Mente Aberta
  • Imagem: Régine Ferrandis

    Esta madrugada, bulindo com o meus botões, me perguntei qual seria o símbolo da criatividade exercida em sentido amplo. Não apenas na arte e na publicidade. Criatividade na cozinha, no canteiro de obras, no balcão da padaria, na mesa de cirurgia, na defesa ou ataque do time de futebol.

    Nada me desconvence que nascemos todos criativos. Ao extremo. Só que depois algumas famílias, algumas escolas, algumas comunidades sufocam o gesto, o traço, o grito, o labor. Ou ao contrário, somos permanentemente encorajados a fazer as coisas de forma criativa. O estímulo que nos excita ao ouvirmos: Vá em frente. Não pare. Mergulhe. Chegue até o final.

    Mas qual seria o símbolo da criatividade. Meu palpite: o fio. De barbante, de plástico duro, de tinta, de byte, de tricô, do diabo a quatro. É o fio que  puxamos da velha memória e trazemos até um jardim ou inferno do  presente. Fios que desenrolamos, enrolamos, desenrolamos. Guia da trama, guia da mãe de santo, da equação matemática, da rua. Fio da

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  • Telefone (Imagem: Régine Ferrandis)

    Nos habituamos a chamar de nativo digital o pessoal que nasceu depois da internet. No Brasil, em escala comercial, o diálogo entre computadores surgiu em 1995. Com os smartphones e tablets, a partir de 2007, foi a vez dos nativos polegares: bebês que pressionam o polegar na tela enquanto sugam o peito da mãe. Mas, de certa maneira, todos somos nativos de alguma tecnologia. Minha geração, por exemplo, foi nativa da televisão - desembarcada no país em 1950. No disco rígido da memória, não retenho nenhuma sala de estar sem TV. É claro, elas eram de tubo, preto e branco, com BD - baixa definição. Mas a garotada se amarrava. Olhos vidrados no Nacional Kid, Vigilante Rodoviário, Almoço com as Estrelas. Do mesmo jeito que os pequenos de agora, queríamos ação, emoção, ilusão. Três palavrinhas que, desde a Idade da Pedra, têm os humanos como nativos.

    Meus pais nascidos na década de 1930 foram nativos da energia elétrica. Cresceram acendendo interruptores e levando alguns choques ao enfiarem o

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  • image

    O longa Birdman, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, levou 4 estatuetas Oscar. Melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor fotografia. Gostei da premiação, porque me comovi e me identifiquei com a personagem principal da história: um ator, diretor, dramaturgo que acredita profundamente naquilo que faz. Mesmo quando quase todos a sua volta duvidam do êxito de sua empreitada. Birdman, o homem-pássaro, insiste em bater asas até depois de ser enxovalhado e ameaçado por uma poderosa crítica teatral - personificada em uma loura gelada. Ela deixa claríssimo que o diretor e sua peça não passarão pelos portais da glória. Ele dá uma resposta emocionante (não conto pra não aguar o vinho de quem pretende ver o filme). Ao terminar de assistir, fiquei pensando que o que mais machuca a gente não é o não do inimigo, do estranho. O que mais fere é o não dos amigos, dos pares, dos próximos. Mesmo que seja em nome do querer bem, muitas vezes, a avaliação negativa mais

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  • Tiolândia

    imagem: Régine Ferrandis

    Não tive filhos, mas tenho dez sobrinhos. A maioria deles criados e donos dos seus narizes. Nunca perguntei se causei alguma influência na formação de cada um. Espero que sim. Fui em aniversários, presenteei. Soltei nos seus ouvidos três ou quatro conselhos de vida. Não me arrependo da arenga, pois tias e tios são conselheiros natos. Entre os conselhos, os recorrentes alertas: Dirija com cuidado, beba com moderação, desconfie do que vem muito fácil. Também elogiei a leitura e sempre falei bem dos livros para eles. A máxima que tentei: Seja o que você quiser, mas não sacaneie ninguém.

    É fato que não basta ser tia. Laços de sangue são elos fracos. O que conecta e importa é o relacionamento, igualzinho ao que sustenta as modernas redes sociais. Nem todos os tios merecem lembrança. Dos sete tios com quem convivi na infância, apenas três me influenciaram. Um porque era lúdico, contava estrelas e me ensinou a usar a bússola. Outra por manter os pés no chão e ser capaz de me dizer verdades

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  • A maioria de nós acredita que mudar é bom. Pois faz parte da dinâmica da própria vida. Somos uma sucessão de outros: a senhora é a outra da jovem que é a outra da menina. No entanto, tenho observado que a velocidade das mudanças varia. Sinto que mudamos antes que as pessoas a nossa volta percebam. Tanto que, algumas vezes, tenho que gritar: Mas eu mudei, não sou a mesma Fernanda que você conheceu!

    Tenho um amigo que foi designer gráfico por mais de 20 anos. Uma manhã, ele despertou com a decisão de se tornar um iluminador. Queria trocar as formas no papel pelas formas de luz e sombra. Estudou, estagiou, foi ao mercado. Já iluminou algumas peças teatrais. Mas o celular dele continua tocando com gente atrás do diagramador de livros. Outro dia, ele ouviu a seguinte explicação: “É mesmo! Você disse que mudou de ramo. Mas estou tão acostumado com você designer, que é difícil vê-lo como iluminador”.

    O que nos cega para o quanto o outro mudou é a mania de carimbarmos as pessoas. Fulano é

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  • Fuga do tema

    O plano era perfeito. Escrever sobre o Carnaval em pleno Carnaval. Oportuno e conectado com o momento. Comecei a pesquisa e veio o desânimo. Não pela falta, pelo excesso de informações. Mas segui na luta e fiquei sabendo que na origem o Carnaval se chamava entrudo. Festa trazida pelos colonizadores, que ao bater na nossa terra se dividiu entre as versões familiar e popular. Dá para imaginar que a primeira era comportada, já a segunda flertava com a irreverência e o ritmo africano. O entrudo popular foi abraçado, transformado, condimentado pelos escravos. Antecipando os versos de Martinho da Vila (Isabel): Batuque na cozinha / Sinhá não quer / Por causa do batuque / Eu queimei meu pé.

    Continuei a investigação. Nadei nas águas foliãs dos cordões, ranchos, blocos, corsos, escolas de samba. Também nos bem mais recentes trios elétricos, sambódromos, globelezas. Fui a campo conferir o bebê da folia: o Carnaval da Vila Madalena, em Sampa. Ele não tem samba, tamborim, cuíca, pierrô,

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  • Tudo passa?

    No último dez de fevereiro fez um ano e três meses que meu pai morreu. Do mesmo jeito que sempre comemorei a data de seu nascimento, é importante para mim lembrar do dia da sua morte. Como se fosse um dia só dele, por ter sido o fatal, o definitivo, o inexorável. Fico perguntando se isso acontece com outros órfãos, ou se talvez haja algo mórbido em não me permitir o esquecimento. Pois, sinceramente, eu não quero deslembrar dessa data.

    Até porque, no dez de cada mês, eu amanheço e permaneço diferente do que sou nos outros dias. Diria que me torno reflexiva, levo o pensamento mais grave às coisas do cotidiano, sinto meu olhar menos banal. Mergulho em uma espécie de anticarnaval, no qual pouca coisa me faz rir e nenhuma fantasia me veste. Uma experiência de estar mais próxima à verdade. Se a morte é a verdade, seria a vida a mentira? Creio que as duas têm o mesmo grau de autenticidade. A particularidade é que a primeira se circunscreve em uma data tangível, já a segunda se esparrama como

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  • A turma dos maduros, ao menos na idade, entende muitíssimo de portas. Principalmente daquelas duronas que insistem em não abrir. Não por ter faltado senhas, orações, murros, pé de cabra. Pois, na vida de todos, vários sonhos, projetos, boas intenções simplesmente não ultrapassam o umbral que os levariam a trilhar um corredor linear e iluminado. Sem pegar pesado com a memória, eu poderia facilmente confeccionar uma lista das 10 Portas que Nunca Abriram para Mim. A de ganhar dinheiro foi a principal delas.

    É fato que ser barrado por uma porta frustra, decepciona, deprime, enjoa. Faz com que projetos e desejos - acalentados e trabalhados - em vez de sairem à luz, sejam condenados à gavetinha escura. Para não dizer obscura. Aí fica impossível pular a fase do mea culpa, minha máxima culpa. E das consequentes perguntas: o que eu fiz de errado? sou tão ruim assim? a sorte se esqueceu de mim? Mas passado o choque, percebemos que até fizemos tudo correto, consideramos o contexto e seguimos o

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  • Aprender-te

    Eu tinha quinze anos quando a ditadura militar forçou meus pais a se mudarem do Rio para São Paulo. Naquele nascer dos anos 1970, nem se imaginava a internet e seus filhotes. Então era possível alguém trocar de cidade sem deixar muitos rastros. Assim, a família pegou um ônibus na Novo Rio e desembarcou na antiga Rodoviária de São Paulo, em frente à Estação Júlio Prestes, na região da Luz. De repente eu, carioquinha da gema, acostumada com a praia e a bossa nova, pisava na terra da garoa (sim, garoava sempre em São Paulo) e distante oitenta quilômetros do mar.

    Como bem poetou o baiano Caetano Veloso: E foste um difícil começo. Lembro-me adolescente caminhando na parte inicial da avenida Nove de Julho com lágrimas nos olhos, porque achava tudo medonhamente feio. Cadê o Pão de Açúcar? O verde da Tijuca? O Cristo Redentor? Cadê Copacabana, Estação Primeira de Mangueira, Aterro do Flamengo, Central do Brasil? Cadê o povo que falava alto nos coletivos, naquele jeito de conversar com

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  • Noel Rosa (1910-1937), poeta da carioca Vila Isabel e todas as vilas do Brasil, imortalizou os três apitos de uma fábrica de tecidos nos versos à amada operária: Mas você não sabe / Que enquanto você faz pano / Faço junto do piano / Estes versos pra você. O mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) pendurou o retrato de sua cidade natal numa página escrita em Copacabana: Tive ouro, tive gado, tive fazendas. / Hoje sou funcionário público. / Itabira é apenas uma fotografia na parede. / Mas como dói!

    A tijucana Cecília Meireles (1901-1964) olhou de frente, ou de esguelha, para o sentimento mais caro às pessoas de todos os quadrantes e trovejou: Liberdade - essa palavra / que o sonho humano alimenta: / que não há ninguém que explique, / e ninguém que não entenda! No além-mar, Fernando Pessoa (1888-1935) autopsicografou: O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente.

    Ao lado deles, todos no céu, Mario Quintana, Manuel

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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