Mente Aberta
  • Quase todo mundo já experimentou, em conversa com irmãos ou amigos, discordâncias em relação a um episódio relevante do passado compartilhado. A morte da avó, o boicote a um professor na universidade, o bate-boca com o chefe. De repente, você diz Foi assim. E o outro Engano seu. Foi assado. É claro, cada um defenderá com ardor a sua lembrança. Pois odiamos supor que nossa recordação seja apenas uma versão. Cremos que é o fato. Para não dizer, a verdade.

    É mais fácil aceitar a traição amorosa, profissional, familiar, partidária, futebolística do que admitir a trapaça da memória. Porque ela é segunda pele, segundo corpo que carregamos pelas ruas, pelas décadas, pelos relacionamentos. Posso perder mil batalhas, ser machucada moral e fisicamente, mas as lembranças são meu capital pessoal, intransferível. Invisto e poupo como quiser.  

    Na semana passada, o Facebook fez um milagre, desses que só ele é capaz. Pesquisei e encontrei uma amiga de infância. Não sabíamos uma da outra faz quarenta

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  • Minha mãe, dona Nete, mora no bairro do Sumaré. Quem conhece Sampa sabe que é lugar de impressionantes ladeiras, num sobe-e-desce que faz sofrer joelhos de pedestres e motoristas de veículos 1.0. O prédio de mamãe se equilibra no cume de uma das ladeiras. O terreno sinuoso estimula a engenharia nacional a fazer prodígios. O bairro, há poucos anos cheio de casinhas, se transformou em área de espigões.

    Foi assim que, em frente ao prédio da dona Nete, derrubaram um quarteirão de casas e instalaram um enorme canteiro de obras. Logo que chegaram as primeiras máquinas e operários, fiquei preocupada. Afinal, minha mãe vai completar 82 anos, ainda ressente a falta do meu pai, e tem o sono leve. Na minha mente, desenhei o pior cenário. Uma voz fina alarmou meu cérebro: Vem problema, vem problema.

    Desenhei o horror dos sons: tratores, sondas, lajes erguidas, martelos, gritos. E para arrematar, o agudo dilacerante da serra elétrica. Tudo isso envolto na poeira permanente. Cheguei a prever o pó

    Leia mais »from Alegrar a tristeza
  • De todos os ofícios, sinto inveja de quem desenha. Valer-se de pontos e linhas para representar coisas existentes e imaginárias. Diferente de quem se expressa com palavras, pois elas precisam existir anteriormente nas ruas e dicionários. Ao contrário do desenhista que cria formas, o escritor não inventa palavras. Ele as combina, recria, escolhe. Mas nunca se iguala ao voo livre do desenhista.

    Quando fui professora de roteiro, Fernando Carvall - mestre da ilustração - apareceu na sala de aula querendo roteirizar. Pensei: por que um cara que domina o desenho quer se dedicar à expressão escrita? Explico: não creio que escrever seja inferior a desenhar, todas as expressões se igualam em importância. Mas a escrita, eu disse para o aluno Carvall, é tão trabalhosa que se eu desenhasse passaria a quilômetros de distância dela.

    Escrever é ofício de operário. De gente que dispõe uma palavra depois de outra. Gente que esmiúça no passado social ou pessoal o nexo do que está tentando dizer. Também

    Leia mais »from Na caverna ou na telinha
  • Vibrei com o placar de 9X0 a favor das biografias não autorizadas. Quem goleou foi o Supremo Tribunal Federal, no último 10 de junho. O Neymar do julgamento foi a ministra relatora, Cármen Lúcia, ao relembrar que, segundo a Constituição Brasileira, Cala boca já morreu. Quem manda na minha boca sou eu. Perderam as biografias chapas-brancas e parentes que se intitulam proprietários do morto biografado.

    Respeito o trabalho árduo do escritor biógrafo que, muitas vezes, dedica anos à pesquisa e redação da vida de um outro. É evidente que me refiro aos biógrafos sérios e talentosos. Não entram na minha consideração fofoqueiros e urubus da vida alheia. O fato: aprendo muitíssimo com as grandes biografias, pois elas extrapolam a vida pessoal do biografado ao narrar e iluminar os contextos histórico, político, social, cultural de uma época.

    Com minha pena curta e ligeira de cronista, não me imagino abraçando um trabalho de longo fôlego. Mas se eu fosse biografar, escolheria uma rua. Por exemplo,

    Leia mais »from Escrever as ruas
  • Admiro os visionários, gente com talento e capacidade para enxergar além da linha do horizonte. Pessoas que trabalhando com informações atuais farejam tendências. Veem o que pode haver atrás da montanha. É claro, sempre é uma aposta. Porque o que virá depois ainda não é. Pode inclusive nunca se concretizar. Visionários erram muito. Mas seguem felizes com seus palpites, preveem desdobramentos surpreendentes. Visionários sonham com olhos bem abertos.

    Também admiro os memorialistas, gente com talento e capacidade para enxergar atrás. Recuam no tempo para encontrar origens das circunstâncias do dia a dia presente. Adoram dizer Ah, foi ali que tudo começou. Ou exclamar Aquilo deu nisso. Memorialistas devoram livros e sites de História, biografias, documentários. Suas mentes entram em êxtase quando tocam em cartas da bisavó para o bisavô. Quando se deparam com fotos antigas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro - joia verde urbana - criado há 207 anos.

    Assim como cada um carrega um pouco de

    Leia mais »from Gangorra do tempo
  • No centenário da Lei Áurea, em 1988, escrevi em coautoria um roteiro para um vídeo comemorativo. Levou o título de Axé. Trazia conquistas e derrotas da população negra em um século de vida liberta. Na ocasião, peguei a calculadora e fiquei supresa ao constatar que no ano do meu nascimento a abolição da escravatura tinha só 67 anos. Significativo para um indivíduo, risível para a História. Esse curto espaço de tempo me ajudou a compreender por que, em muitos aspectos, o país ainda tem mentalidade escravista.

    Também me mostrou a relevância das datas na História. Nada a ver com decorebas. Tudo a ver com sermos seres temporais. Meus pais, por exemplo, adolesceram durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Eu mesma nasci passados 10 anos do seu término. Então, obviamente, a cultura dessa guerra está muito mais próxima a mim, do que aos meus sobrinhos netos. Todo grande momento histórico se confunde a maneira de enxergar e agir de seus contemporâneos.

    Hoje, aopensar nessas relações,

    Leia mais »from Uma garota de 20 anos
  • A inspiração para esta crônica surgiu de uma postagem que transitou pelo Facebook. Era uma charge, gênero de extrema eficácia comunicativa. Nela, um sujeito que pode ser padre, pastor, chefe, professor ou político - em cima de um palanque - pergunta Quem quer mudança? Todos na plateia levantam as mãos. Mas na pergunta seguinte Quem quer mudar? Todas as mãos se abaixam.

    Genial, pois a simplicidade da charge aponta para uma realidade comum e extraordinária ao mesmo tempo: querer mudanças sem precisar mudar. Pois é mais cômodo reivindicar transformações no mundo, no país, na vida dos outros do que transformar a nós mesmos. Com razão exigimos transparência na vida política e poderosa, mas isso não significa que sejamos transparentes na nossa empresa, ou dentro de casa.

    Um tanto parecido com o racismo no Brasil. Há evidências cotidianas de sua prática lastimando e prejudicando os pretos, os pardos, os indígenas, mas ao ser perguntado ninguém é racista. Poderíamos desenhar outra charge.

    Leia mais »from Mudança sem mudar
  • De 1942 a 1952, o slogan da Coca-Cola foi A pausa que refresca. De lá para cá o mundo deu voltas de 180, 360, 60 graus. Faz tempo sabemos que coca-cola faz mal, mas ela segue vendendo mais do que qualquer outro refri. O que mostra que fazer mal não é argumento absoluto, ou suficiente para a abstinência. Vladimir Maiakovski (1893-1930), poeta da vanguarda russa impulsionada pela Revolução de 17, foi certeiro no verso: Melhor morrer de vodka do que de tédio. É óbvio que coca-cola não é vodka, nem a minha crônica propaganda do xarope mundial.

    Apenas tomo emprestado o slogan que junta pausa com bons ares, brisa, frescor. Pausar é parar um tantinho no tempo. Se for pausa na série da TV ou do Netiflix, é para ir ao banheiro, tomar café, atender alguém no celular. Logo voltamos. Nas relações amorosas pausar é dar um tempo, como diziam e praticavam os namorados do século XX. Em geral, dar um tempo era o fim do namoro, pois se existe algo incompatível com corações apaixonados é reconsiderar.

    Leia mais »from Pausar e retomar
  • Desconfio que todo mundo tem dois ou três pesadelos recorrentes. O pior dos meus, sou eu andando de quatro. No último, que lembro, eu estava em pleno Viaduto do Chá - centrão de Sampa - engatinhando. Simplesmente não conseguia caminhar com as duas pernas. Sensação de pânico pela humilhação de estar de quatro. Estudiosos afirmam que sermos exclusivamente bípedes é a grande marca de diferença em relação aos outros animais. Uma vez que gorilas, chimpanzés, cangurus andam com duas patas, mas fogem com quatro.  

    Fora dos pesadelos, na longa vigília, caio e me levanto antes de precisar engatinhar. Não importa se com o joelho machucado e o tornozelo inchado. Morta de vergonha, me ergo e sigo. Além das quedas físicas sérias ou prosaicas há os tombos d’alma. Causados por rasteirinhas, rasteiras, rasteironas que a vida dá. Por exemplo, perder pessoas que amamos. Bichos também. Mas inclusive nesses casos é preciso se pôr de pé, mesmo quando a tristeza força para baixo e nos convida para o subsolo

    Leia mais »from Depois da queda
  • Tem gente que herda apê, chácara, casa de praia, automóvel. Há também um número imenso que não herda nem moeda de real. Os mais azarados herdam até dívidas. Bens materiais são passíveis de inventário, contabilidade, cobranças, impostos, investimentos. A lógica financeira se apoia num trapézio de concreto armado. Sua estrutura é binária: entrada e saída, azul e vermelho, poupança e gasto.

    Mas existe um outro tipo de herança que dispensa filas de cartório, escrituras, certidões, contendas familiares. Pessoal e intransferível, seu capital é imaterial, sua origem variada. Minha mãe herdou do avô, descendente de mouros, pratos decorados para pendurar na parede da sala. Hoje, aos oitenta e dois anos, mamãe volta e meia diz Eu amava meu avô Hieronides Tassiano Bellez.

    Pratos decorados para pendurar na parede são bens físicos, mas o gosto por eles extrapola a materialidade. Por conta do amor pelo avô, minha mãe desenvolveu talento para decoração. O que me faz pensar Heranças imateriais tem a

    Leia mais »from Dinheirinho imaterial

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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