O voto das mulheres

A primeira vez que pude exercer o direito de votar para presidente da República, já era uma mulher com 34 anos. Isso porque antes houve uma ditadura que negava aos brasileiros o voto direto. Mas democracia que segue, hoje: negros, brancos, indígenas; mulheres, homens, transexuais; analfabetos, doutores; com-dinheiro, sem-dinheiro; cadeirantes - somando 142 milhões de eleitores - votam soberanamente.

Por conta de tudo isso, adoro eleições. Não que os candidatos sejam uma brastemp. Muitos, aliás, estão a anos-luz da decência. Mas o dia da votação é mais do eleitor do que do candidato. É a ocasião em que saio do anonimato político para meter dedo e bedelho numa urna eletrônica. É pouco. Mas é o básico.

Outra sensação boa tem a ver com a História. No Brasil, as mulheres só tiveram direito ao voto em 1932. Meu pai estava com dois anos e minha mãe nasceria um ano depois. Há quem pense que o voto feminino foi obra de Getúlio Vargas. Mas não é bem assim. Centenas de sufragistas corajosas são as verdadeiras responsáveis pelas mulheres votarem e serem elegíveis.

Anote que governantes levam a fama das mudanças. Mas, por trás dos panos, tem muita gente que lutou e luta para que coisas mudem. Gente que acredita. Sempre são os mais discriminados - negros, mulheres, indígenas, gays, pobres - que começam a roer a corda que os aprisionam.

Outro dia, escrevi uma resenha sobre o livro Virtuosas e Perigosas - As mulheres na Revolução Francesa, da pesquisadora Tania Morin. A autora trabalha um ótimo panorama do protagonismo das mulheres do povo na revolução das guilhotinas. Mas também anota que, apesar de tudo, as francesas só conquistariam o direito de votar em 1945. Ou seja, treze anos depois das brazucas.

quem diga que a História é informação de museu. Mas acrescento que é ela quem empresta densidade ao presente. Quando ponho meu dedinho no confirmar da urna eletrônica, faço uma prece silenciosa e reverente a todas as mulheres que, com sua coragem, viabilizaram o meu voto.

No 26 de outubro, irei repetir o rito. O gesto autodeterminado de escolher. Posso acertar, posso errar. Tanto faz. O que interessa mesmo é a festa, da qual não preciso de convite. Pois ela me pertence por conquista.

Imagem: Régine Ferrandis

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