Apressa-te lentamente

Fernanda Pompeu
Fernanda Pompeu4 de setembro de 2012

Quem cozinha sabe muito bem o que significa o ponto do doce. O momento exato em que a iguaria está pronta. Nem meio crua, nem cozida demais. Com os nossos projetos ocorre algo similar. Existe a hora perfeita de torná-los uma realidade.

Eu já padeci por errar o tempo. Em alguns projetos, fui precipitada. Tentei emplacá-los sem que eu e a ideia estivéssemos perfeitamente maduras. Quando fui pôr em prática, a coisa não funcionou porque havia me apressado nas etapas anteriores.

Também, é claro, aconteceu o contrário. Demorei demais para soltar a ideia. Quando o fiz, ela estava ultrapassada. Ou, pesadelo, alguém já tinha apresentado uma proposta bastante parecida. Neste caso, eu e a ideia dormimos no ponto.

O conselho que alerta para apressarmo-nos lentamente, em latim festina lente, é atribuído ao imperador romano Augusto (que nasceu antes e morreu depois de Cristo). A frase é interessante porque junta dois contrários aparentes: pressa e lentidão.

É uma frase sábia. Pois precisamos realizar com rapidez, e nos preparar com vagar. Vamos ao exemplo: um atleta olímpico tem poucos minutos para brilhar e conseguir a medalha de ouro. No entanto, ele levou anos e anos treinando.

Uma médica competente é capaz de olhar para o paciente e rapidamente dar o diagnóstico. Pode, de pronto, prescrever o tratamento. Mas para chegar a esse nível de excelência, ela teve que estudar e praticar muitíssimo. Fez isso lentamente.

No que eu faço não tem medalhas e nem dinheiro gordo. Sou o que antigamente chamavam de pena de aluguel. Em miúdos: uma escrevinhadora ganhando o croissant de cada dia ao ligar uma palavra à outra para resultar em parágrafos que façam sentido.

Mesmo nesse ofício - tão sem reconhecimento e aposentadoria - preparo-me lentamente para escrever com rapidez. E apresso-me para que o leitor veja utilidade e alguma graça, sem desperdiçar seu precioso tempo.

Então o apressa-te lentamente serve para todos. Para o cozinheiro e para a presidenta da República. Preparar-se com calma, dispensando atalhos e embromações. Emergir de águas sólidas para atuar com competência e prontidão.

*  iPhonografia: Régine Ferrandis, do Algarve