Fala que todos escutam

Fernanda Pompeu
Fernanda Pompeu17 de julho de 2012

No Brasil, por séculos a fio, vigorou a cultura do cala a boca, quem manda aqui sou eu. Os escravos eram chibatados se ousassem protestar. As mulheres podiam falar em casa, mas nunca se expressar nos espaços públicos. Crianças e adolescentes eram enquadrados em um silêncio reverente. Os pobres? Para que ouví-los?

Quem tinha direito à voz? Políticos, patrões, padres, pastores, médicos, juízes, delegados, professores, tabeliães, jornalistas. Preferencialmente homens brancos e poderosos. Para os demais - negros, mulheres, pobres, crianças, adolescentes - era preciso levantar a mão e pedir licença. E quando conseguiam a palavra, os ouvidos ficavam moucos.

A cultura do cala a boca, quem manda aqui sou eu começou a declinar faz pouco tempo. E, pode anotar, quem está dando voz a toda gente antes sem voz é a rede mundial. A internet, versão 2.0, veio para que todo mundo possa dar seus pitacos em qualquer pauta, assunto, post.

Sob o fogo de comentários imediatos, nada é sagrado ou intocável. Neguinha escreve aqui, neguinho comenta ali. O carro do ano pode ser desautorizado pelo consumidor insatisfeito. A reportagem do grande portal pode ser questionada pelo leitor desgostoso.

O contrário também é verdadeiro. A cantora que não teve vez nas gravadoras pode se tornar uma celebridade na internet. O escritor sem editora, de repente, bomba em um blog. Hoje o poder está nos dedos dos comentaristas da rede. E como eles gostam de escrever, escrever, escrever.

Tudo azul? Ainda não. Muita gente se esconde por detrás de nomes falsos para arrasar qualquer ideia, para mandar ver na baixaria. Outros esquecem o comentário em si para desancar com os demais comentaristas. Fica parecendo auditório de rinha de galos.

Mas não é a regra. A maioria aproveita a oportunidade para expressar elogios ou críticas. Também corrigem imprecisões, muito comuns na web. Se tornam coautores do conteúdo postado. Realizam a utopia da inteligência coletiva, aquela que incorpora a contribuição de cada um.

São os comentaristas da internet 2.0 que irão enterrar de vez a cultura do cala a boca, quem manda aqui sou eu. São elas e eles que ocuparão as praças eletrônicas da democracia. Farão nascer um mundo onde todos abrirão os ouvidos, porque ninguém será o dono da voz.

*iPhonografia: Régine Ferrandis, de Paris.