O que querem os escritores?

Fernanda Pompeu

Reparem que há dias para todos. Para avó, metroviário, médico, síndica, gari. Tem o dia do indígena que aliás inspirou a linda canção de Jorge Ben: "Todo dia era dia de índio, mas eles agora só têm o dezenove de abril."

Fiquei sabendo pelo Facebook que até escritor tem seu dia, o 25 de Julho. Que coisa! Na horinha, pensei que presente a gente daria para um escritor. Fugindo dos óbvios: um caderninho, uma caneta, um livro.

Mesmo porque os escribas do século XXI, certamente, trabalham em seus notebooks, tabletes e smartphones. Acredito que apenas os muitos velhinhos ainda se arrisquem em máquinas de escrever.

Agora lembrei, tenho uma amiga escritora que jura que usa papel com lápis. Ela justifica o hábito dizendo que as frases fluem melhor e que as ideias sorriem ao som da ponta do grafite rascando a superfície da folha.

Quase aposto que ela é exceção. Pois todos - os bons e os maus escritores - gostam de facilidades. Cá entre nós, nunca na longa saga da humanidade, houve uma família de tecnologias tão amigável e intuitiva quanto as digitais.

Com elas, a gente escreve a frase e compartilha no ato. Às vezes não dá tempo nem de revisar e muito menos de se arrepender. Daí, os escritores de hoje devem ser indivíduos estressados, pois sabem do risco alto de levar ao público um ovo cru.

É o progresso! Cedo ou tarde embarcamos na canoa que ordena ao vento: em frente, em frente, em frente! Também é certo que o vento tem vontade própria e, algumas vezes, naufraga a barca do progresso.

Mas voltando ao começo da crônica, qual presente dar a um escritor? Um estímulo para sua árdua aventura de traduzir recortes do mundo em palavras. Pois, não há dúvida, esse trabalhador traz dentro de sua caixa de ferramentas: substantivos, verbos, adjetivos, advérbios, verbos.

Minha sugestão é que a gente dê - para ele ou para ela- leitores. Ser lido é o desejo maior de quem escreve. É seu porto de partida e de chegada. Mas não qualquer leitor, desses desatentos e apressados. O escritor quer leitores de qualidade. Aqueles capazes de ler o que foi não escrito.

Imagem: Régine Ferrandis, Paris.