Marcha soldado cabeça de coxinha

Mexidão

Às vezes bate um desânimo. É muita idiotia correndo solta, muita falta de interpretação de texto e cenário, e desrespeito, arrogância, cinismo, desumanidade e falta de educação de uma gente que acha [seriamente] que vai rolar um Golpe Comunista no Brasil ou que uma Ditadura Gay está prestes a ser empalada, quer dizer, implantada. Um pessoalzinho sonhando com a volta dos milicos e que, antas que são, nem entendem que em termos práticos a Ditadura Militar só serviu para atrasar e violentar o país em pelo menos três décadas e muitas gerações.

Essas bestas convocaram para sábado próximo, 22 de março, uma tal Marcha da Família com Deus pela Liberdade 2, cinco décadas após a primeira marcha [um dos marcos do Golpe Militar que aconteceria alguns dias depois, em 31 de março de 1964]. Teoricamente, a marcha acontecerá em várias cidades do Brasil, mas na página do evento de São Paulo no Facebook não estão confirmados nem 3 mil pessoas, o que em termos de redes sociais é irrelevante [devem aparecer uns 50 infelizes e provavelmente terá mais imprensa que isso]. Para aumentar a humilhação pública marcaram em dois lugares diferentes [Praça da República e Obelisco do Ibirapuera] e encontrarão, na Praça da Sé, com duas marchas anti-golpistas.

Uma das organizadoras de um dos eventos marchescos "familiares" de São Paulo se chama Cristina Peviani que, em matéria recente na Folha de S. Paulo, afirmou o seguinte: “Eu nem sei se eles adotaram isso [a tortura]. Porque o pessoal que diz que foi torturado está tão gordo, tão forte, tão bonito, né? Eu vi lá na comissão [da Verdade de São Paulo], que eles não tinham uma marquinha sequer”. Essa mesma Peviani “foi repreendida em dezembro passado por um agente da Justiça Federal por lixar ruidosamente as unhas enquanto uma ex-presa política relatava ao juiz as torturas e abusos sexuais que sofreu na Operação Bandeirante [aspas de uma matéria d'O Globo]”. Gente como Cristina Peviani que nega, brinca ou menospreza a tortura deveria ter suas unhas lixadas pelo pessoal do DOI-CODI para entender um pouco do que o mal é capaz de fazer.

Outro cabeça [cof cof] do evento é Bruno Toscano Franco que é o típico comentarista raivoso de grandes portais: racista, homofóbico, machista, defensor da pena de morte, dono da verdade, preconceituoso e burro da cabeça aos pés [e que se diz ao mesmo tempo religioso, “do bem”, “pago os meus impostos”, “direitos humanos para humanos direitos”, blábláblá]. Todo esse papinho furado costuma caminhar junto tanto entre esses comentaristas de portal quanto nos seus “formadores de opiniões” [roqueiros velhos e decadentes, jornalistas ultrapassados e sem talento, apresentadoras(es) de TV toupeiras e exibicionistas, etc.]

Por mais que eles e elas esperneiem, prendam a respiração ou batam pezinho, o Brasil só melhorou e melhorará democraticamente [com participação de todos nas muitas formas de fazer política]. Como isso vem acontecendo de fato, a turminha autoritária passou a ladrar mais alto. Mas é só isso. Essa gente do “farinha pouca, meu pirão primeiro” não vai muito longe [não mais, não por muito tempo]. Quem realmente interessa, que é grande parte da população, sabe que sua vida melhorou sim e que pode melhorar ainda mais, e que é por isso que lutamos, por um país melhor para todos. Então o ânimo volta, porque tem muita coisa [boa] pra fazer. Basta seguir em frente, nunca esquecer o passado e não dar muita trela pras burricadas que hão sempre de pastar por aí.

p.s. 1: Após três anos e 115 textos [esse é o 116º] chega ao fim minha coluna no Yahoo! Nesse período aprendi e compartilhei muitas coisas, majoritariamente de cultura, comportamento, política e internet. Falei com muita gente, li milhares e milhares de comentários [muitos me xingando] e, acima de tudo, ouvi. Saber ouvir é um dos instrumentos mais importantes para o bom jornalismo, mas a verdade é que é melhor ainda pra vida [mesmo que ocasionalmente incomode ou cause repulsa]. Nesses três anos de Yahoo!, junto com meus outros trabalhos como jornalista, aprendi a ouvir mais e melhor.

p.s. 2: Só tenho a agradecer a Michel Blanco [e Rafael Alvez] por essa ótima experiência. E agradecer também aos colegas blogueiros aqui do Yahoo!: Walter Hupsel, Ana Aranha, Pedro Alexandre Sanches, Raquel Rolnik, Lúcio Flávio Pinto, Nina Lemos, Carol Patrocínio, José Guilherme Pereira Leite e Jornalismo Wando. Alguns continuam, outros não, mas tenho certeza que sabemos de alguma forma que poucas vezes a internet viu um time tão bacana.

p.s. 3: Se bater aquela saudade de me xingar podem me encontrar no Esforçado.

p.s. 4: E, claro, fizeram um tumblr, o Marchas da Família.