Que falta a poesia faz

Mamãe, 80 anos, diz que aprendeu a ler poemas na escola primária. Ela sempre reitera que também sabia o nome dos autores. Meu sobrinho caçula, 20 anos, nem aprendeu o "batatinha quando nasce esparrama pelo chão". Faz muito tempo que a poesia foi banida da página do dia.

Ela virou assunto de aula de literatura, obrigação de vestibulandos. Quando alguém de repente diz versos, olhamos com certa estranheza. Outro dia na padoca Pioneira, na Vila Madalena, uma senhora puxou: "Ora direis ouvir estrelas! Certo. Perdeste o senso!" A mulher se foi e a jovem caixa comentou: "Pirou".

Talvez a moça do caixa tenha razão. Só os loucos ouvem estrelas. Pois gente normal ouve rádio, manifestante, cunhada, namorada, sogra, amigos. Gente normal, quando muito, vê estrelas. Como escutá-las se elas não têm boca?

Mas rondei com os versos na cabeça. A história de ouvir estrelas me acompanhou no supermercado, na fila do banco, no trânsito sempre ruim. Como uma poesia puxa a outra, lembrei de uma Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) que amo:

"Se de tudo fica um pouco, / mas por que não ficaria / um pouco de mim? no trem / que leva ao norte, no barco, / nos anúncios de jornal, / um pouco de mim em Londres, / um pouco de mim algures? / na consoante, / no poço?"

Então percebi o óbvio. Recordar versos nos torna mais sensíveis. A alma fica mais delicada. É como generosidade entrando pelas janelas dos mesquinhos cômodos do cotidiano. Este tão corrido, pragmático, duro até. Temos tantas coisas a fazer. Temos?

Às vezes me ocorre que poderíamos jogar metade de tudo na lata de lixo. Metade dos pares de sapato. Um terço das manias. Cinquenta por cento das prateleiras. Alguma parte do medo. A maior porção do tédio.

Na noite deste dia, abri a internet, digitei: Ora direis ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso! Encontrei os versos e seu autor Olavo Bilac (1865-1018). Ele também letrista do Hino à Bandeira: "Salve lindo pendão da esperança!"

Li no final do poema a resposta ao enigma. A trilha para se tornar uma pessoa capaz de escutar estrelas: "Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Imagem: Régine Ferrandis, de Paris.

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