Mente Aberta

Desapeguei

Adoro verbos com os seus contrários: descolar, desmontar, desmarcar, desconstuir, desobstruir, desimpedir, desencarnar. E lamento que o vernáculo ainda não permita desver, despensar, desachar, desouvir.

Na lista autorizada, tenho um predileto: desapegar. Acho bárbaro o sentido concreto de deixar de pegar algo que tinha sido pego. Seja um objeto, uma ideia, uma emoção - que havíamos tocado, apertado, guardado.

Pois não vale a ação de desapegar daquilo que a gente nunca gostou. Por exemplo, desapegar de uma obrigação, ou de uma chatice. Também não serve desapegar de um tênis furado, de uma tampa sem panela.

Desapego forte é aquele que treme na alma. Que faz brotar lágrimas nos olhos. No ano 2000, me desapeguei de quase três mil amores. Aconteceu na manhã em que doei minha querida biblioteca.

Mandei passear três mil volumes. Entre eles, livros raros, presenteados por amigos, autografados. Cada um com sua história própria pontuando os vários momentos da minha vida.

Alguns desses amores me acompanhavam desde a adolescência. Eu podia localizar em que prateleira estava qualquer título. Lembrava como cada livro havia chegado em mim. Assim como sabia qual estava emprestado, qual não tinha sido devolvido.

Apesar desse imenso apego, um grilo falante começou a atazanar meus ouvidos: Por que juntar tantos livros? Será que você se imagina um caracol arrastando a biblioteca como se fosse sua casa?

O fato é que desapeguei. Não por conta do grilo falante. Foi por crédito próprio. Eu precisava encontrar minha voz na escrita. Aquelas e aqueles autores brilhantes, dispostos nas estantes, me intimidavam.

Você sabe o que é ter mestres olhando sobre seus ombros? Clássicos seguindo seus dedos no teclado? Fantasia ou não, presunção ou não, chegou o meu 7 de Setembro!

Hoje sigo sendo uma leitora apaixonada. Leio em papel, na tela, na areia, no muro. Meu adeus não foi à leitura. Foi ao acúmulo de volumes. Agora termino um livro e passo adiante. Fiquei mais leve. Melhor ainda, estou mais livre.

Imagem: Régine Ferrandis, de Paris. Foto da exposição de Jelena Blagovic "Family Silver".

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Fernanda Pompeu

Cronista nas horas vagas e de trabalho. Melhor dito, uma webcronista. No blog Mente Aberta, do espaço "Inspire-se", ela procura incentivar os leitores a pensarem e agirem fora das caixinhas. Isso porque inspiração, criatividade, insights e respeito às diferenças precisam de oxigênio para prosperarem.

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