Mente Aberta
  • Sou viciada em Manuais de Redação. Li, com lápis em punho, manuais do Estadão, Folha, Globo, Zero Hora, Abril, Lance, CBN, Voz do Brasil. Também aprendo com Dad Squairisi, Pasquale Cipro Neto, Sérgio Nogueira. Reverencio os mestres defuntos Joaquin Mattoso Camara, Napoleão Mendes de Almeida, Celso Pedro Luft, Eduardo Martins. Sou beneficiária do tremendo esforço deles - e de vários outros - em elencar lembretes e dicas para melhorar a escrita do português-moleque. A nossa língua.

    É certo que num país ideal, numa escola ideal com professores e alunos ideais, não precisaríamos de Manuais. Saberíamos idealmente a gramática. A partir dos vinte anos de idade, não teríamos dúvidas de concordâncias, crases, pontuações, hifens. Mas o mundo ideal só existe na nossa imaginação. Então, bem-aventurados guias, SOSs, consultas rápidas, prontas respostas!

    No entanto, Manuais de Redação têm seus efeitos adversos, seus defeitos colaterais. Por conta de tentar a eficácia, às vezes, são taxativos

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  • O escritor Leonardo Padura, autor da obra-prima O homem que amava os cachorros, diz que jamais abandonará a ilha de Cuba. Apesar da escassez econômica e do cerceamento às liberdades individuais, Leonardo esclarece o porquê de não se exilar: Um escritor é fundamentalmente sua memória e sua cultura. Eu sou um autor cubano.

    Concordo com Padura. Memória pessoal e social é água de nadar.  Seja água de aquário, rio, oceano, poça. As trilhas do passado - mesmo disfarçadas em atalhos do presente - são as lanternas nas mãos dos escritores.

    A poeta negra Clara dos Anjos - moradora do Pelourinho, a Veneza seca de Salvador, declara: Moro na mesma casa por toda vida, aqui nasceram minha mãe e meus filhos. Presenciei vários Pelourinhos, pujante, decadente, comercial. Recebi boas propostas de vendar a casa. Mas não saio não. Minha escrita são essas ladeiras. Também a escriba desta crônica nunca deixou o Rio de Janeiro. Apesar de viver em Sampa o dobro dos anos em que viveu na cidade natal. Apesar de

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  • Os brasileiros ouvem e falam pouco do Equador. É claro, a gente aprende na escola (ou aprendia) que Equador e Chile são os únicos países sul-americanos que não fazem fronteira com o enorme Brasil. E fica por aí. Mas no pequeno Equador (256.370 quilômetros quadrados) vivi uma interessante experiência de identidade. A coisa se deu durante uma viagem de juventude nos anos 1980.

    Mochila nas costas, dinheirinho no bolso, exacerbada curiosidade. Com aquela vontade natural de conversar com todo mundo. Mas entabular frases com o povo da capital Quito se mostrou impossível. Com tradição milenar, a população de ascendência indígena - escaldada por discriminações, desrespeitos, descasos - desconfiava de qualquer um com cara e jeito de forasteiro.

    Se troca houve, foi apenas comercial. Lembro que comprei um chapéu do Panamá, ocasião em que soube que chapéus tipo panamá na verdade são equatorianos. Tecidos com folhas de palmeira por mãos para lá de talentosas. Poderia ter sabido bem mais, se as

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  • Boa a inciativa dos grandes jornais publicitar seus arquivos, numa espécie de abertura do baú dos fatos. Alguém definiu, com acuidade, que parte das ocorrências registradas pelos jornais se tornará história. O critério para separar o memorável do esquecido é a relevância coletiva de cada acontecimento.

    Assim, na série O Globo 90 anos, deparei com a manchete de 27 de dezembro de 1977: Lei do divórcio é sancionada hoje e entra em vigor. O que acontecia antes? As pessoas podiam se desquitar. Isto é, se separavam na lei, mas não podiam casar novamente. O desquite era carimbo a ser levado até a morte.

    Recordo que nos anos 1960 - década das mais rebeldes e criativas do século 20 - , a vizinha da casa ao lado da minha família era desquitada. O que queria dizer, para a atrasada classe média tijucana carioca, que ela era uma mulher de casamento fracassado. Ou seja, uma mulher com defeito.

    Ter um casamento desfeito era desabonador. Mães e sogras aconselhavam: Ruim com ele, pior sem ele. Havia

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  • Fico intrigada com o culto exacerbado às celebridades. É mania atual acompanhar, remotamente pelas mídias, o que elas comem, vestem, dizem. Então alguém me lembra que cultuar semideuses vem de tempos imemoriais. Também, a gente se interessa por gente sortuda. Figuras que conseguem o cobiçado bem da atenção. Um corpo destacado na multidão.

    Ok. Há mérito em alguém se tornar célebre. Porque escreveu sete best sellers, ou pelo confinamento de meses em algum reality show. Ops! Celebridades têm durações desiguais. Até hoje lemos e citamos Machado de Assis - o pena do século 19. Mas quem lembra do último ganhador do último BBB? Quais nome e sobrenome da mais recente Miss Universo?

    O feioso e genial Noel Rosa segue tocado e tocando ouvidos por aí. Mas, com todo respeito, quem ainda pega o sucesso máximo de Michel Teló? Não estou dizendo que ele seja ruim, pois não vendo nem alugo verdades. Trata-se só de constatação e de uma pergunta: Por que alguns famosos perduram e outros não? De repente,

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  • Pouco aguento ler ou ouvir notícias. São sempre as mesmas. Os grandes jornais, concorrentes entre si, duelando para conservar assinantes cada vez mais escassos, contam reprises. Como se a pauta não fosse um trabalho humano, mas divino. Unanimidades que caem do céu diretamente nos computadores dos jornalistas.

    Mas a mesmice não ataca apenas a imprensa, ela pousa nas telenovelas, nos programas de rádio e até na maneira igual e ruim de jogar futebol. É baita contradição. Se por um lado há um enxame de narrativas, sete bilhões de pontos de vista, por outro lado há um desejo de pertencer à manada.

    Está na moda dizer que a sociedade brasileira é conservadora. Pode até ser. Mas não o tempo todo, não em todos os aspectos. Assim como houve uma época em que se martelava que o brasileiro era um povo alegre, capaz de fazer piada com a própria desgraça. Afirmação relativa. Porque o brasileiro - igual a qualquer outro povo - também é violento, mal-humorado, rancoroso.

    Tudo depende das

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  • Mutações

    O ano,1988. Meu primeiro computador, um clone IBM, vindo do Paraguai, subiu o elevador do prédio - na Capote Valente, Pinheiros - embalado num cobertor. Parecia um bebê gigante. Enorme mesmo. A impressora matricial ocupou metade da mesa. A CPU era um sisudo trambolho. O monitor piscava um incômodo fósforo verde gerando imagens em preto e branco. Abri o apê para visitações de amigos. Queria exibir a novidade. Pouca gente tinha computador em casa. Eu era dona de um.

    Batizei-o com o nome de Borges, em homenagem ao genial contista de Buenos Aires e do mundo. A geringonça ocupou o centro do meu quarto de trabalho e da minha atenção. Dispus objetos tendo ele como referência. A tecnologia era a máquina propriamente dita. Ligar, esperar o DOS rodar, laborar, desligar exigiam ritual litúrgico. Para a minha necessidade, o Borges funcionava como sofisticadíssima máquina de escrever.

    Por essa época, redigia roteiros para série Mundo da Lua da TV Cultura. Quando terminava o trabalho levava

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  • Gosto de futebol bem jogado. Futebol simples que resulta em bola na rede. Para a bola atingir a meta é preciso apresentar técnica, arte, cabeça fria e coração quente. Igual quando leio ou escrevo um texto. Ele também corre em direção ao gol - esse átimo de explosão funda e ruidosa. Não é fácil concluir. Exige muitos anteriores: o treino, o passe, o drible, o insight.

    Nunca se sabe exatamente como a partida terminará. Ganhar, perder, empatar. Salvo nos jogos mais importantes, no qual o empate está fora de questão. Bem melhor quando inexiste a possibilidade do tudo igual, do elas por elas. Se o empate acontece na página, a sensação é fraca, sem sal. O recado pode ter sido dado, mas não deixou nenhuma marca.

    Jogo memorável é aquele que planta a imagem de um lance na nossa cachola. Um romance de 400 páginas será memorável, se o leitor guardar uma frase, um diálogo, uma descrição. Ou até mesmo - seja no jogo, seja na página - se apropriar de uma impressão. Essência da partida ou do livro

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    Sou o tipo que tem medo de galinhas. Tipo que corre de bois, gansos, carneirinhos. Nada entendo de cercas, águas subterrâneas, fogão a lenha. Conheço o campo como conheço a lua, a distância. Isso não me torna melhor nem pior. Apenas carimba no meu crachá: Feita na cidade.

    É fato, volta meia, visito sítios. O da minha amiga Marina na Serra do Japi, o da minha irmã Cláudia em Itajú. O parco tempo que passo neles são de encanto e relaxamento. Mas nunca sei exatamente no que pensar ou o que fazer. Bem ao contrário do meu habitat urbano, onde tenho sempre preocupações e compromissos para me divertir. Como se entretenimento e tensão se fundissem.

    Também já visitei o sertão. O do litoral norte de São Paulo nos anos 1970, o do Ceará, o da Serra da Capivara no Piauí. O baiano. Do mineiro, sei o que li em Guimarães Rosa. Na totalidade, é pouco. O que faz de mim uma caipira urbana é não saber narrar luares, fogueiras, trilhas, passarinhos, arroz e feijão tropeiros.

    Está provado. Sou bicho da

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  • Quase todo mundo já experimentou, em conversa com irmãos ou amigos, discordâncias em relação a um episódio relevante do passado compartilhado. A morte da avó, o boicote a um professor na universidade, o bate-boca com o chefe. De repente, você diz Foi assim. E o outro Engano seu. Foi assado. É claro, cada um defenderá com ardor a sua lembrança. Pois odiamos supor que nossa recordação seja apenas uma versão. Cremos que é o fato. Para não dizer, a verdade.

    É mais fácil aceitar a traição amorosa, profissional, familiar, partidária, futebolística do que admitir a trapaça da memória. Porque ela é segunda pele, segundo corpo que carregamos pelas ruas, pelas décadas, pelos relacionamentos. Posso perder mil batalhas, ser machucada moral e fisicamente, mas as lembranças são meu capital pessoal, intransferível. Invisto e poupo como quiser.  

    Na semana passada, o Facebook fez um milagre, desses que só ele é capaz. Pesquisei e encontrei uma amiga de infância. Não sabíamos uma da outra faz quarenta

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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