Mente Aberta
  • Passageiros

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    Resignados ou revoltados somos prisioneiros do nosso tempo. Filhas e filhos de uma época. Ah, também somos pais. Depois avós de uma determinada fatia cronológica. Eu, por exemplo, por mais que curta os anos 2000, sou cria do século 20. Minha juventude e as importantes descobertas - boas e más -  estão lá. É evidente que estou viva aqui e agora, na frente de várias telinhas, reverenciando a internet, o smartphone, as redes sociais. Mas não esqueço das minhas raízes: a máquina de escrever, o telefone fixo, a biblioteca, os correios e telégrafos. Também recordo que nasci antes de Brasília.

    Mas se a época é território, a imaginação é asa. Com esta última posso ir para trás e para frente. Uma amiga me contou que adora tudo que diz respeito aos anos 1920: o jazz, o modernismo brasileiro, os bibis dos calhambeques, a paz entre duas grandes guerras. Há outros fanáticos pelos anos 1960 (eu me incluo). Década das rebeliões estudantis, da literatura e cinema experimentais, da massificação da

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  • A primeira vez que tive consciência de um passado consistente foi no dia seguinte ao meu aniversário de 10 anos. A revelação se deu dentro do lotação Usina-Muda, na Tijuca carioca. Enquanto o ônibus corria pela rua Conde de Bonfim, eu não parava de me espantar com a incrível marca de uma década de vida. Já tinha elementos para preencher uma lista gorda, dividida em duas colunas. À esquerda os bons acontecimentos, à direita as coisas chatas. Minha escola figurava no topo da chatice, pois ela me pressionava a fazer tudo certo. Na verdura dos 10 anos, intuía que o erro era metade de todas as coisas.

    Mas então a relevância do erro era apenas sensação e um bocado de solidão. Passariam décadas para que a intuição de que o erro ensina mais do que o acerto se tornasse conhecimento consolidado. Dois escritores me ajudaram nisso. Oswald de Andrade quando festejou a contribuição milionária de todos os erros no seu Manifesto da Poesia Pau-Brasil, e o múltiplo Paulo Leminski ao escrever: Herrar é

    Saiba mais »de Errar não tem idade
  • A primeira lembrança que tenho da capital do Paraná são casinhas de madeira e esparsas araucárias. Depois, por acaso e graça, Curitiba se tornou minha capital literária. Do mesmo jeitinho que Paris inspirou tantos outros escribas. Ainda bem jovem, li Dalton Trevisan. O estiloso vampiro acertou minha jugular com sua prosa curta, nervosa, inclemente. Também bebi na novidade e qualidade do jornal literário Nicolau. Mas quem carimbou minha passagem na nau curitibana foi o polaco-índio-zen Paulo Leminski. O autor do hai-kai brasileiríssimo: Para que cara feia?/ na vida / ninguém paga meia. Não paga mesmo. A vida gosta de cobrar ingressos inteiros. Inclusive, com valor bem acima da inflação.

    Me tornei roteirista de vídeo em Curitiba. A tarefa foi roteirizar histórias sobre as riquezas naturais do Paraná: madeira, mate, café. Para a aprovação desses roteiros, viajava para Curitiba e dormia em um pequeno hotel no centro da cidade. Transitava sozinha pelo calçadão, Passeio Público, cafeterias.

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  • Barco no rio / Imagem: Régine Ferrandis

    A primeira vez que viajei para a Europa, eu tinha 39 anos. Como se dizia na época, minha cabeça “estava feita”. O que foi uma pena. Gostaria que a inspirada estética europeia  - de seus parques, museus, casarios, histórias - tivesse influenciado meus anos de formação. Mas outro pedaço do mundo cumpriu essa função. Foi na Colômbia, aos vinte e poucos anos, que inaugurei minha saída ao exterior. Logo depois, mochila nas costas, foi a vez da Bolívia, Equador e do maravilhoso Peru, com os encantadores Cusco e Machu Picchu.

    Para todos esses lugares, retornei. Mas nunca senti o impacto da primeira visita. É claro que isso faz parte da natureza humana. Por isso a memória valoriza os primeiros: filho, beijo, carro, palco, anestesia geral, passeata, sexo bom. O contrário sucede com o rotineiro. Trilhar sempre o mesmo caminho pode nos dar conforto, segurança, mas também instaura o tédio. Daí a inquietante ambivalência em optar pelo sabido ou pelo desconhecido. Escolher entre o embarque

    Saiba mais »de Perto é muito longe
  • O título deste post é um verso do poema Resíduo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). É quase um lamento: Pouco ficou deste pó de que teu branco sapato se cobriu. Ficaram poucas roupas, poucos véus rotos, pouco, pouco, muito pouco. Parece a perplexidade que nos atinge em cheio com a morte de pessoas amadas. O medo que o correr do tempo nuble a memória do tom da voz, dos gestos, da maneira de andar, do desenho da risada. Como loucas e loucos vamos nos agarrando nas lembranças - boias salva-vidas na baía de cada um.

    Mas não apenas as recordações dos mortos fazem ranger o assoalho interior. Também há a memória dos vivos. Gente que por distância geográfica, mal-entendido, indiferença, ou até sem razão importante escapuliu da nossa vida. Desses também fica um pouco: a temperatura de um beijo, um abraço na esquina, uma frase marcante. O mesmo se dá com lugares. Experiência aguda eu tive ao descobrir que o Instituto Lafayette - onde fiz o ginásio - havia virado supermercado. Da escola

    Saiba mais »de De tudo fica um pouco
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    O que vou contar ocorreu em 1991. Meu sobrinho Igor completava 10 anos. Resolvi presenteá-lo com um voo panorâmico entre Sampa e Santos. Era um programa para a criançada organizado por uma agência de viagens. Chegando ao aeroporto de Congonhas, os pequenos foram recepcionados com alegria. E com sexismo. Para os meninos foram distribuídos quepes de pilotos. Para as meninas, chapeuzinhos de comissárias de bordo. A situação me fez lembrar a educação na minha infância. As garotas éramos treinadas a apoiar os garotos. No futuro: enfermeiras para médicos, secretárias para diretores, datilógrafas para escritores. Tal memória me deixou triste naquele dia alegre.

    É certo, passados meio século da minha infância e 24 anos do voo panorâmico, muita coisa mudou para melhor. As mulheres estão no mercado de trabalho e algumas em cargos públicos e de chefia. Mas a injustiça permanece na remuneração menor do que a dos homens, nas oportunidades de ascensão mais raras para elas do que para eles. Persiste

    Saiba mais »de Velho é o preconceito
  • Puxar fios

    Imagem: Régine Ferrandis

    Esta madrugada, bulindo com o meus botões, me perguntei qual seria o símbolo da criatividade exercida em sentido amplo. Não apenas na arte e na publicidade. Criatividade na cozinha, no canteiro de obras, no balcão da padaria, na mesa de cirurgia, na defesa ou ataque do time de futebol.

    Nada me desconvence que nascemos todos criativos. Ao extremo. Só que depois algumas famílias, algumas escolas, algumas comunidades sufocam o gesto, o traço, o grito, o labor. Ou ao contrário, somos permanentemente encorajados a fazer as coisas de forma criativa. O estímulo que nos excita ao ouvirmos: Vá em frente. Não pare. Mergulhe. Chegue até o final.

    Mas qual seria o símbolo da criatividade. Meu palpite: o fio. De barbante, de plástico duro, de tinta, de byte, de tricô, do diabo a quatro. É o fio que  puxamos da velha memória e trazemos até um jardim ou inferno do  presente. Fios que desenrolamos, enrolamos, desenrolamos. Guia da trama, guia da mãe de santo, da equação matemática, da rua. Fio da

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  • Telefone (Imagem: Régine Ferrandis)

    Nos habituamos a chamar de nativo digital o pessoal que nasceu depois da internet. No Brasil, em escala comercial, o diálogo entre computadores surgiu em 1995. Com os smartphones e tablets, a partir de 2007, foi a vez dos nativos polegares: bebês que pressionam o polegar na tela enquanto sugam o peito da mãe. Mas, de certa maneira, todos somos nativos de alguma tecnologia. Minha geração, por exemplo, foi nativa da televisão - desembarcada no país em 1950. No disco rígido da memória, não retenho nenhuma sala de estar sem TV. É claro, elas eram de tubo, preto e branco, com BD - baixa definição. Mas a garotada se amarrava. Olhos vidrados no Nacional Kid, Vigilante Rodoviário, Almoço com as Estrelas. Do mesmo jeito que os pequenos de agora, queríamos ação, emoção, ilusão. Três palavrinhas que, desde a Idade da Pedra, têm os humanos como nativos.

    Meus pais nascidos na década de 1930 foram nativos da energia elétrica. Cresceram acendendo interruptores e levando alguns choques ao enfiarem o

    Saiba mais »de A internet invisível
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    O longa Birdman, dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu, levou 4 estatuetas Oscar. Melhor filme, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor fotografia. Gostei da premiação, porque me comovi e me identifiquei com a personagem principal da história: um ator, diretor, dramaturgo que acredita profundamente naquilo que faz. Mesmo quando quase todos a sua volta duvidam do êxito de sua empreitada. Birdman, o homem-pássaro, insiste em bater asas até depois de ser enxovalhado e ameaçado por uma poderosa crítica teatral - personificada em uma loura gelada. Ela deixa claríssimo que o diretor e sua peça não passarão pelos portais da glória. Ele dá uma resposta emocionante (não conto pra não aguar o vinho de quem pretende ver o filme). Ao terminar de assistir, fiquei pensando que o que mais machuca a gente não é o não do inimigo, do estranho. O que mais fere é o não dos amigos, dos pares, dos próximos. Mesmo que seja em nome do querer bem, muitas vezes, a avaliação negativa mais

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  • Tiolândia

    imagem: Régine Ferrandis

    Não tive filhos, mas tenho dez sobrinhos. A maioria deles criados e donos dos seus narizes. Nunca perguntei se causei alguma influência na formação de cada um. Espero que sim. Fui em aniversários, presenteei. Soltei nos seus ouvidos três ou quatro conselhos de vida. Não me arrependo da arenga, pois tias e tios são conselheiros natos. Entre os conselhos, os recorrentes alertas: Dirija com cuidado, beba com moderação, desconfie do que vem muito fácil. Também elogiei a leitura e sempre falei bem dos livros para eles. A máxima que tentei: Seja o que você quiser, mas não sacaneie ninguém.

    É fato que não basta ser tia. Laços de sangue são elos fracos. O que conecta e importa é o relacionamento, igualzinho ao que sustenta as modernas redes sociais. Nem todos os tios merecem lembrança. Dos sete tios com quem convivi na infância, apenas três me influenciaram. Um porque era lúdico, contava estrelas e me ensinou a usar a bússola. Outra por manter os pés no chão e ser capaz de me dizer verdades

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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