Pequenas felicidades

Fernanda Pompeu

Para quase todos, chega uma época em que os lençóis não se incendeiam mais, em que os espelhos perdem sua generosidade. É quando nos tornamos frutas maduras, pessoas matematicamente com o tempo passado mais extenso do que os possíveis anos futuros.

É mais ou menos nesse degrau de vida que passamos a prestar atenção nas pequenas felicidades. Aquelas que nos abraçam mansas e despretensiosas. Elas nem batem à porta, vão entrando com a intimidade das sandálias velhas.

Se comparássemos a um gênero musical, a pequena felicidade seria mais bossa nova do que samba. Mais música de câmara do que sinfonia. Também seria mais igrejinha de bairro do que catedral. Mais lojinha de esquina do que lojona de shopping.

De alguma maneira, penso que precisamos envelhecer para notar e valorizar o detalhe, a meia palavra, a atmosfera. Talvez isso ocorra porque os olhos já quase tudo viram, os ouvidos escutaram risos e dores. E a boca muito falou, muito beijou, muito calou.

Domingo passado, tive essa experiência de felicidade. Aconteceu na praça Vicentina de Carvalho, no paulistano bairro do Alto de Pinheiros. Estávamos eu, meu pai, minha mãe. Ele com 83 anos. Ela, com 80. Eu, mocinha, com meus 57.

Irei descrever a cena. Meu pai sentado na cadeira de rodas, minha mãe, ao lado dele, sentada numa cadeirinha desmontável. Os dois debaixo de uma frondosa árvore. Réstias de sol iluminavam os rostos e os olhos deles.

Imitei os pintores que para avaliar o quadro em que estão trabalhando se afastam para enxergar melhor. Foi o que fiz, me distanciei alguns metros. Daí pude ver a mulher e o homem vividos, curtidos pelas experiências. Será que sonhando com nuvens?

Estavam tão plenos! Exatamente montados no presente. Ao contrário de mim, não tinham nenhuma agonia de agendas e relógios. Eles apenas olhavam para o sutil bater do vento nas flores de um manacá.

isso? Entendi que era tudo isso. A vida se apresentando sem artifícios, sem subterfúgios. Nua. Presenciá-los sentados em suas cadeirinhas, entregues à concretude do instante, me encheu de felicidade. Da grande felicidade.

Imagem: Régine Ferrandis, Paris.