Mércio P. Gomes
  • Na rememoração dos 50 anos do golpe militar vêm surgindo diversas novas explicações sobre esse infausto acontecimento que deixou uma herança tenebrosa para o Brasil. A principal delas é que o golpe não foi só militar, mas também civil. Isto é, uma parte significante da sociedade brasileira, especialmente aquela capaz de veicular suas atitudes contrárias ao que estava acontecendo no país, demonstrou que não queria o tipo de governo existente e pediu aos militares para intervir. E eles o fizeram. Outra nova explicação é a de que os primeiros quatro anos da intervenção militar não teriam sido propriamente uma ditadura, já que o Congresso Nacional não fora dissolvido, apenas uma parte dele fora escoimada por cassação de seus direitos políticos. Assim, a ditadura só teria começado mesmo a partir do Ato Institucional nº 5, de dezembro de 1968, que não somente cassou mais direitos políticos mas também proibiu uma série de direitos civis e jurídicos de todo e qualquer cidadão, dando ao governo

    Saiba mais »de 1964-2014: Cinqüenta anos de dispersão
  • Santiago Andrade é o cinegrafista da TV Bandeirantes que foi morto por um disparo de um rojão na nuca, por ocasião da manifestação de protesto ocorrida no Rio de Janeiro, dia 6 de fevereiro último. O rojão foi acendido e lançado pelos manifestantes Caio Silva de Souza e Fábio Raposo, que, com isso, se lançaram ao abismo do inferno humano, responsabilizados pela morte intempestiva de um homem. A frase “foi sem querer, querendo” é de autoria do genial comediante Chávez, que há três décadas delicia e instrui a infância brasileira (e muitos adultos que acompanham seus filhos) com as peraltices de um menino órfão que vive numa vila de pobres coitados e excluídos no México.

    Todo mundo sabe o que é “foi sem querer, querendo”. Toda criança o pratica, até adultos se beneficiam dela. A frase pode até ser invertida e com quase o mesmo sentido, talvez uma pouquinho mais incerto. De qualquer modo, um pequeno ato de ingênua maldade, cujo resultado termina indo além do intencionado.

    Santiago, em

    Saiba mais »de Foi sem querer, querendo: a morte de Santiago e a agonia de Caio e Fábio
  • Os portugueses vieram, viram e venceram, como se fossem Cesares conquistando os bárbaros francos e celtas. Nem adianta reclamar do leite derramado. O Brasil foi conquistado, delineado e ampliado pelos portugueses e aqui, segundo Gilberto Freyre e Darcy Ribeiro, fizeram uma nova civilização, uma civilização dos trópicos, submetendo indígenas e africanos e mesclando com eles para fazer uma população mestiça e diferenciada de suas origens. É a pátria de 200 milhões de pessoas que falam uma língua e partilham de uma cultura comum com altíssimo grau de fidelidade por todos seus rincões.

    Em matéria de caráter, os portugueses aqui aportaram com o sentimento do privilégio e do poder, e o exerceram desde sempre e pelas gerações seguintes. Seus descendentes diletos se transformaram na elite da nação, não para nutri-la e engrandecê-la, mas para possuí-la. Quando abre espaço para a ascensão de novos ricos, eles logo são cooptados a se sentirem privilegiados, patrimonialistas e incólumes às regras

    Saiba mais »de A culpa é do nosso caráter nacional (IV-final) – O fator português
  • Todo mundo tem por certo que o Brasil se formou pela mestiçagem entre brancos portugueses (e no meio cripto-judeus), negros africanos e índios autóctones. Só depois da metade do século XIX é que começaram a vir outros imigrantes: italianos, espanhóis, mais portugueses, alemães, sírio-libaneses, poloneses, e, ao final, japoneses, chineses e coreanos.

    Dos índios escrevemos na última postagem. Sua influência sobre o caráter nacional se deu via sua mestiçagem e integração formativa na nova cultura luso-brasileira. É a parte séria, trabalhadora, indisciplinada e ingênua do nosso caráter. Agora é a vez de pensarmos sobre as contribuições do negro na formação do caráter nacional.

    Calculam os historiadores que mais de quatro milhões de africanos aportaram no Brasil como escravos. Metade de todos os africanos arrancados da África entre 1500 e 1850 e espalhados por toda a América. Vieram para produzir lucro nos novíssimos engenhos de cana de açúcar, nos tabacais, nas minas, e já no século XIX

    Saiba mais »de A culpa é do nosso caráter nacional (III) – O fator negro
  • (Continuação do artigo anterior com o mesmo titulo)

    Retomando o tema caráter ou falta de caráter, o poeta Gonçalves Dias, autor dos poemas “Canção do Exílio”, “Y Juca Pirama”, entre muitos outros, escreveu, em 1849, portanto há 165 anos, que o “nosso caráter nacional era ainda pouco desenvolvido” e que derivava primordialmente dos índios, que, para ele, haviam feito “tudo de bom e grandioso que há neste país”.

    Como pode alguém, mesmo um poeta visionário, atribuir aos índios, que ele até então só os conhecia por livros ou de sua infância em Caxias, Maranhão, esses dois feitos tão extraordinários? Bem, do segundo feito, i.e., que o Brasil deve tudo de bom e grandioso aos índios, deixemos de lado. Seria muito custoso achar bons argumentos para tentar demonstrar o que o poeta tinha em mente ao dizer aquilo. Já o que nos interessa é a primeira asserção, a de que o índio é que compôs o nosso caráter nacional, “ainda pouco desenvolvido”.

    Gonçalves Dias falava do velho estado do Maranhão (e

    Saiba mais »de A culpa é do nosso caráter nacional (II) – O fator indígena
  • Poucos se lembram, mas na década de 1950 dizia-se que o Brasil só crescia à noite, enquanto dormia. Como se fosse uma criança, por certo. Havia muitas referências ao Brasil ser um país novo. Só tinha 460 anos de fazimento, por exemplo. Aí, quando se o comparava aos Estados Unidos, que só começou a ser inventado mais de 100 anos depois, o argumento caía. Eles são até mais novos e já mandam na gente. Nós nos achávamos, nós éramos umas crianças alegres, com pouco senso de responsabilidade, e éramos festejados por isso, veja como Walt Disney nos fez o Pagagaio Zé Carioca.

    Ao acordar de seu sono produtivo haveria sempre alguém desfazendo aquilo que havia sido feito à noite, no sonambulismo nacional. Azar, sempre um calhorda no meio do caminho. Em virtude de serem feitas à noite, portanto, as coisas também não saíam tão bem feitas assim. E a fama de nossa indústria corria solta, é nacional, coisa sem valor, preterida sempre pelo que vinha de fora.

    O desenvolvimento noturno era metáfora de um

    Saiba mais »de A culpa é do nosso caráter nacional
  • Quem não gosta de futebol? Os índios adoram, ainda que seja uma atividade completamente dissociada de sua vida étnica, inventada por ingleses e praticada como esporte e profissão por 90% da população humana, se incluirmos as mulheres.

    Fazer uma bola de alguma coisa maleável e não muito pesada é algo que já passou pela cabeça de muitos povos e culturas ao longo do tempo. Mas para que? A grande maioria parece que nunca se interessou. Contam-se entre os dedos as culturas que praticavam chutar ou lançar uma bola, certamente porque parecia uma coisa inofensiva, sem motivo ou semelhança com artes de guerra. Os gregos olímpicos e os romanos jogavam uma espécie de bola, mas nenhum jogo com bola jamais constou como modalidade olímpica.

    Os aborígenes australianos, aquele povos singulares que mais tempo se mantiveram afastados de contato com outros povos, nunca brincaram de bola, mas inventaram algo bem mais especial, o bumerang. Atirar um graveto bem modulado em ângulo obtuso servia para a caça

    Saiba mais »de Índios amam futebol e Gaviões viram profissionais
  • No meio de toda nossa imensa confusão e do escorchante calor que nos atinge, estive outro dia na Ilha Grande, a maior das dezenas de ilhas que pontilham a Baía de Angra dos Reis.

    Quando Américo Vespúcio cruzava pelo litoral do Brasil, por volta de 1501, já como comandante a serviço da Casa dos Médici, foi dos primeiros a marear pela Baía de Angra dos Reis. Acho que foi ele quem lhe deu o nome. Em uma de suas cartas ao patrono, demonstrando o quanto se impressionara com a beleza do local, escreveu que, se houvera um paraíso na Terra, esquecido do homem, deveria estar localizado por aqui. Esse sentimento preenche quem passa por lá.

    Pois bem, na Ilha Grande tem o vilarejo do Abraão, onde todo mundo vai, por causa dos hotéis e dos serviços prestados. Há cariocas, paulistas, mineiros e gaúchos à vontade, e também um batalhão de estrangeiros, principalmente franceses, que descobriram essa maravilha. Há, por conseguinte, muita farra e fanfarra, digamos, em dó menor.

    Mas, o que me chamou a

    Saiba mais »de O romantismo está de volta?
  • Nada é modo de dizer: muito pouco ou alguma coisa funciona. Em países como a Holanda, Alemanha, Noruega, Inglaterra e Estados Unidos, quase tudo funciona como esperado. O que não funciona aqui é o quê é exigido pela modernidade, pelo capitalismo desenvolvido. Nesses invejados países e outros mais na Europa os trens saem e chegam no horário, a burocracia é eficaz, a corrupção derivada do poder é pequena (sabe-se tolerável, por punível), as ruas são um tapete, há água e saneamento para todos, não se sujam as ruas, as escolas públicas são de tempo integral, os professores são dedicados e os alunos estudam, os serviços públicos e os privados atendem à maioria dos reclamos da população e a vida segue sem muita perda de tempo, num cronograma previsto, e com alguma felicidade. Já sofreram muito em guerras e, por saberem que o ódio que os move provocará novas guerras, se fazem atentos contra os outros. Nem o rock dos Beatles traz peace.

    Leia também
    Enquanto tiver língua e dedo … A

    Saiba mais »de Nada funciona no Brasil, exceto nossa sociabilidade
  • Embora elogiada por alguns membros da família Moraes, a recém-publicada pseudo-biografia de Vinícius de Moraes vem provocando bastante celeuma entre intelectuais, músicos, amigos, maridos e ex-namorados das ex-mulheres de Vinícius.

    Não que a pseudo-biografia, subintitulada provocadoramente “Na próxima encarnação queria ter o pau um pouco maior”, seja mal escrita ou peque contra a verdade dos fatos da vida de Vinícius. Pelo contrário, seu autor, um anônimo biógrafo que não se revela nem para a editora, que aliás, também se recusou a registrar-se no cadastro do Instituto Nacional do Livro, parece ter participado vivamente da vida do autor do “Soneto do que poderia ser”. No anexo ao livro consta uma lista de mais de 666 entrevistas feitas com quase todo mundo que conheceu Vinícius, alguns ainda vivos, mesmo que sofrendo de males do esquecimento. Há indícios de que ele (ou ela) esteve com Vinícius na sua primeira incursão ao Mangue carioca, que passou a limpo o “Soneto da Despedida”, que

    Saiba mais »de Enquanto tiver língua e dedo … A pseudo-biografia de Vinícius de Moraes
Carregando...

Paginação

(19 artigos)

Siga o Yahoo Notícias