Internet letrada

Fernanda Pompeu
Fernanda Pompeu2 de agosto de 2012

Quando a internet pousou nas telas dos computadores pessoais, proliferaram os profetas a afirmar a morte do texto. Este seria esmagado pelo pelotão de imagens e sons. Se uma imagem já valia mil palavras, na rede mundial passaria a valer um milhão delas.

Sons e imagens ganharam uma maravilhosa plataforma. Nasceu o Youtube dando canal a uma animada galera de videoastas e músicos. Mas o texto seguiu vivo e procriando, pois nunca a humanidade leu e escreveu tanto.

E-mail, chat, msn, wiki, twitter, facebook, espaços para comentários em sites e portais suplicam para que nossos dedinhos pressionem letrinhas no teclado. Expressar gosto, opinião, emoção, razão, amor e ódio - por meio de palavras - tornou-se tão natural quanto matar sede com água.

Empresas contratam caçadores digitais com o intuito de monitorar o que andam escrevendo sobre os seus produtos. Também por escrito, os web usuários trocam recomendações e críticas acerca de serviços. É a lança com flecha de verbo.

Pessoas escrevem blogs que vão da circunferência do próprio umbigo ao resgate do planeta, passando por todas as coisas e seres vivos ou mortos sobre a face da terra. Nem Gutenberg (1398-1468) - inventor da prensa móvel - daria conta desse derrame de letras.

É evidente que a qualidade do escrito varia na mesma proporção do aumento da quantidade. Há os que dizem que a escrita na internet é ruim. Reclamam do abuso de abreviaturas, dos erros de ortografia, das semânticas disléxicas, das sintaxes tortuosas.

Deve ser verdade. Mas essa verdade não modifica o fato de que jamais se escreveu tanto. Filhas e filhos de pais que só escreviam bilhetes, ou folhinhas de cheque, hoje não se furtam a comentar o mundo pela rede digital.

Mas vamos ao ponto: como se tornar minimamente visível num universo com excesso de escribas? Como garantir que seu comentário, mensagem, poema, declaração sejam lidos? Não há receita.

Sem manual, vale o bom senso. Quanto melhor você escrever, maior a chance de cativar leitores. Então cuida aí do português, relendo antes de postar. Cuida das frases para que elas tenham ritmo, coesão e coerência.

E persiga - com obstinação, técnica, coração - as três medalhas de ouro da comunicação escrita. São elas: clareza, clareza e clareza.

* Foto: "Instalação Sophie Calle", Régine Ferrandis, de Avignon.