinha a conexão entre talento e tempo de maturação. Tem outra imagem: talento como diamante bruto, esperando pelo esforço da lapidação. Também há os que creem - me incluo entre eles - que todo ser nasce com algum talento, mesmo que não saiba. Até os cachorrinhos.

    Apesar de muito requerido nas artes e na literatura, o talento - ao lado da criatividade - está presente em todos os ofícios. Aprendi isso observando meu irmão, Júlio, dirigir carros. Ele acelera, troca marchas, freia com suavidade de quem carrega, sem deixar cair, um bolo de noiva na cabeça. Além da admiração, incapaz de imitá-lo, morro de inveja.

    Existem talentos condenados à invisibilidade: tirar café expresso, virar da forma o pudim no prato, aparar flores. Outros, devido à raridade, são valorizados nos casamentos, famílias, trabalhos e escolas. Por exemplo: o

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  • O facebook tem algumas postagens recorrentes, protovirais. Em uma delas lemos: Toda vez que uma criança come miojo, uma estrelinha morre. Sei que macarrões instantâneos vêm com aquele pozinho mais suspeito do que olhar de cachorro para picanha na brasa. O miojo é ruim mesmo. Mas daí a matar uma estrelinha há montanhas de distância.

    Nas redes sociais e nas ruas, há muitas afirmações com pretensão de verdade absoluta. Quando nenhuma pedra é só pedra, nem a água é só água. Tem pedra falsa, tem pedra mole, tem pedra de rim. Água suja, água misturada com areia, água de joelho. Os extremos sempre flertam com as mentiras. Eles gostam de hipnotizar para nos ganhar e enganar.  

    No mundo lúdico, temos o exemplo dos dois bois em Parintins, na Amazônia. O vermelho Garantido e o azul Caprichoso. São rivais no bumbódromo e no imaginário. Os adeptos de um boi nem sequer dizem o nome do outro, se referem ao “o contrário”. Mas na vida real, há casais onde a mulher é Caprichoso e o marido, Garantido.

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  • Nunca escrevo palavrões, apesar de falar. Não escrevo porque crônicas não pedem. Elas têm costume de frases suaves, sem grandes trancos para o leitor. Mas se redigisse diálogos para teatro ou cinema, certamente usaria palavrões, pois são comuns na linguagem cotidiana. Quem não perpetra palavrões quando tem o carro fechado por outro, quando vestida de branco recebe um banho de poça d’água?

    O oposto deles são as palavrinhas. Geralmente no diminutivo. Beijinho, sonequinha, bochechinha, brinquinho, dentinho. Não à toa há algo infantil nelas. Familiar também. Na casa da minha mãe, eu sou Nandinha, jamais  Fernanda. A mania é tamanha que, na maioria das vezes, o diminutivo aumenta o próprio nome. Verinha para Vera, Dioguinho para Diogo, Maracanãzinho para Maracanã. Caprichos da língua falada que, devagarinho, vão tomando assento na língua escrita.

    Comecei esta crônica pensando em trabalhar outro assunto e me distraí um pouco. Mas retomo o prumo. Faz tempo, observo o sufoco de escrever sob

    Leia mais »from Modos de usar
  • O primeiro livro que li sozinha, de cabo a rabo, foi presente da minha saudosa tia Suzete. Ganhei no meu aniversário de oito anos. Chamava-se Memórias de um Burro. Escrito por uma condessa russa, a de Ségur (1799-1847). O enredo é universal: cansado de carregar cargas e ser maltratado, o burrico foge para uma vida plena de liberdade e aventuras. O que conto e o que conta: a partir do Memórias de um Burro me apaixonei pela leitura. Finalmente encontrei nos livros minha brincadeira perfeita. Eu não precisava negociar com ninguém o que e como me divertir. Ler me tornava autossuficiente.

    E claro, houve a mãozinha do meu pai. Leitor inveterado, tarado por jornais e livros, ele me estimulava a ler o quanto quisesse. Na minha adolescência, papai - apaixonado pela União Soviética - inundou meus olhos e sentidos com escritores russos do século 19. Safra talentosa de Dostoiévski, Tolstói, Gogol e cia. Também o americano Ernest Hemingway, autor de O Velho e o Mar. Meu pai gostava dele, porque

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(288 histórias)

Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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