Mexidão
  • Às vezes bate um desânimo. É muita idiotia correndo solta, muita falta de interpretação de texto e cenário, e desrespeito, arrogância, cinismo, desumanidade e falta de educação de uma gente que acha [seriamente] que vai rolar um Golpe Comunista no Brasil ou que uma Ditadura Gay está prestes a ser empalada, quer dizer, implantada. Um pessoalzinho sonhando com a volta dos milicos e que, antas que são, nem entendem que em termos práticos a Ditadura Militar só serviu para atrasar e violentar o país em pelo menos três décadas e muitas gerações.

    Essas bestas convocaram para sábado próximo, 22 de março, uma tal Marcha da Família com Deus pela Liberdade 2, cinco décadas após a primeira marcha [um dos marcos do Golpe Militar que aconteceria alguns dias depois, em 31 de março de 1964]. Teoricamente, a marcha acontecerá em várias cidades do Brasil, mas na página do evento de São Paulo no Facebook não estão confirmados nem 3 mil pessoas, o que em termos de redes sociais é irrelevante [devem

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  • Juçara Marçal é um doce. E está sempre sorrindo. Coisa mais fácil do mundo é ver Juçara sorrindo (fotos, vídeos ou shows, tanto faz). Mas não vá se enganar não, pois essa jovem revelação veterana de 52 anos canta com a faca nos dentes. Ela se joga e se rasga, depois afaga e sussurra, e então grita e sorri. Ela se arrisca. Juçara é uma das melhores cantoras do Brasil.

    Ela está lançando agora seu primeiro trabalho solo, o belíssimo Encarnado (o disco está para download gratuito em seu site), mas desde o início dos anos 1990 é integrante do Vésper Vocal e acompanhada de Mônica Thiele, Ilka Cintra, Nenê Cintra e Mazé Cintra lançou quatro discos (Flor d’Elis, Noel Adoniran - 180 Anos de Samba, Ser Tão Paulista e Vésper na Lida). Também foi integrante do grupo de pesquisa musical A Barca e nele gravou outros dois discos (Turista Aprendiz e Baião de Princesas).

    foto que tirei para o disco "Ser Tão Paulista" (CPC-UMES, 2004) do Vésper Vocal

    A partir do encontro com o músico e compositor Kiko Dinucci, e do consequente lançamento do disco Padê (2007), a carreira de Juçara

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  • São Paulo está sob ameaça de um racionamento de água. A Sabesp diz que a culpa é do usuário que desperdiça água, que faz “gato” e por aí vai. Nesta semana, o metrô paulistano teve (mais uma vez) problemas, e pessoas ficaram presas por mais de meia hora dentro de um túnel sem ar condicionado, o que resultou em pânico, saídas de emergências acionadas, pessoas andando pelos trilhos e um colapso generalizado que durou cerca de 5 horas. O Secretário Estadual de Transportes e o Governador Geraldo Alckmin disseram que a culpa foi dos usuários “vândalos”. Nenhuma das autoridades assumiu qualquer parcela de erro. O inferno são sempre os outros.

    No fundo (e nem tão no fundo assim), o cidadão não passa de um cliente pentelho, um inimigo, pra esse jeitinho empresarial de lidar com a “coisa pública”. Mas o que era o último grito da moda administrativa nos anos 1990 esfacelou-se com a crise de 2008, na qual bancos e instituições financeiras quase levaram o mundo à bancarrota e mesmo assim não foram

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  • A convite do projeto São Paulo São escrevi um texto, uma espécie de balanço ligeiro, do primeiro ano do “Você praça acho graça / Você prédio acho tédio”, stencil que tenho feito pelas ruas e muros de São Paulo, mas que também foi parar, das mais variadas formas, em Fortaleza, Belém, Vitória, Belo Horizonte, Recife e Rio de Janeiro. Reproduzo o texto aqui porque ‘ocupar a cidade de uma forma mais humana’ é um dos assuntos mais recorrentes nas minhas colunas aqui do Yahoo! (“Por uma cidade cheia de graça” e os recentes textos sobre rolezinhos e a Cracolândia são alguns dos exemplos). Saca só...

    Praça também serve pra isso: sonequinha

    Por mais que soe ligeiramente piegas, a história do stencil “Você praça acho graça / Você prédio acho tédio” é uma história de encontros e reencontros amorosos com São Paulo e suas pessoas. Moro aqui desde 1994 e agora, exatamente um ano após as primeiras aplicações em muros dos bairros de Jaguaré e Pinheiros, vejo como essa minha primeira ação nas ruas tem muito a ver com minha identificação e

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  • Em qualquer situação, uma frase como essa do título seria de uma tristeza absoluta, mas a realidade pode ser ainda mais cruel. “Que hotel que nada, eles querem é matar a gente”, disse uma dependente grávida que corria da polícia na quinta, 23 de janeiro, no Centro de São Paulo. Exatamente uma semana depois de a Prefeitura começar uma ação chamada Operação Braços Abertos, no qual oferece moradia, alimentação, trabalho e acompanhamento de saúde aos dependentes de crack. “Até que enfim algo que não é polícia”, declarou então, emocionado, um morador das ruas da Cracolândia.

    Só que na quinta, em uma ação surpresa, desastrada e criminosa, a Polícia Civil do governador Geraldo Alckmin prendeu arbitrariamente um traficante – na verdade um “vapor”, traficante de terceiro escalão que vende para pagar a própria droga –, o que gerou revolta no fluxo do local e um consequente confronto. Pessoas foram presas (e a polícia não divulgou seus nomes, as acusações, o que foi “apreendido”, nada), feridas,

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  • Um espectro ronda os shoppings de São Paulo: o espectro do rolezinho. Mas, peraí, desde que o mundo é mundo, os jovens se reúnem em grupos para se divertir, paquerar, beber, comer... viver, enfim. E, desde os anos 1980, os shoppings se transformaram em um dos lugares preferidos para esses encontros com seus cinemas, praças de alimentação e lojas. No caso específico de São Paulo, com as poucas opções de lazer público e a tal falta de segurança nas ruas, esses espaços se tornaram cada vez mais usados e necessários (bobagem ficar julgando se shopping center é legal ou não, shopping é).

    Então, de uma hora para outra e em pleno ano de 2014, o rolezinho pode dar multa (10 mil reais!) e seus participantes passaram a receber o tratamento habitual da Polícia Militar (humilhação, agressão física, bombas de gás e tiros de borracha). O rolezinho virou crime numa aliança bizarra (e muito reveladora) entre donos de shopping, lojistas, uma parcela da clientela, PM, mídia e Judiciário.

    O que mudou

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  • Não sei o que vocês andaram escutando nesse ano louco, mas o rap brasileiro andou soberano por essas bandas aqui. Não é de agora que sou muito fã do gênero e não é de hoje que tenho certeza que o rap nacional é a música brasileira mais intensa, inquieta, variada, engajada e moderna desse início de século 21. Mas 2013 foi um ano particularmente interessante. Muitos lançamentos, estreias, carreiras sendo construídas, astros se afirmando (Emicida e Criolo), veteranos na ativa (Edi Rock do Racionais MCs lançou disco solo e Marcelo D2 segue na sua batida perfeita) e alto nível em grande parte da produção.

    Fiz então uma seleção de 9 artistas que podem muito bem resumir o que de melhor foi lançado este ano no gênero e na música popular brasileira. Não coincidentemente todos emplacaram músicas numa lista que fiz com “50 músicas brasileiras de 2013”.

    AS MINAS - Lurdez da Luz traz a experiência do trabalho nos anos 2000 como integrante do Mamelo Sound System e estreou solo em 2009. Neste ano

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  • Entrei no ônibus e eles estavam lá, hipnotizando metade dos passageiros. Pouco depois desci, peguei o metrô e a cena se repetiu: homens e mulheres de todas as idades e jeitos quase todos de corpos curvados, olhando para baixo a passear com seus dedos por espertofones e tablets.de última e não tão última geração. Tem sido assim no mundo todo e a tendência é aumentar e se multiplicar em inúmeras plataformas. Talvez daqui a alguns anos essa gente ganhe corcundas e seus descendentes já nasçam assim, ou talvez voltem a ficar eretas. Vai saber o que pode acontecer.

    Mas contrariando as lamentações dos saudosistas essas pessoas curvadas continuam interagindo, talvez até mais, só que com pessoas que não estão ali fisicamente, olho no olho. Isso é bom por alguns lados, afinal as informações navegam mais rapidamente e com menos interferências e, efetivamente, é possível conhecer mais pessoas e posteriormente trazê-las para a vida real. O lado ruim, pelo menos um deles, é que essa virtualidade

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  • Parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo nesse louco 2013, ano-palco de uma impressionante série de movimentações que terão impactos profundos no futuro do país (pro bem e pro mal). Falei recentemente do Marco Civil da Internet no texto “Por uma liberdade semi-impossível” e agora o nó da vez é o Novo Código de Mineração Brasileiro, que está para ser votado e é outro assunto complexo que coloca movimentos sociais de um lado e poderosos interesses financeiros do outro.

    Em termos gerais o que está prestes a ser aprovado é um código que mantém as coisas como antes (as mineradoras fazem o que bem entendem e passam por cima de todos), mas com o governo federal ganhando mais dinheiro com isso.

    Serra Pelada, Pará, 1981 [foto de Rudi Böhm]

    Bem, se existe muita grana em jogo, a batalha é obviamente desigual. Ainda mais quando parte do Congresso tem ligações íntimas com mineradoras. Por exemplo, o relator do Novo Código de Mineração é o deputado federal Leonardo Quintão (PMDB-MG) e 20% de sua campanha partiu das mineradoras. Quintão

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  • Arte na rua já era um dos meus assuntos preferidos – em fevereiro de 2012 escrevi o texto “Arte que desmancha no ar” aqui no Yahoo, por exemplo –, mas desde janeiro deste ano, quando comecei a fazer minhas próprias intervenções, a coisa toda tomou novas proporções dentro da minha cabeça. A partir da minha experiência com o estêncil “Você Praça Acho Graça” escrevi aqui o texto “Por uma cidade cheia de graça” e, efetivamente, passei a ver a cidade com outros olhos. Na sequência fiz mais dois estêncils e agora, tudo ao mesmo tempo, venho pixando versos de músicas do cancioneiro de Roberto Carlos no “Rei, o pixo”.

    No mês passado saiu uma matéria que fiz para a revista Audi Magazine intitulada “A cor das ruas” (também disponível para iPads e quetais), no qual tratei da importância de quatro cidades (Nova York, São Paulo, Londres e Berlim) na história e no desenvolvimento da arte na rua. Como é de costume em matérias assim, entrevistei várias pessoas, mas na edição final entraram pequenos

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(53 artigos)

Sobre Dafne Sampaio

Jornalista de cama, mesa e banho. Foi editor de cinema da Som Livre Loja Virtual, da revista "Monet" (Ed. Globo) e do site da "Istoé". Colaborou e colabora para veículos como "Piauí", "Revista da Gol", "Brasileiros", "CartaCapital" e "Folha de S. Paulo", entre outros. Foi um dos fundadores do site Gafieiras, mantém o blog Esforçado e também pode ser encontrado no Twitter.

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