Mente Aberta
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    A morte se anuncia quando paramos de rir. Meu pai foi um sujeito de várias risadas. Ele tinha o humor da provocação. Quando tudo soava calmo ou careta demais, ele soltava uma frase ou fazia um gesto para bagunçar o coreto. Mesmo sem ter lido o poeta Torquato Neto (1944 -1972), papai fazia acontecer os versos: Vai bicho desafinar / o coro dos contentes. Só quando a doença se apossou é que seu riso desapareceu. O fim do humor foi o sinal inequívoco de que ele estava indo.

    No meu círculo de amigos, há muitos naturalmente engraçados, da estirpe que abre a boca e já estamos rindo. Divertidos na hora que contam qualquer coisa, no momento que observam pequenos e grandes fatos do mundo. No entanto, acho que a maioria das pessoas tem humor mais discreto. Semelhante ao meu. Ninguém me descreve A Fernanda é uma pessoa engraçada. Ao primeiro contato, sou do tipo sério, para evitar dizer sisuda ou casmurra.

    Na medida que rola a convivência, consigo até provocar boas risadas. O que me faz pensar que

    Saiba mais »de Rindo do quê?
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    Tenho uma amiga que afirma que a gente só prova que assumiu a própria profissão ao preencher a ficha de um hotel. Durante anos, e até hoje, fico em dúvida no momento de declarar na linha pontilhada que raios eu faço. Se puser jornalista será meia verdade. Nunca trabalhei em redação de jornal ou revista. Se optar por redatora - aquela que escreve o que o cliente manda - chegarei mais perto. Mas não será totalmente autêntico. Pois faz um tempinho que ando escrevendo o que quero, seguindo meu nariz, coração, vontade. Por que então não me declaro de vez escritora?  Por conta de algo entre a modéstia e a vaidade.

    Outro dia numa padaria, aqui na Vila Madalena, a moça que atende às mesas e já me trata como amiga, quis saber O que a senhora faz? Terminei de dar o gole no expressinho e tasquei Sou cronista. A garota espantou-se como se eu fosse uma marciana, mas educada retrucou Bacanal! Arrisquei Você sabe o que é crônica? Resposta sincera e polida Não, mas deve ser uma coisa legal.

    Entendo

    Saiba mais »de Que escriba sou eu?
  • Saia perguntando por aí o que as pessoas acham da palavra mudança. Aposto 2/3 das minhas fichas que as respostas serão positivas. A grande maioria dirá que mudar é bom. Os mais refratários se renderão: Não é bom. Mas é necessário. A mudança parece ser o slogan-mãe da nossa época. Fale-se em mudar métodos de governança, de emprego, de área, de smartphone, de operadora de celular, de sexo.

    Mas falamos pouco dos traumas da mudança. Parece vergonhoso contar dos custos e das dúvidas. Aquele que confessa o dodói de mudar, sente temor de ser taxado reacionário, fixo, retrógrado, antiquado. Ninguém quer ser o passageiro esquecido na plataforma, vendo o trem da oportunidade sumir na primeira curva. Ai daquele que se atrasa, que se apaixona pela árvore esquecendo da floresta. Ai daquela que caminha devagar, pois se demora namoricando margaridas silvestres pelo caminho. Por fim, além de mudar é preciso fazê-lo com velocidade.

    Mudança e velocidade, procure no Google, haverá milhões de resultados.

    Saiba mais »de Dá um trabalhão
  • Deixar-se

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    Todo mundo conhece, ou vai conhecer, a dor de ser deixado. Milhares de canções falam disso há gerações e gerações. Ser trocado por um coleguinha na infância, esquecido por uma amiga em qualquer idade. Ser abandonado por um amor. A sensação sentida não é bolinho, nem melzinho na chupeta. Difícil tirar de letra a experiência do abandono. Talvez seja semelhante a observar, do cais, um barco naufragar. Depois de tudo, só ficam espumas brancas e a imensidão azul.

    Mas existe outra dor, mais velada e menos homenageada em prosa e verso, que é a dor de quem deixa. Ou mesmo a pena de quem trai. Pois se você ainda não traiu algo ou alguém, pode escrever: vai rolar. É evidente que há uma hierarquia na traição, por exemplo, trair ideias é menos grave que trair pessoas. Trair estranhos é mais fácil do que apunhalar conhecidos. Trair aqueles que amamos, então, é terremoto com mais de 9 graus nas escala Richter.

    Trair a si mesmo? Uau! É coisa de rasgar o peito com peixeira afiada. Apertar o cérebro

    Saiba mais »de Deixar-se
  • Aprendo com os livros infinitas paisagens, modos de vida e de pensar. Aprendo com os filmes aventuras, casos de amor, adrenalinas 24h. Aprendo com os jornais e com a TV escândalos políticos, esquerda e direita. O teatro me ensina a emoção da voz, a inflexão do corpo, o palco e a plateia. Já os museus me presenteiam com mestres e antepassados. A internet esparrama sobre meu espanto milhões de protagonistas com suas fotos, narrativas, verdades e mentiras.

    Tenho para mim que aprendemos no compasso da respiração. Nem mesmo o sono nos desliga dos 1001 sentidos que o mundo redige, imprime, recicla. Muitas vezes, me sinto esponja gigante aderindo aos fatos e suas versões. Outras poucas, percebo que sou eu quem ensina alguma coisa através de um gesto, uma crônica, um olhar. Mas demorei para ter essa compreensão da vida escola sem muros.

    Pois já acreditei nos canudos, certificados, prêmios. Cai na esparrela, ardil, armadilha de que algumas pessoas tinham o discurso mais autorizado do que

    Saiba mais »de Cachorro e gente é igual
  • Direto ao ponto: cada um tem a alma que pode. Existem as almas penadas e as despenadas. Alma alta, alma baixa. Alma religiosa, agnóstica, ateia. Em comum, todas únicas como o DNA dentro do corpo. O que estou chamando de alma também posso denominar personalidade. Esta que já vem pronta com o bebê. Bacuri chorou, bacuri tem alma.

    Na espantosa diversidade das almas, há uma esquina de encontro. A sua expressão no vasto mundo. Alguns vão chamar de marca, outros dirão obra. Os mais eruditos definirão alma como essência imaterial da existência. Chamo simplesmente de caminho, isto é, a expressão da vida de gentes e bichos. A casa de máquinas das subjetividades.

    Existem almas que se expressam na delicada e trabalhosa tessitura de  criar e educar alminhas. Outras bordam presenças nos espaços públicos, em exigentes profissões. A grande maioria solta faíscas em complexas conexões. Exemplos de expressão da alma: projetar pontes estaiadas, mostrar a novas gerações como cozinhar o barreado com

    Saiba mais »de A risada da alma
  • O título do livro de John Steinbeck A Leste do Éden funciona como asinha que nos eleva do alerta ao sonho. Tudo porque éden é o jardim do paraíso. Imaginar que o paraíso tenha pontos cardeais é fascinante, pois rouba para a terra o que é do céu. Outro título que convida ao sonho é de autoria do João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas. Nele há duas palavras encantadas, o sertão interior, distante,íntimo e vereda que é caminho, rumo, senda. Mais ou menos, como se do grande íntimo fôssemos para as trilhas do mundo. Acrescento o Do outro lado do rio, entre as árvores, título tão maravilhoso que você quase nem precisaria ler o livro de Ernest Hemingway. E mais Antes do Baile Verde da estupenda Lygia Fagundes Telles.

    O cinema não fica atrás. Há títulos turbinadores de sonhos e insinuações. Terra em Transe do Glauber Rocha anuncia que nada se mantém no lugar. Rio, 40 Graus do Nelson Pereira do Santos e São Paulo S/A do Luís Sérgio Person são autoexplicativos. Júlio Bressane, do chamado

    Saiba mais »de Porta de entrada
  • Ainda acredito que a técnica - conjunto de bons procedimentos para a realização de algo - é atributo providencial em qualquer profissão. No meu caso, me esforço estoicamente para observar e praticar o melhor arranjo das palavras em cada frase. De forma semelhante, um pintor tem que conhecer a anatomia das linhas e a gramática das cores. O que distingue uma cozinheira boa de uma cozinheira comum é o repertório de técnicas que a primeira detém e põe nas suas panelas e frigideiras.

    Mas houve um tempo em que pensei que a técnica era tudo. O pulo do gato, o salto para o sucesso, a excelência. Para que página eu olhasse, imaginava jogos de palavras. Procurava adjetivos inusitados para modificar substantivos: mar amarelo, céu finito, estrada líquida, dor alegre. Cheguei a construir um romance (assim o chamei) com formalismo exacerbado. Nele, expus palavras desconhecidas no dia a dia. Caprichei para dificultar cada frase. O resultado foi um fracasso retumbante! Desses em que a gente ouve o

    Saiba mais »de Detrás das palavras
  • Na Copacabana dos anos 1960, eu e as crianças da família adorávamos fazer buracos na areia da praia. Com as mãos escavávamos na parte mole até a água nos tocar. Tio Walter, o mais lúdico dos adultos, nos encorajava: Continuem cavando até chegar no Japão. Então - e um pouco até hoje - a palavra Japão suscitava fantasias de o outro lado do mundo, meia noite quando é meio dia, lanternas vermelhas, kamikases intrépidos, samurais. Do mesmo jeito que a palavra China incendiava a imaginação: pólvora, arroz, dragão, muralha, multidão. Istanbul, nossa, bastava eu ouvir esse nome para meu espírito saltar do corpo e brincar em cambalhotas.

    Tudo isso foi antes das aulas de geografia e dos compêndios de sociologia e política. Foi só depois - dos banhos em Copacabana, da primeira menstruação, de informações mais sérias - que eu soube que Japão, China, Istambul tinham seus podres. Seus não encantamentos. Aprendi: Japão aliando-se aos nazistas, China devastando liberdades individuais, Istambul

    Saiba mais »de Fronteiras derretidas
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    Viúva antes dos 40, mãe de três filhos, o mais velho meu pai, vovó abriu uma pastelaria no subsolo da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Foi lá que ela se afeiçoou a um jovem empregado. Um rapaz, vindo da antiga Tchecoslováquia, com um português horrível e olhos de amêndoas perfeitas. Quando eles resolveram morar juntos, as duas famílias emburraram os humores. A dela porque ele era imigrante pobre. A dele pois vovó não era judia. Não preciso contar que meu avô e família desembarcaram na então capital do Brasil, no final dos anos 1930, fugindo da perseguição aos judeus que aumentava com passos de gigante na Europa. Também não preciso contar que, naquela época, uma mulher, dona de um negócio, viúva namoradeira (mesmo que de um só), deixava seus tios e irmãos com as ventas do nariz sibilando.

    O fato é que quando me dei por gente - lá pelos cinco, seis anos - meu avô era o Júlio. O ex-empregado de vovó e agora dono da sapataria Carneiro, na mesma Central do Brasil. No momento que eu

    Saiba mais »de Meu avô judeu

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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