Não pisoteie

Fernanda Pompeu

Ouvi a frase de uma taxista: "Para dizer que o meu filho é bonito, não preciso dizer que o filho do vizinho é feio". Fiquei boquiaberta com a clareza da formulação. Enfim, o filho do outro não precisa ser feio e burro para que o meu seja bonito e inteligente.

Passei a rememorar as várias situações em que para valorizar uma ideia minha, desvalorizei a ideia de um outro. Quantas vezes para autorizar minha opinião desautorizei a opinião de um terceiro. A frase do taxista me abriu o pensamento.

É muito popular essa estratégia de reforçar as próprias qualidades em cima dos defeitos alheios. Para declarar que meu nariz é bonito, aponto que o da outra é horroroso. Esquecendo que minha trompa pode ser vistosa, e idem outras infinitas trompas.

Candidatos a eleições fazem isso o tempo todo: no lugar de propor novas ações, ficam escrachando as intenções dos rivais de voto. É incrível como o adversário sempre fez pior: "Não tem hospital, porque o cara do outro partido não quis. Já se eu for eleito...".

No mundo do trabalho, a prática de desancar os concorrentes está relacionada a um vício de se defender pelo ataque: "Compre o meu produto, porque o da concorrência não presta. Leia o meu blog, pois os outros são desinteressantes e mal escritos".

Também tem a ver com falta de autoestima. Ou mais cirúrgico, tem a ver com a insegurança em relação ao próprio ofício e as próprias convicções. Mas se o que você faz tem mérito, pouco importa o que fazem os outros.

A filosofia do taxista prega o seguinte: compre o meu produto ou serviço, porque ele tem inovação e qualidade. Leia o meu blog, pois ele traz reflexões e é bem escrito. Reparou na diferença: valorizo o que é meu sem detonar o que é dos outros.

Qual o benefício? Mostrar para o chefe, cliente, consumidor, leitor as qualidades intrínsecas do seu produto ou serviço. Ele é bom não por conta dos outros serem necessariamente inferiores. É bom pela consistência e relevância.

Vão as dicas: ponha foco na sua proposta, leve a sério suas convicções, faça o melhor que pode. É óbvio: não precisa virar santo ou santa e sair por aí elogiando todo mundo. Mas não dê uma de oportunista falando mal da concorrência.

iPhonografia: Régine Ferrandis, de Paris.